domingo, 9 de agosto de 2020

Tudo Ligado

 

Conheço-a desde sempre, é uma árvore no meu bosque. Calada, voz melodiosa, mãos calmas de precisão tarefeira. Vi-a muita vez, assisti-lhe conversas, alegrias e desgostos. E mais a admiro, nunca uma queixa dolorosa. Ao invés, relata as dores que lhe pertencem como facto inamovível, coisa que acontece e lhe cabe, a voz isenta de comiseração ou auto piedade. Deve chorar, mas não lhe observei uma lágrima e já enterrou fundos amores. A Pandemia afastou-nos mais do que as suas pernas doentes do telefone: deixei de visitá-la na casa onde vive sozinha. Ainda assim, liga-me de longe em longe. E eu, que não telefono por lhe conhecer a dificuldade de locomoção, fico com má consciência.  Mas alegra-me ouvi-la. Fala-me dos filhos e dos netos, das dores que tem de aguentar por estar à porta dos noventa, de uma cabeleireira de muito ano que, em intervalo certo, a vai buscar a casa, lhe corta o basto cabelo branco e a devolve ao lugar. E não poupa nos elogios.  Depois, conta-me das dúvidas que tem em passar uns dias em casa da filha mais nova, que eles querem muito mas eu estou tão ruim de pernas, vou lá fazer o quê. E sai-lhe espontâneo o passeio de há dois anos, vê tu bem que até me levou à praia; tão bonita a água do mar, o pior foi andar na areia. Fui com a neta e a filha, elas ajudaram-me até à água, sentaram-me lá dentro e quando vinham as ondinhas a água subia-me ao pescoço. Foi das melhores coisas da minha vida. Elas foram dar uma volta, espairecer, e eu fiquei ali a sentir-me tão bem de cada vez que a água vinha. Coisa tão boa e fresca, nunca tinha experimentado. E remata, ainda bem que não morri sem experimentar a água da praia.

E eu a pensar em Sophia que tanto amou o mar e na poesia que escreveu e em nós baloiça nitidez e transparência marítimas. Mora nesta velhota iletrada o mesmo sentimento desvanecido, igual rendição à água.  E isto sim, é milagre que se repete e existe.

 

14 comentários:

  1. E isto sim, é um texto que comove e que se agradece. Muito.

    Boas férias, Bea.
    🏖️

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  2. Admiro pessoas assim, gratas à vida pelo nada que lhes deu.
    Boas férias, Maria.

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  3. Adorei o texto e mexeu comigo.
    Pensei no meu avô e mãe, cada um com a sua idade, mas a vontade de lhes querer proporcionar coisas diferentes é igual.

    Bj

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    1. Diferentes e que lhes agradem, não é, Cláudia? Conheço bem a filha mais nova desta senhora e sei que gosta muito da mãe. Mima-a quanto pode. É um amor natural e digno de ser visto. Talvez seja também assim entre a Cláudia e sua mãe e avô.

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  4. São milagres que a vida nos mostra quando estamos atentos aos outros. Magnífico texto!
    Uma boa semana com muita saúde.
    Um beijo.

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    1. Igualmente, Graça. Não sei se é questão de atenção ou de sorte. Talvez uns pós de ambas.
      Um abracinho.

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  5. Um amor que nos faz bem à alma e um texto que arrepia o pensamento! Bj

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  6. Temos dificuldade de perceber que para muita gente, e não há muito tempo, ver a água do mar era um sonho.

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  7. e há quem nunca lhe tenha provado a frescura. Que pena! O mundo da experiência é muito desigual.

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  8. Quando se nasce junto ao mar e essa paisagem faz parte do quotidiano não se tem o assombro que se experimenta quando o mar se descobre já com alguma idade, penso eu. Bonito texto que reflecte muita ternura pelas pessoas e pelo mar. Boa semana!

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  9. Também penso que o deslumbre é outro, prosa.
    Boa semana também para ti.

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