Às sextas, a minha rua, se acaso por ela caminho, é outra. Ou talvez não, talvez eu, por via de um café com leite escurinho, seja outra. Mais penetrante. Saio mais cedo e vejo a Violeta e a Lili muito para lá da curva que sobe, uns pontinhos móveis à volta das pernas do homem ainda boneco de brincar. E proponho-me ao ritual. O velhote não sabe que eu o oiço e incentiva-as de longe, olha quem vem lá, olha, olha. Elas obedecem, viram-se, mas logo se desinteressam e continuam cheirando aqui e ali. Apresso-me e, braços abertos (não sei para que os abro, mas abro), sai-me sempre no mesmo tom, olha a Violeta! E aí sim, no silêncio da manhã, a cadela reconhece a voz e desentraita ao meu encontro, corre a mais não poder. Lili firma o olhar e quando se convence que sou eu faz-se próxima na sua corrida vagarosa e a ofegar. Entretanto, eu e Violeta procedemos aos cumprimentos, sobe-me pelas pernas, lambe-me as mãos; afago-a e digo baboseiras do estilo, tão bonita, tão queridinha, é uma querida a Violeta, coisa mais doce. Formiga-me um desejo de pegar-lhe ao colo e apertá-la, mas temo que não goste, os animais são como os bebés, não apreciam apertos. E repito para o cansaço da Lili, elas competindo ternuras. Depois, vamos as três ao encontro do velhote. E diz ele na sua fala entaramelada por via do AVC, os olhos delas mal dobro a curva já andam a procurá-la. É um doce este velhote. Acontece que já as vi dobrar a curva e não procuram nada senão cheirar as ervas do caminho, cheriscar aqui e ali. E sou-lhe ainda mais grata pela mentira. Ora hoje reparei que atravessou a rua para sentar-se. É verdade que costuma fazê-lo no muro, descansa depois da subida. Mas estava ainda lá em baixo. Sentei-me a seu lado, os meus olhos indiscretos e involuntários a notarem efeitos da próstata envelhecida. Ele a ofegar mais que a Lili, estou pior da minha perna hoje, ando à espera da operação e nunca mais. Eu, mas é o coração? E ele, não, são as veias entupidas; diz que é para as desentupir, mas não me chamam. Desculpei a medicina com o covid, mas bem senti que mentia. Os velhos são os grandes desprotegidos sociais. Somos nós todos a arrumá-los num canto, começando na família e terminando nos governos. Descompadecidos com quem no mundo se gastou, abreviamos-lhes a partida tanta vez indigna. Ingratos que somos.
O tal país que não é para velhos... Há tempos, numa consulta com o meu pai, queixoso das mãos, o próprio médico a dizer-lhe "com essa idade... o que queria? Mãozinhas... nem no talho", como quem diz tenha paciência, não há nada a fazer. E eu com vontade de o esganar.
ResponderEliminarNão este país não é para velhos de poucos meios. Bom, mas o seu pai, Luísa, estava no médico. E é verdade que eles têm tudo gasto e as queixas são muitas e sem remédio eficaz. Não há cura para um organismo que chega ao limite da duração. Este velho vive só e médico nem vê-lo. Aguarda uma cirurgia que talvez nem lhe chegue senão depois de morto. A medicina do centro de saúde refugiou-se em casa desde Março e agora pegou com as férias. O concelho ficou, de repente, saudável:).
ResponderEliminarDá que pensar Bea!
ResponderEliminarCuidei dos meus pais quando mais precisaram! Ficaram crianças e eu dei_lhes o que eles me deram... AMOR!
Nós seus olhos senti o brilho da gratidão e ainda hoje vejo esse olhar! Bj
Que ternurinha de bichinhos.
ResponderEliminarFiquei com pena do Sr. também.
Beijocas