Passo
a rasar a parede aproveitando a fita de passeio daquela rua de asfalto. Conheço todas as
casas e, em alguns casos, os moradores. Embrenhada em meus botões, acorda-me
vozinha infantil que tagarela a virar a esquina, mão dada talvez à mãe. Seguem
um pouco à frente e oiço-a, avó, vamos atravessar. Acerto o meu olhar ao vê-las
cruzar a rua e julgo conhecer a figura adulta. Mas já os anos me habituaram ao
descrédito, toda a gente, se a olho, me parece conhecida; até na TV vejo quem
conheço, vizinhos, colegas, um ror de gente. Estava precisamente a pensar que
as avós de hoje são jovens e se confundem com as mães, concluindo que de tal
perigo nunca eu sofrerei, quando a avó se virou para trás e me reconheceu.
Pararam as duas e estuguei o passo. Cumprimentei e logo a garota, dez réis de
gente magrinha um lacinho branco em pose artística a enfeitar os caracóis, tu
onde vais? Olha, eu vou além ao parque. Disse-lhe que seguia pela mesma rua e
ela radiante, mão estendida, então vamos as três, e pegou-me na mão. Assim, sem
mais nem mas. Dedinhos magros e quentes em aperto confiado a uma desconhecida.
As três de mão dada, com a proximidade que não temos. Andando e conversando. Contou-me que está no primeiro ano
mas já sabe ler, disse-me o nome da professora e que a mãe ensina na escola
onde ela aprende; e pelo meio preocupava-se com a avó, não pises o cocó de cão,
avó desvia-te senão picas-te nas ervas. A avó a embevecer risonha, isto fala
que não acaba, nem calcula. Mas ela, grandes olhos de veludo convicto, olha,
anda também ao parque, tem lá um escorrega muito bom, não queres? E eu, oh, que
pena, não posso; tenho que ir fazer o jantar. Resposta pronta, eu já fiz o meu.
Terei feito cara esquisita porque acrescentou, a minha avó é que fez, mas eu
vi. E quando me separei daquela liana morena e desenredámos as guias deu-me um
beijo a lamentar, podias vir, é já ali.
Abençoada
infância!
Momento de ternura a fazer-nos lembrar que nós já fomos também crianças, e, que o melhor do mundo continuam a ser as crianças.
ResponderEliminarÉ que são mesmo. Uma garota feliz, aquela.
EliminarÉ sempre bom conversarmos com quem nos cruzamos!!! Bj
ResponderEliminarEm lugares pequenos é quase inevitável. Mas a natureza sociável desta desconhecida de palmo e meio apanhou-me desprevenida. O mundo da infância é todo tão simples...onde foi que o perdemos. Ou como mantê-lo neste emaranhado de deveres prescritos
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