domingo, 30 de agosto de 2020

Caminhada

 (continuação)

Recomeço a andar pensando-me atrasada para o quotidiano quando, do outro lado da rua, psst, pssst, venha cá que lhe quero perguntar uma coisa. Atravesso e ela, conspirativa, encaminha ao portão. Conheço-a de algumas vezes e já me contou que não passa dali por via do covid. Quer novas de uma conhecida que vive no meu bairro.  Mais certo é procurar pretexto para dois dedos de conversa e  esquecer os avisos do filho. Ultrapassa a marcação e aproxima-se. É uma velha castiça, veste de viuvez e durante a conversa, sobem-lhe em viagem constante as mãos  maquinais, ora uma ora outra, até ao cabelo grisalho, domando caracóis que se rebelam à grade dos ganchos. Conta-me das consultas a que já faltou e das que devia marcar, e veja lá que aqueles coirões nem abrem consulta nem nada, eu que já fui operada à vista e preciso mesmo de lá ir. Diz isto quase em cima de mim e, ao notá-lo, recua dois passos, ai Nossa Senhora, a gente não pode estar assim, mas que é que quer, esqueço-me. Pergunto a dar-lhe corda, mas ficou a ver mal?, e ela desejosa de contar, na ânsia de companhia e partilha, ó amiga, eu fui ali ao doutor da vista que já não via um burro à minha frente, de modos que disse para o meu Tóino, ai credo, eu deixei de ver desta vista. E ele levou-me logo ao médico particular. Que o meu Tóino, não desfazendo, é um filho como não há, melhor que muita mulher; em casa não se acanha,  faz o que for preciso. Pois o médico mandou-me ir a uma consulta no hospital e olhe, foi mesmo ele que me operou. Vim para casa com um penso na vista e o filho só o tirou no dia marcado. Pôs-me os pingos, tudo. Mas ó mulher, quando me tirou o penso, só via flores. Virada a mim, diversão de um só dente comprido, mãos domando cabelos desenvoltos, estou-me a rir agora, mas olhe que me assustei; para onde me virasse, com este olho, só via flores. Bom, o filho levou-me outra vez ao consultório, está visto. Entrei e o médico, então, e eu, o senhor doutor fez-me aqui um rico trabalho. Ele zangado, então não ficou a ver?! Eu, ver vejo, mas só vejo flores. Ó mulher, e não é que se virou a mim com sete pedras na mão, não queria ficar a ver, não queria ficar a ver? Já vê. E eu enchi-me de medo, diz que endoida quando se zanga, nem lhe disse mais, mas pensava, e de que é que me vale ver, se só vejo flores, valha-me Nossa Senhora se fico assim para sempre, que desgraça. E abrindo o gancho do cabelo para rectificar o penteado, mas olhe que ele tinha razão, mandou-me ter paciência e esperar. Uma manhã acordei e vi a banquinha de cabeceira, via tudo como dantes.

Eu provavelmente a sorrir, é tão tarde, tenho de ir andando. Ela de incisivo despudorado e empunhando o vasculho, e eu tenho de varrer a rua. E virámos costas.

10 comentários:

  1. Tem a certeza que não é o Lobo Antunes???
    Boa semana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. sabe, Pedro, essa comparação tolhe-me, faz-me sentir um bocadinho ridícula e deixa-me sem vontade de continuar. Eu sei quem sou. E sei quem é Lobo Antunes. Não somos de comparar. Mas, estando muito longe da sua qualidade, sou eu. Não como ele, não como ninguém, eu.

      Eliminar
  2. A sua narrativa é excelente. Atenta aos pormenores e com algum humor à mistura. Gosto muito.
    Uma boa semana com muita saúde.
    Um beijo.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O seu a seu dono, Graça, o humor não é meu, mas da senhora que conversa comigo no portão de sua casa. Seria incapaz de criar a cena. Contei sem inventar.
      Boa semana :)

      Eliminar
  3. Maravilha isso de ver flores, imagino-a...até porque a minha mãe que um dia me assustou imenso por dizer que só via pessoas com chapéu e eu em pânico a pensar que era uma demência em estado avançado mas incrédula a pensar que tinha surgido do nada...e não é que não é nada disso mas sim um tipo específico de degeneração da mácula do olho, embora raro...cria mesmo imagens visuais em que as pessoas aparecem de chapéu!
    ~CC~

    ResponderEliminar
  4. :))) pois não sabia que isso de ver toda a gente de chapéu podia ser doença, problema da mácula. Não houve tempo para aprofundar, mas a senhora afirmou que não via mais nada, só flores. O engraçado é que ela gosta muito de flores, tem vasos por todo o lado, já me deu umas podas e um raminho de cravos. É uma querida.

    ResponderEliminar
  5. ... gosto de as sentir assim, espontâneas no diálogo, simples no traquejo... 👏👍

    ResponderEliminar
  6. assim são as velhas do meu lugar, Gracinha - sei que são aplausos, mas a primeiras mãos continuam a parecer-me batatas:)
    Boa noite

    ResponderEliminar
  7. Que texto delicioso =)

    Nota-se quando estão com vontade de conversar. Quando viva em casa da minha mãe, falava com algumas vizinha, apesar de eu ser de poucas palavras.

    Beijocas

    ResponderEliminar