sábado, 12 de janeiro de 2019

Um Grito no Silêncio


O tempo dá sentido ao que fazemos. Ou o curso da vida individual segue o da História e só é entendível – pelo menos para os outros – ao retardador. Nessa medida, só meses mais tarde, quando o diz que diz da notícia foi suplantado  por folclore mais galhardo e caíu no esquecimento, notei que deixara de a encontrar. A nossa relação não ia além da cortesia no cumprimento diário, mas cruzávamo-nos de quando em quando. Perguntei a D. Juvénia, senhora simpática e discreta, caixa na  mercearia da esquina. E ela a abrir a registadora, moedas organizadas por compartimento e as minhas escorrendo-lhe por entre os dedos e a tinir sobre as outras, a senhora não sabe, separaram-se; ele está uma miséria, os médicos dão-lhe seis meses de vida e ainda assim não larga a bebida. Pescou os meus cêntimos e trouxe-os à minha mão aberta. Depois, encolheu ombros fatalistas e não acrescentou. Saí, esbugalhada das ideias. Alcoólico e em fim de vida. Mas como?! Passava diariamente para o emprego, trabalhavam juntos...conhecia-o de garoto servindo bicas no Ideal. Por vezes, equilibrando chávenas e pires, olhos em mulher de figura caprichada, “posso dizer-lhe que está muito bonita?”. E era jovem, assertivo, riso bem disposto. Calculei a causa do desencanto presenciado no super. Calculei. Que ninguém senão quem vive o pesadelo pode saber do mal que o vício provoca.
De quantos anos precisaste para chegar ao fundo. Quanto vómito tiveste que  lavar. Noite após noite, a falta de pontaria na sanita, trabalho sobrante e teu. Os filhos acordados fora de horas, contra tua vontade – não mandas, tu - levantados em peso da cama, endorminhados e medrosos, apenas porque sim. O mais velho a preencher cheques inúteis e a tiritar de medo e frio, as letras a escaparem-se da mão que custava a acordar. Está bêbado, mas vocifera ordens. E tem força e maldade que nem sabes de onde pode vir, mas está presente. E aterroriza a  oferecer pancada de mão aberta. Noites em que o traziam a casa, sujo de terra, rosto a sangrar, o ritual de lavares e despires e deitares um corpo morto, boneco desarticulado e de dizeres ininteligíveis; madrugadas em que o delírio o fazia virar tudo do avesso, que um bicho aqui, que percevejos a roerem-lhe os dedos dos pés, que as paredes caíam sobre ele, que as vozes não o deixavam dormir. E as horas longas da espera nocturna, será que consegue chegar a casa, ai se tem um acidente, queira Deus que não se mate nem desgrace alguém. As longas, longas  horas de esperar por um estranho de que o coração se desliga. Que te enoja. Abisma-te o próprio abismo.
Suor de álcool é podridão, bafo é esterco humano. A casa, empestada; o quarto, irrespirável. Mas dormias a seu lado, davas-lhe as costas contando horas até que a madrugada piedosa te fechava os olhos.  E não contas as vezes que te envergonhou e desrespeitou em público, as que em privado te possuíu contra vontade, ao rés da violência, como rameira de beira de estrada. Dominava-te, prendia-te os braços com um riso mau, viscoso e avinhado, atravessadiço. Quantos anos  te custou compreender que este homem matou o que restava do outro e não há a que te agarres. Oh, o desejo de nenhum homem por perto, como o sentiste. E a dificuldade em aceitar a morte do sonho.


6 comentários:

  1. A sua escrita é absolutamente brilhante, bea.

    Estou a ver "Um grito no silêncio" nas montras das livrarias, na minha próxima visita ao Porto.

    São destinos como este, que me obrigam a afirmar a minha vida é bela _______________ abençoado inverno alemão.

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  2. Obrigada, Teresa; mas exagera:).
    É demasiado exíguo o que podemos fazer por tanta mulher a gritar em silêncio. Que não há livro e nem postagem onde caibam por inteiro. Dizia Vergílio Ferreira que a realidade é incomensurável.

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  3. A doçura abandonou-me de vez, resta-me a acidez da faca...o tema exige.
    Do texto. Dele. Os homens batem por impotência. Julgam conseguir por meio da força aquilo que não alcançam por meio da ternura e da inteligência.
    Dela. Julgou abraçar um sonho bordado a azul e mel, encontrar a harmonia, a paz, quiçá o amor. Acordou com pancada, frio e dor, misturados com hálitos amargos de vinho e fel. Porque meu Deus nos fazes assim? e não termina o amor muito antes do fim?

    Da autora. É dono de um estilo muito próprio. Já ouvi dizer milhares de vezes em referência a eça, saramago, vergílio, lobo antunes, urbano, torga, bocage, agustina, eu sei lá...
    Eu por mim digo, desentranhe-se a autora daqui, esconda-se sob disfarce em outro blog, em livro, crónica de revista ou mural de parede, que, leitor atento a vai sempre achar. A sua pegada irá sempre denunciá-la. Porque, seja onde for, estarão lá as marcas indisfarçáveis da sua identidade. Quem a leia reconhece-lhe o estilo!
    E chega de adulação, veja lá se me dá ensejo de corrigir, cortar, pôr defeito ou dizer mal :).

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    1. Pois nem sei que diga, mas isso do estilo é um bocado uma coisa que não gosto - porque na verdade me identifica - muito embora, de facto, o reconheça. Sem me comparar a esses vultos grandes. Porque é assim, todos têm a sua personalidade, mas umas são mais fortes que outras. E cada macaco no seu galho:).
      É um tema ácido e coisa socialmente vulgar. Onde quer que exista, estraga.
      Mas é que há sempre o que corrigir. Se eu reler o texto agora farei o que fiz antes: corrijo, emendo, acrescento, corto.

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  4. Uma realidade que causa dor na alma!!! Bj e belo texto

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