sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Um Grito no Silêncio


As mulheres gostam de falar e são atreitas a confidências, diz-se. Entre amigas, comungam segredos e minudências que a maioria dos homens inveja e teme por recear prejuízos ao pedestal a que se ergue ou intimidade que a delate.  Porque, é sabido, o conversedo é feminino.  Ora, se é verdade que as mulheres gostam de conversar, não o é menos que são os homens quem mais conversa, têm mais tempo livre. A meia hora das mulheres dura mais ou menos trinta minutos porque há o a seguir que tem de ser feito; a dos homens pode durar uma manhã ou uma tarde, depende de quem encontram, o a seguir pode ser noutro dia.

Para falar desta mulher tenho de sair da farmácia e  ir mais atrás. Ir ao dia em que a encontrei perdida no supermercado. Ainda que ninguém se perca num supermercado de província.

Talvez tenha sido o vagar das pernas e o corpo desligado a chamarem-me. Que logo fui atingida por redonda tristeza no olhar. Não me viu. Duvido que tenha visto alguém, parecia nem saber ao que estava. Meti por outro corredor, dei a volta. E ela parada na outra ponta, uma mão maquinal hesitando a prateleira e a descer de novo. Lembrei épocas em que legumes e géneros me passavam e concentrar-me neles me recentrava. Pensei em qualquer súbito desgosto, coisa de chofre a desnorteá-la. Dei uns passos na sua direcção, mas evoluiu sonâmbula, impressivo alien no meio do povo. O sofrimento é coisa íntima, difícil de soletrar e mais se vê do que é dito. Ainda que dizê-lo nos melhore, o merecimento de ouvi-lo não cabe a qualquer.  Recuei.  Eu era qualquer.


7 comentários:

  1. Esses gritos no silêncio também se encontram aqui na Alemanha.
    A solidão, o sofrimento e o silêncio é ainda maior nas grandes cidades.

    Ao contrário daí, os homens aqui não têm mais tempo livre do que as mulheres.

    Aguardo outros gritos no silêncio.

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  2. Não sei se é maior, não há medida para o que se sofre. Mas que é mais abundante, sem dúvida.
    Pergunto-me por vezes se não será sempre o mesmo grito e muitas as vozes.
    BFS, Teresa

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  3. "E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão". Palavras cruas de Clarice Lispector. Mesmo acompanhados podemos sempre nos sentir sós; felizmente existem aproximações e complementos.

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    1. D. Clarice sabia dizer:). E julgo que foi uma mulher muito solitaria

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  4. Existem muitos sofrimentos. A solidão é uma causa, mas também pode ser um efeito.
    Em O Segredo dos Seus Olhos, esse excelente filme argentino vencedor do Oscar para o melhor filme estrangeiro, o assassino, no fim, suplica ao homem que o mantém há vários anos em cativeiro, apenas que fale com ele, que lhe dirija a palavra. Mas o homem entende que a pena da privação de liberdade que lhe inflige não é suficientemente reparadora e impõe-lhe o sofrimento do perpétuo silêncio.

    Sofrimento e solidão por vezes também se entrelaçam.
    Há que tempos que não o via. Entre como estás, como vais, que é feito de ti, fomo-nos sentar num café para tornar a conversa mais confortável. E, num ápice se passaram duas horas entre novidades, sabes deste e daquele, política qb, futebol qb, estado do país e ponto final.
    À despedida mostrou-se desmesuradamente feliz. Perguntei-lhe o motivo. Sabes...está mais um dia passado!
    Só então me dei conta da sua solidão, essa doença que não dá tréguas a quem vive só. E logo ele que teve mulher, filhos...e amante. Por amor abandonou o lar, e a amante, que também tinha amante, não soube, não quis ou não pôde, dar nobreza nem dignidade ao seu sentimento.

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  5. sim, também gostei muito desse filme:). O silêncio pode ser um milagre, mas também pode ser letal. É como tudo.

    A vida tem desencontros. Mas os desencontros são das pessoas umas com as outras e não dela. As amantes são umas despoduradas mal agradecidas:). Amante é um termo expressivo, mas logo lhe apomos conotação negativa e onde a palavra amor, da qual deriva, nem parece ter lugar. Para o vulgo é coisa de comércio ocasional ou mesmo vitalício do corpo. Sempre ilegal e transgressor. A sua utilização é uma ironia preconceituosa.

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