sábado, 1 de agosto de 2020

A Nossa Pobre

A nossa pobre habitava uma barraca esconsa ao fundo do quintal  de uma taberna. Portanto, cumprimentávamos e fazíamos a travessia, os bêbados a desviarem-se com respeito. Por ainda ser manhã e não estarem muito bêbados; e porque éramos “as meninas do colégio”, conheciam-nos o uniforme, bata preta e gola branca. A minha grande pena durante os três anos em que fiz aquele caminho, era não ter casa que pudesse oferecer. Constatei, era bem mais pobre que eu. A senhora tinha três ou quatro filhos pequenos, sempre sujos e esguedelhados e o casebre impressionava, tal a miséria e desorganização,  roupas, tachos e panelas ensalganhados, a amostra de mesa um amontoado  sem espaço livre, loiça suja espalhada até à rua. Éramos duas garotas e visitávamos a pobre aos sábados de manhã, depois da aula de canto coral. Talvez tivéssemos sido eleitas ou tínhamo-nos voluntariado, não sei. Íamos contentes com os sacos de géneros e apenas víamos os garotos já que a pobre tinha de trabalhar. Como achávamos a barraca muito suja, por norma fazíamos o que não era pedido e desatávamos a lavar loiça, varrer o chão de terra e eu, que sempre tive a mania de assoar crianças, aprendi que o ranho seco se resolve em paciente insistência de água e sabão. Ora, um sábado houve em que, depois de arrumações que pouco resultavam, nos enchemos de pena da mãe de família e fizemos o almoço: batatas fritas e ovos estrelados. Era a única refeição que eu sabia fazer e lembro-me da colega a contar os tostões (devia ser rica, tinha sempre moedas) para comprar os ovos que o pacote de géneros não incluía. A função  correu mais ou menos, descontando o facto de as batatas fritas aos palitos terem ficado um desastre, meio cozidas e empapadas no óleo, porque o fogão era de petróleo e estava entupido. Não foi grande ideia, mas saímos contentíssimas com a surpresa, pensando na satisfação do cansaço materno ao entrar em casa. Hoje penso diferente. Mas pronto, hoje sou adulta e não seria capaz de comer aquelas batatas.

Veio-me a pobre à mente por via da crónica de Dulce Maria Cardoso na Visão, onde se queixa que a roupa dada aos retornados era muito grande e nada de jeito. Gorou-lhe as expectativas. Mas aposto que se ma dessem a mim ou à pobre, a gente desmanchava aquilo tudo e ajeitava qualquer coisa, um vestido, uma saia, uma blusa. E ficávamos contentes. Mas a Dulce não era do nosso patamar, estava um bocadinho acima. Por isso sonhava com  um kispo xpto que não havia no meio dos monos da caridade canadiana.

14 comentários:

  1. Os pobres também sonham, aliás, na maior parte das vezes é o que sabem fazer melhor.
    ~CC~

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    1. Verdade. Os retornados da crónica sonhavam com casacos de peles canadianos.

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  2. Muito bom mesmo, sem palavras, as descrições, brutais.

    Beijocas

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  3. O Mundo é o dele fazemos, dizia a personagem de Silverado no bar.
    Viu o filme?
    Boa semana

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  4. Quanta pobreza... alguma tão escondida... à espera de um gesto generoso de quem passa e não quer ver!!! 👏👏👏👏👏... Bj

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    1. Mas é que a verdadeira pobreza mal se vê, vive escondida em casinhotos e barracos como aquele. Quem é que ia adivinhar aquela miséria no fundo de um quintal de taberna, lugar onde ninguém vai senão o taberneiro.

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  5. Sabe, na minha infância também existiu um casal muito pobre, com duas filhas. Resolvi protegê-lo e visitava-os ( invadia-os) frequentemente com o objetivo de mudar o futuro das meninas. Não mudei coisa nenhuma e a dada altura entendi que incomodava. Acabei por lhes perder o rasto sem honra nem glória. Que o pai era sapateiro e a miúda mais velha se chamava Fernanda foi tudo que restou da minha cruzada. Boa semana, Bea.

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  6. Sabe, na minha infância também existiu um casal muito pobre, com duas filhas. Resolvi protegê-lo e visitava-os ( invadia-os) frequentemente com o objetivo de mudar o futuro das meninas. Não mudei coisa nenhuma e a dada altura entendi que incomodava. Acabei por lhes perder o rasto sem honra nem glória. Que o pai era sapateiro e a miúda mais velha se chamava Fernanda foi tudo que restou da minha cruzada. Boa semana, Bea.

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  7. Hummm...o futuro da senhora foi um pouco melhor. Não sei como, mas ganhou para uma casa e conheço a filha mais velha que é hoje uma pessoa normalíssima. Nenhuma delas me reconhece, mas sei quem são. Também penso, Nina, que fomos garotas um bocadinho invasivas; mas, quem sabe, ela agradecia os nossos serviços. Quem sabe...

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  8. Bea, até me considero uma pessoa cheia de genica, já que não paro. Infelizmente, não paro também a dormir.
    Bem resolvida, sou de ideias fixas, mas já fui mais.
    Como já disse, sofro de ansiedade. É uma luta diária que não estou a conseguir vencer.

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  9. Se é coisa que não se resolve, melhor aceitar-se tal qual.

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  10. Curiosa essa tua adopção de uma pobre! No liceu onde eu andava apenas fazíamos camisinhas bordadas para os bebés pobrezinhos nas aulas de lavores femininos, mas era tudo coordenado pela professora.

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