(continuação)
Viro
à direita. Na aragem, a conversa com o velhote vai desprendendo farrapo aqui, farrapo
ali. Piso a cama de caruma, os pés em cuidados
de poeiras no interior dos ténis. O pedaço de caminho de terra batida está
deserto, cheira a campo e restolho húmido e à esperança das originárias manhãs
solares, casas ainda de olhos fechados, talvez no interior um despertar
vagaroso. Pelos casais, os cães ladram-me
de hábito e ainda a aclarar a voz, pêlo acamado pela noite e olhos desfocados,
outra vez, não te fartas de um dia, e outro, e outro, nos fazeres sair dos
bidões, está um animal muito bem a descansar e lá vem o teu cheiro sacudir-nos
e derrubar o sono. Passo na berma a
evitar pinhas desdentadas, impúdicas bocas abertas, o redondo com defeito. Funéreas.
Foram deitadas ao valado por inclementes
automobilistas muito dados à pontualidade nos empregos e que passam a tirar a
mãe da forca, nuvens de pó subindo das rodas. Ali e acolá, os pinhões órfãos reclamam
mão que os cate, criança que os coma, dedos segurando martelinho que há-de mostrar-lhes
o corpo branco meio despido, um pudor que se nota em restos de película. Enquanto
isto, a preocupação com os pés faz-me pensar aos pontinhos. Se me concentro no pisar, logo o fio de
pensamento traceja ou o perco, feita impressora sem tinta. Entro no alcatrão e
ocupa-me o descanso dos pés quando, Bom Dia! Levanto os olhos e ela está na
minha frente, guardada por cães e gatos, foice na mão direita que não pára de segar.
Paro eu. Não lhe sei nome, é o nosso primeiro encontro, mas estou habituada ao
contentamento na cauda dos bichos seguindo-me em corridinhas do outro lado da
cerca. Mediadas pelo arame, conta-me que tem onze gatos e oito cães, gosta de
animais. É viúva vai para vinte anos e aponta a quinta, sou eu que trato disto
tudo, mas com oitenta anos, diga-me lá, que forças tenho para a poda e a
enxada. Depois, pernas ensarilhadas nos gatos, um de olhos azuis a mirar-me
ciumento, conta que acabida os bichos abandonados e uma organização traz-lhe o
alimento. Com os subsídios - férias e natal - paga a esterilização das gatas,
que fazem um cagaçal quando aluadas e depois são mais gatos a sustentar.
Penso na injustiça, este controlo de natalidade não devia levar-lhe os
subsídios. A mão que ceifa reclama, mas ela atarda-se a encerrar o quase
monólogo, tenho o filho bem casado, mas tão
longe, eles querem lá saber disto aqui. E sem transição, olhe tenho que
ir indo, está a ficar calor e ainda me falta a rega. Afasta-se trôpega, gatos e
cães felizes esgueirando-se na frente, virando à esquerda e à direita. Alguns,
fiéis ao hábito, acompanham-me à rede; outros guardam a casa em pose de gato de
loiça, olhos de indiferença. Virei-me ao caminho pensando nos anos em que, sem
a conhecer, passava a procurar-lhe os sinais e descansava. E no tempo em que a
cortina descida na porta e a rua cheia de folhas me assustou, será que adoeceu,
perguntei a uma vizinha. A gente cria laços com quem nunca viu, os efeitos da
bondade são nítida presença.
Nesse caminhar... cada passo faz nossa imaginação viver o momento! Adorei!!! Bj
ResponderEliminarObrigada, Gracinha.
ResponderEliminarBom Domingo
Olá Bea. Creio chamar-se Beatriz, mas não precisa de confirmar, porque conhecê-la pelo diminutivo e pelo que escreve, chega-me. Tenho uma netinha a fazer 2 anos no próximo mês que tem esse lindo nome, mas chamamos-lhe Bia ( tv fosse Bea, mas...não sei...e não importa). Não vim cá para falar de nomes, mas para lhe dizer que todos os dias venho cá, embora não comente. Mentiria se dissesse que é a primeira coisa que faço depois de tomar o pequeno almoço, mas garanto-lhe que o faço antes de começar os meus afazeres. Gosto dos seus " diarios", do seu tipo de escrita e das emoções que sente e dá a sentir a quem a lê. Quanto a estes senhores e senhoras de idade avançada que encontra nas suas caminhadas, infelizmente, todos nós os conhecemos e são muitos. Tenho a certeza que este " abraço " que lhes dá, parando para " dois dedos " de conversa, fará os seus dias muito mais iluminados; um gesto que custa tão pouco, mas que faz uma diferença tremenda na vida triste dessas pessoas. Sabe o que mais me preocupa nesta pandemia? O isolamento dessas criaturas que agora, não podem sequer contar com as visitas de vizinhos que sempre passavam por lá. Digo isto por ter uma tia nessas condições; é idosa de alto risco, tem a filha com ela, mas teve que proibir as visitas com medo do contágio. Eu ia lá com frequência e sempre encontrava amigos a visitá-la, mas, agora, nem os netos, pois trabalham e não convém que se aproximem da avó. Muito triste. Bea, obrigada pela partilha de sentimentos e experiências que muito me agradam. Continuarei a passar por aqui, com cerfeza. Deixo-lhe um abraço e desejos sinceros de SAÚDE, sempre.
ResponderEliminarEmilia
Emília
ResponderEliminarBeatriz é um nome que me agrada e, pelos vistos, também a sua filha ou filho. Bea é diminutivo. E também o nome da amada morta de Dante Alighieri (Beatriz Portinari) e o que tomou uma filha sua quando professou. Diz-se que Dante viu a amada Beatriz uma única vez, ambos crianças. Aventa-se até que nunca tenham chegado à fala. E é facto amoroso de certa forma incompreensível, mas que sempre me atraíu. Daí a escolha do nome.
Pois, a solidão dos velhos dói-nos. Mas a maior solidão não é a destes velhos que têm uma quintinha por onde andar e se sentem úteis, há um portão a que assomam, alguém que os cuida por perto (não é o caso do velhote que encontro). Solidão verdadeira é a dos pobres que estão engavetados num lar e sem visitas; com horas para levantar e deitar, refeições a horas certas, tenham ou não apetite. E muita hora de cadeira. Ali estão em silêncio, lado a lado a toda a volta de uma sala. E apenas se ouvem os que têm juízo mole, esses enraivecem, asneiram, cantam. Como é possível que se viva desta maneira triste e indigna? O covid retirou-lhes a parca alegria de verem os seus quando, enfim, eles resolvem lembrar-se dos mais velhos. É um conjunto muito desumano.
Pois volte quando queira, Emília, este é um mundo todo opcional:).