quinta-feira, 31 de julho de 2025

Phatos

 

        É vulgar as mulheres gostarem de gatos. Não sei explicar o porquê, mas é assim. Se dissecar o meu gosto por estes animais - também eu vulgaríssima -, reparo que a afinidade me veio da célula familiar. Em tempo salazarista e de miséria popular, parcialmente criada por avós maternos, veio-me o hábito da gataria. Meus avós tinham vários bichanos (era assim que os chamavam) e a Bibi - mãe e mulher de todos – reinava em abençoada promiscuidade e era a única a dar por nome próprio. A Bibi idolatrava meu avô e, no regresso do trabalho, muito antes de passar o portão, já ela se postava de sentinela - portão é modo de dizer, tudo no exterior da casa de meus avós eram flores, só elas distinguiam festivamente sectores e distâncias. Lembro-a sentada e calma sob o arco da trepadeira, na certeza da proximidade que nós não discerníamos, eu a tentar os longes com a minha miopia ignorada e ela imbuída de intuições sentimentais. Jamais se enganou. No tempo de em mim não haver horas, a gata era-me relógio, e reconheço hoje a semelhança de ambas na quase adoração a meu avô. Contudo, mal o lobrigava, eu desatava a correr até ele; ela, imperturbável, era estátua inamovível. Tenho ampla certeza do amor grande de meu avô; mas também sei do afecto vivo pela Bibi que, entrado o portão, não o largava mais. Meu avô deitava-se cedo e cedo partia. Ninguém conseguiu jamais retirar a Bibi da porta do quarto; a Bibi nocturna era o anjo da guarda de meu avô; adiava a caça aos ratos, outros gatos e nem sequer os procurava no tempo do cio. As noites eram dedicadas a meu avô, coincidiam nos sonos. Tudo o resto se desenrolava durante o dia ou na madrugada escura em que meu avô partia; minha avó contava que a Bibi o acompanhava até ao dito portão inexistente. Não conheci até hoje gato mais dedicado a seu dono que a doce Bibi.

        Desconheço quantas Bibis houve na vida de meus avós, mas existiram decerto, minha mãe tinha paixão por gatos pretos e desde que me lembro, houve pelo menos um em nossa casa. Dizem que gatos pretos dão azar; minha mãe não foi bafejada pela sorte. Em fatal invariância, os nossos gatos, mais cedo ou mais tarde, desertavam para a herdade que estrema ainda hoje com a nossa quintinha pequena. Por vezes regressavam e, tornados selvagens, arranhavam os meus irmãos mais novos que os recebiam e queriam, num contentamento de saudade, pegar-lhes ao colo como antes. Eu regressava à tarde e tinha pela frente, estendidos para mim, uns bracinhos de mercurocromo, vítimas incautas dos nefastos animais a que eu ganhava de imediato má vontade se bem que, no fundo do meu ser relampejasse certa ideia vaidosa: gostavam mais de mim e, se fora eu, não me fariam o mesmo, deixavam-se mimar. Mas a verdade é que me chegou a vez, fizeram de mim uma pele vermelha só de braços e logo me arrasaram a vaidade.

        No prolongamento da tradição familiar, já tive vários gatos. Vivendo na beira de estrada, pouco duram. Ficou-me a gatinha de olho azul, a de maior longevidade; inteligente em seus passeios e cruzamento da estrada. E o gatito branco recém nascido, que encontrei na beira de estrada e aos primeiros dias me mostrou a sua morte – mal andava e já ele queria a estrada.

        Os gatos fazem-me falta. Seja lá pelo que for. Este ano a prenda de um filho foi uma gata do gatil. Pena ser já adulta. Chegou ontem e ainda não me gosta, mas já me segue. Chama-se como todas as outras: Gata (no boletim diz June, mas não ligo a esses pormenores). Não posso deixá-la ir à rua o que me constrange, mas sendo adulta e inda sem ligação afectiva, logo nos fugia. Não é bonita nem um pouco (a meu filho disse que é linda), o pelo é de um preto fulvo com laivos arruivados, tem olho amarelo de lince, aspecto de quem não deseja ser domada, rejeita abraços e colo, mas roça-se nas nossas pernas e acompanha-me pela casa; neste momento olha da minha janela aberta para a noite que se despede. Que verá?! Li um dia que os gatos não vêem igual a nós. Mas ela ali continua, absorta na paisagem que vê diferente.

14 comentários:

  1. Não sou fã de gatos, acho que não conseguiria ter um em casa.

    Já de cães, apesar de ter medo, sempre os adorei.

    Mas não faço mal a nenhum, pois claro.

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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  2. Somos todos diferentes, Cláudia. A diversidade parece-me salutar em muitos aspectos. Combate a monotonia:)
    Bom fim de semana para a trempe

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  3. Nunca gostei de gatos "no meu colo" ! O seu olhar felino mexeu comigo durante uma vida! Tive uma cadelinha rafeira durante 17 anos! Foi uma excelente companhia! Atualmente lido apenas com um gatarrão ... um belo bichano que foi tirado da rua há já uns anos! O seu olhar ainda mexe comigo mas consigo aproximar -me dele!!! Bj

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  4. :))) Gosto muito de gatos. Como contei ali em cima, fui criada com eles, todos gatos de rua e sem pedigree. Também julgo que são felinos, mas uns mais que outros, alguns dos que tive não pareciam. Esta gata, sim, é uma felina; embora seja pequena, o que me agrada. Não nos deixa senão passar-lhe a mão pelo dorso; segue-nos mas não se senta ao nosso lado. Contudo, salvo se está à janela, mia logo que se sente sozinha:). É o primeiro animal desta espécie que me chega já adulto. Preferia que fosse bebé. Não aconteceu. Paciência. Os gatos adultos, em geral, não apreciam colo.
    Também gosto de cães, são muito devotados.

