Já passou bem mais de um mês sobre o passeio à ilha de S. Miguel nos Açores. Talvez tenha perdido o interesse. Mas, só pelo facto de conseguir teclar quase normalmente, vale a pena escrever. Voltar a ele. Dizer o de toda a gente: que é uma ilha divina, tanta beleza natural faz-nos ajoelhar sentindo uma enorme gratidão pelo que nos é dado a ver e por sermos nós a estar ali. E, em simultâneo, a mágoa por tantos sem a chance, a quem S. Miguel é impossível qualquer que seja o tempo verbal que usemos.
Fica muito por dizer. Não falei das plantações de chá Gorreana e Porto Formoso, lugares de ruas e casas lindas e cuidadas. Não escrevi das funcionárias que vimos a trabalhar, dos instrumentos reluzindo novidade e dos mais antigos e baços e históricos, mas que não perdem beleza. Quanto o chá necessita para ser delícia a fumegar nas nossas chávenas!
Bebemos chá nas varandas aprazíveis como noutras épocas, em senhoriais e delicadas chávenas. E nós debruçadas nas varandas, mirando a plantação em esquadria perfeita, oferecida ao olhar como sendo nossa – o que vemos e trazemos é nosso. Que ninguém traz apenas o chá em pacote, recadam-se os cheiros, o verde a perder de vista, a altura rasourada da plantação, a inclinação do terreno, o relógio antigo na varanda, o olhar das funcionárias, mãos sempre trabalhando e o pensamento, “mais uns mirones, só empatam” ou “andam de passeio a ver quem trabalha; fraco gosto”. Lembro-me de cogitar que, sentadas àquela mesa comprida – o chá a meio -, ainda assim não podiam atirar conversa fora, os visitantes, sempre novos, passavam a todo o momento. E tive pena daquelas mulheres sisudas, sentadas e silenciosas rodeando a mesa, todas mãos e dedos maquinais nas dobras de pacote. Mulheres que não podiam dizer uma graça, contar uma anedota, falar do almoço ou do jantar, desabafar uma tristeza. Mulheres trabalhando conjuntamente e em completo silêncio. Deve ser mau.
Da plantação de ananases pouco sei. Não recordo o nome da que visitámos, eu e os ananases não conectámos. Apreciei bem mais o variegado jardim de orquídeas no Hotel do Parque Terra Nostra: eram flores, sobre flores, sobre flores. A perfeição em estado floral.
Que dizer das cascatas?! Não as vi todas, mas as da Ribeira dos Caldeirões passei-as a pente fino. Se algumas houve com que deparei sem esperar, desbundando lá do alto, as da Ribeira são esplêndidas; por elas mesmas - beleza espectacular – e pelos caminhos e circuitos floridos e verdes que as rodeiam. É paisagem idílica e imagino que seja uma espécie de céu (se lhe retirarmos a loja de souvenirs) a que os antigos moinhos, ora recauchutados, dão certo ar de família. Já não recordo nomes – excepção feita ao véu da noiva – mas guardei as gotas húmidas na pele, o cheiro misturado da água nas pedras e na vegetação molhada. E não esqueço o encantamento que notei em alguns olhos. Porque vemos e sentimos nas mesmas coisas, coisas e sentimentos e emoções diversos. Contudo, entre nós havia uma comunhão espontânea despoletada pela natureza. Agradável, a ideia de me sentir internamente de mãos dadas a gente desconhecida, sermos capazes de experimentar sensações e pensamentos idênticos. E lembrei-me, imaginem, de Kant. Segundo julgo, este filósofo afirmava que era no juízo de gosto que os homens se encontravam. Quem sabe se não teria razão. Mas, por várias razões, nem todos os homens têm na beleza o seu ponto de encontro com os outros.
Garanto: não vos maço mais com a única ilha que visitei na vida. Até porque hoje é o dia da criança - em parte será sempre o meu dia - e tenho de ir celebrar.
Queiram dar-se à fortuna de uma boa semana