quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Percurso


Passo a rasar a parede aproveitando a fita de passeio daquela rua de asfalto. Conheço todas as casas e, em alguns casos, os moradores. Embrenhada em meus botões, acorda-me vozinha infantil que tagarela a virar a esquina, mão dada talvez à mãe. Seguem um pouco à frente e oiço-a, avó, vamos atravessar. Acerto o meu olhar ao vê-las cruzar a rua e julgo conhecer a figura adulta. Mas já os anos me habituaram ao descrédito, toda a gente, se a olho, me parece conhecida; até na TV vejo quem conheço, vizinhos, colegas, um ror de gente. Estava precisamente a pensar que as avós de hoje são jovens e se confundem com as mães, concluindo que de tal perigo nunca eu sofrerei, quando a avó se virou para trás e me reconheceu. Pararam as duas e estuguei o passo. Cumprimentei e logo a garota, dez réis de gente magrinha um lacinho branco em pose artística a enfeitar os caracóis, tu onde vais? Olha, eu vou além ao parque. Disse-lhe que seguia pela mesma rua e ela radiante, mão estendida, então vamos as três, e pegou-me na mão. Assim, sem mais nem mas. Dedinhos magros e quentes em aperto confiado a uma desconhecida. As três de mão dada, com a proximidade que não temos. Andando e conversando. Contou-me que está no primeiro ano mas já sabe ler, disse-me o nome da professora e que a mãe ensina na escola onde ela aprende; e pelo meio preocupava-se com a avó, não pises o cocó de cão, avó desvia-te senão picas-te nas ervas. A avó a embevecer risonha, isto fala que não acaba, nem calcula. Mas ela, grandes olhos de veludo convicto, olha, anda também ao parque, tem lá um escorrega muito bom, não queres? E eu, oh, que pena, não posso; tenho que ir fazer o jantar. Resposta pronta, eu já fiz o meu. Terei feito cara esquisita porque acrescentou, a minha avó é que fez, mas eu vi. E quando me separei daquela liana morena e desenredámos as guias deu-me um beijo a lamentar, podias vir, é já ali.
Abençoada infância!

4 comentários:

  1. Momento de ternura a fazer-nos lembrar que nós já fomos também crianças, e, que o melhor do mundo continuam a ser as crianças.

    ResponderEliminar
  2. É sempre bom conversarmos com quem nos cruzamos!!! Bj

    ResponderEliminar
  3. Em lugares pequenos é quase inevitável. Mas a natureza sociável desta desconhecida de palmo e meio apanhou-me desprevenida. O mundo da infância é todo tão simples...onde foi que o perdemos. Ou como mantê-lo neste emaranhado de deveres prescritos

    ResponderEliminar