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  5. Os dois rafeiros de casa são os verdadeiros donos disto tudo.
    Boa semana

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  6. No caso parece-me mais partilha de espaços:)
    Boa semana, Pedro

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  7. A tua reflexão sobre a relação com os gatos é profundamente tocante. A forma como descreves a dedicação da Bibi ao teu avô revela uma conexão única e especial entre eles. É fascinante como os animais podem ser tão intuitivos e leais, oferecendo-nos companhia e conforto de maneiras que muitas vezes palavras não conseguem expressar. A tua escrita transmite essa cumplicidade de forma sensível e envolvente. Espero que a tua nova gata, apesar de ainda estar a adaptar-se, traga muita alegria e carinho à tua vida. Que ela se sinta em casa e construa uma ligação especial contigo, tal como as anteriores.

    Com carinho,
    Daniela Silva 🩷🦋
    alma‑leveblog.blogspot.com

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  8. Obrigada pelas palavras simpáticas, Daniela. Não me parece que aconteça o mesmo que com os gatos anteriores. Mas é na mesma um companhia.
    Bom dia:)

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  9. Bea, que bonito texto sobre gatos!
    Quando os meus filhos eram pequenos introduziram lá em casa, com a cumplicidade do pai, uma gatita pele e osso que não pude recusar. Acabou por ter gatinhos e foi uma experiência muito interessante para os meus filhos. A condição que eu pus foi de que não seria eu a tratar deles. Um dia a gata caiu das escadas do terceiro andar do prédio e morreu. Foi um drama!
    Mas cedo apareceram mais dois gatos lá em casa e assim fui tendo, embora contrariada, vários gatos.
    Mas, evidentemente, também me ia afeiçoando aos gatos com os quais convivia
    . Quando um deles, o Chumbinho", desapareceu misteriosamente da casa de férias, tive um desgosto enorme! A "Gatucha", branquinha e com olhar meigo, continuou comigo já depois dos miúdos terem ido cada um à sua vida. Um dia adoeceu de velhice e levàmo-la a uma clínica onde acabou por morrer. Mas ainda hoje me chegam as lágrimas aos olhos quando penso no último olhar que trocámos. Nunca mais quis gatos cá em casa .
    Hoje cada um dos meus três filhos têm gatos no plural e a mais velha ajuda várias associações.

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  10. A minha história com gatos acaba por ser muito semelhante à tua, prosa, a diferença é ter crescido com eles. Tive vários, dois foram encontrados na rua e eram bebés, o último teria dias. Vários foram-me dados por gente sabedora do meu amor por eles, um saiu da casa dos donos e adoptou-nos. De todos, só a minha gata de olho azul viveu mais de cinco anos, os mais foram atropelados, vivo à beira de uma rua com algum movimento automóvel. Gostei de todos. Qualquer dos meus filhos gosta de gatos, mas esta gata não dá mão, podemos fazer-lhe uma festa no dorso, mas logo foge. Não fica no colo de ninguém nem autoriza que lhe peguemos. O filho mais novo já levou no braço uma recordação:).
    Um abraço

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  11. Também vivi com gatos, de passagem, às soleiras das portas, nos telhados, com nomes, errantes e anónimos. O primeiro, em casa da minha tia avó, era preto e eu muito pequena, chamavam-lhe Miqui (só muito tarde descobri que seria Mickey???). Tivemos uma gata mal nascida, refugiada, magra e esquiva. Viveu, engordou, gostava dos elementos masculinos cá de casa. Durante 16 anos. Sabia de tudo, quando havia crianças aqui e ela se escondia, até quando se faziam as malas para ir de férias. Deitava-se em cima da mala! A empregada vinha todos os dias falar-lhe e cuidar dela quando não estávamos. O trabalho e o preço de ter um gato bem cuidado é enorme. Quando ela morreu de velha decidi não querer mais nenhuma. Aqui em frente, na minha secretária estão duas fotos: da minha avó e o seu bisneto-filho-meu, e da Kitty. Fiz um livro com "a vida" dela, ao mesmo tempo que via as fases da nossa vida toda, quem estava e quem saiu. É isto que guardo. E a ideia que nós não os escolhemos, eles é que escolhem os donos. Uma citação que agora não vou procurar mas sei que a soube em inglês, nos meus vários livros sobre eles.
    Abç Bettips

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    1. Eu sei com saber de experiência feito que são eles que nos escolhem, fui escolhida por vários. Mas julgo que também nós ajudamos um tanto na escolha e tenho um concorrente de peso a conquistá-la. De forma que, desagradada da competição por amores e perdições gatis e das outras, estou um bocadinho desinteressada do meu presente de aniversário. Gosto dela na mesma, mas sem os arroubos que dediquei a outros.
      Bom dia, Bettips

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  12. Os gatos são animais simpáticos e fazem boa companhia.
    Neste momento tenho, em casa, duas gatas e um gato.
    Abraço de amizade.
    Juvenal Nunes

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  13. Verdade, Juvenal. Mas esta gata, por enquanto, faz jus à independência da espécie. Não é a característica que mais lhes admiro.

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