Conheço-a
desde sempre, é uma árvore no meu bosque. Calada, voz melodiosa, mãos calmas de
precisão tarefeira. Vi-a muita vez, assisti-lhe conversas, alegrias e desgostos.
E mais a admiro, nunca uma queixa dolorosa. Ao invés, relata as dores que lhe pertencem
como facto inamovível, coisa que acontece e lhe cabe, a voz isenta de
comiseração ou auto piedade. Deve chorar, mas não lhe observei uma lágrima e já
enterrou fundos amores. A Pandemia afastou-nos mais do que as suas pernas
doentes do telefone: deixei de visitá-la na casa onde vive sozinha. Ainda
assim, liga-me de longe em longe. E eu, que não telefono por lhe conhecer a
dificuldade de locomoção, fico com má consciência. Mas alegra-me ouvi-la. Fala-me dos filhos e
dos netos, das dores que tem de aguentar por estar à porta dos noventa, de uma
cabeleireira de muito ano que, em intervalo certo, a vai buscar a casa, lhe
corta o basto cabelo branco e a devolve ao lugar. E não poupa nos elogios. Depois, conta-me das dúvidas que tem em passar
uns dias em casa da filha mais nova, que eles querem muito mas eu estou tão
ruim de pernas, vou lá fazer o quê. E sai-lhe espontâneo o passeio de há dois
anos, vê tu bem que até me levou à praia; tão bonita a água do mar, o pior foi
andar na areia. Fui com a neta e a filha, elas ajudaram-me até à água,
sentaram-me lá dentro e quando vinham as ondinhas a água subia-me ao pescoço.
Foi das melhores coisas da minha vida. Elas foram dar uma volta, espairecer, e
eu fiquei ali a sentir-me tão bem de cada vez que a água vinha. Coisa tão boa e
fresca, nunca tinha experimentado. E remata, ainda bem que não morri sem experimentar
a água da praia.
E
eu a pensar em Sophia que tanto amou o mar e na poesia que
escreveu e em nós baloiça nitidez e transparência marítimas. Mora nesta
velhota iletrada o mesmo sentimento desvanecido, igual rendição à água. E isto sim, é milagre que se repete e existe.
E isto sim, é um texto que comove e que se agradece. Muito.
ResponderEliminarBoas férias, Bea.
🏖️
Admiro pessoas assim, gratas à vida pelo nada que lhes deu.
ResponderEliminarBoas férias, Maria.
Adorei o texto e mexeu comigo.
ResponderEliminarPensei no meu avô e mãe, cada um com a sua idade, mas a vontade de lhes querer proporcionar coisas diferentes é igual.
Bj
Diferentes e que lhes agradem, não é, Cláudia? Conheço bem a filha mais nova desta senhora e sei que gosta muito da mãe. Mima-a quanto pode. É um amor natural e digno de ser visto. Talvez seja também assim entre a Cláudia e sua mãe e avô.
EliminarSão milagres que a vida nos mostra quando estamos atentos aos outros. Magnífico texto!
ResponderEliminarUma boa semana com muita saúde.
Um beijo.
Igualmente, Graça. Não sei se é questão de atenção ou de sorte. Talvez uns pós de ambas.
EliminarUm abracinho.
Que texto bonito, Bea. Adorei!
ResponderEliminarObrigada, Mad.
ResponderEliminarUm amor que nos faz bem à alma e um texto que arrepia o pensamento! Bj
ResponderEliminarObrigada, Gracinha. Bom dia também para si:).
EliminarTemos dificuldade de perceber que para muita gente, e não há muito tempo, ver a água do mar era um sonho.
ResponderEliminare há quem nunca lhe tenha provado a frescura. Que pena! O mundo da experiência é muito desigual.
ResponderEliminarQuando se nasce junto ao mar e essa paisagem faz parte do quotidiano não se tem o assombro que se experimenta quando o mar se descobre já com alguma idade, penso eu. Bonito texto que reflecte muita ternura pelas pessoas e pelo mar. Boa semana!
ResponderEliminarTambém penso que o deslumbre é outro, prosa.
ResponderEliminarBoa semana também para ti.