(continuação)
Recomeço
a andar pensando-me atrasada para o quotidiano quando, do outro lado da rua,
psst, pssst, venha cá que lhe quero perguntar uma coisa. Atravesso e ela,
conspirativa, encaminha ao portão. Conheço-a de algumas vezes e já me contou
que não passa dali por via do covid. Quer novas de uma conhecida que vive no
meu bairro. Mais certo é procurar
pretexto para dois dedos de conversa e esquecer
os avisos do filho. Ultrapassa a marcação e aproxima-se. É uma velha castiça,
veste de viuvez e durante a conversa, sobem-lhe em viagem constante as mãos maquinais, ora uma ora outra, até ao cabelo
grisalho, domando caracóis que se rebelam à grade dos ganchos. Conta-me das
consultas a que já faltou e das que devia marcar, e veja lá que aqueles coirões
nem abrem consulta nem nada, eu que já fui operada à vista e preciso mesmo de
lá ir. Diz isto quase em cima de mim e, ao notá-lo, recua dois passos, ai Nossa
Senhora, a gente não pode estar assim, mas que é que quer, esqueço-me. Pergunto
a dar-lhe corda, mas ficou a ver mal?, e ela desejosa de contar, na ânsia de
companhia e partilha, ó amiga, eu fui ali ao doutor da vista que já não via um
burro à minha frente, de modos que disse para o meu Tóino, ai credo, eu deixei
de ver desta vista. E ele levou-me logo ao médico particular. Que o meu Tóino,
não desfazendo, é um filho como não há, melhor que muita mulher; em casa não se acanha, faz o que for preciso. Pois o médico mandou-me
ir a uma consulta no hospital e olhe, foi mesmo ele que me operou. Vim para
casa com um penso na vista e o filho só o tirou no dia marcado. Pôs-me os
pingos, tudo. Mas ó mulher, quando me tirou o penso, só via flores. Virada a
mim, diversão de um só dente comprido, mãos domando cabelos desenvoltos,
estou-me a rir agora, mas olhe que me assustei; para onde me virasse, com este
olho, só via flores. Bom, o filho levou-me outra vez ao consultório, está visto.
Entrei e o médico, então, e eu, o senhor doutor fez-me aqui um rico trabalho.
Ele zangado, então não ficou a ver?! Eu, ver vejo, mas só vejo flores. Ó
mulher, e não é que se virou a mim com sete pedras na mão, não queria ficar a
ver, não queria ficar a ver? Já vê. E eu enchi-me de medo, diz que endoida quando se zanga, nem lhe disse mais, mas pensava, e de que é que me vale ver,
se só vejo flores, valha-me Nossa Senhora se fico assim para sempre, que
desgraça. E abrindo o gancho do cabelo para rectificar o penteado, mas olhe que
ele tinha razão, mandou-me ter paciência e esperar. Uma manhã acordei e vi a
banquinha de cabeceira, via tudo como dantes.
Eu
provavelmente a sorrir, é tão tarde, tenho de ir andando. Ela de incisivo
despudorado e empunhando o vasculho, e eu tenho de varrer a rua. E virámos
costas.
Tem a certeza que não é o Lobo Antunes???
ResponderEliminarBoa semana
sabe, Pedro, essa comparação tolhe-me, faz-me sentir um bocadinho ridícula e deixa-me sem vontade de continuar. Eu sei quem sou. E sei quem é Lobo Antunes. Não somos de comparar. Mas, estando muito longe da sua qualidade, sou eu. Não como ele, não como ninguém, eu.
EliminarA sua narrativa é excelente. Atenta aos pormenores e com algum humor à mistura. Gosto muito.
ResponderEliminarUma boa semana com muita saúde.
Um beijo.
O seu a seu dono, Graça, o humor não é meu, mas da senhora que conversa comigo no portão de sua casa. Seria incapaz de criar a cena. Contei sem inventar.
EliminarBoa semana :)
Maravilha isso de ver flores, imagino-a...até porque a minha mãe que um dia me assustou imenso por dizer que só via pessoas com chapéu e eu em pânico a pensar que era uma demência em estado avançado mas incrédula a pensar que tinha surgido do nada...e não é que não é nada disso mas sim um tipo específico de degeneração da mácula do olho, embora raro...cria mesmo imagens visuais em que as pessoas aparecem de chapéu!
ResponderEliminar~CC~
:))) pois não sabia que isso de ver toda a gente de chapéu podia ser doença, problema da mácula. Não houve tempo para aprofundar, mas a senhora afirmou que não via mais nada, só flores. O engraçado é que ela gosta muito de flores, tem vasos por todo o lado, já me deu umas podas e um raminho de cravos. É uma querida.
ResponderEliminar... gosto de as sentir assim, espontâneas no diálogo, simples no traquejo... 👏👍
ResponderEliminarassim são as velhas do meu lugar, Gracinha - sei que são aplausos, mas a primeiras mãos continuam a parecer-me batatas:)
ResponderEliminarBoa noite
Que texto delicioso =)
ResponderEliminarNota-se quando estão com vontade de conversar. Quando viva em casa da minha mãe, falava com algumas vizinha, apesar de eu ser de poucas palavras.
Beijocas
bem verdade, Cláudia.
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