Quando
o Outono espreita sobre o ombro do verão, as manhãs de pássaros, amarrotadas por nuvens e humidade, acobardam.
Então, a noite aproveita e pega-se às coisas banhadas em silêncio de sono e, tolhida
pela penumbra que escarafuncha, finge reinar. A mulher acorda a meio desse imperturbável
vácuo auditivo, ouvido alerta. Nada, senão a tosse a estripar o silêncio.
Depois, um lenço em solavancos apalpados, uma zonzeira na cabeça. Lá fora, nem
um pio. Indiferente a humores e excreções, o relógio digital guia o corre-corre
dos minutos. Cedo. Afastando neblinas, a mulher conta as horas de sono.
Interdita-se a oscilar entre corpo e cabeça, um que clama descanso, outro a
almejar pelo dia. Decide-se. Pés no chão.
A
rua amarela em prodígios eléctricos. Sem uivo canino ou ensaio de brisa no
folhedo. Encostada na ombreira, num flic-flac de alma e corpo, determina beber
café. Um pequeno almoço vagaroso e é outra. Não a de acordar. Outra. De ser a
mesma de todos os dias e varrer ruas e estender roupa e regar flores no cedo.
Depois sai por uma lembrança. Volta e assiste às visitas que partem. Se levam
tudo. Sobe a verificar. Abraços. E quando voltam. A mão acena até à curva
do automóvel. Regressa devagar, sopesando o afecto que não diz, e por que não
diz, se é tão verdade. Sendo criança, ficaria, talvez, mais fácil; mas logo
concede, as crianças gostam umas das outras quase sem palavras. Quem sabe não
são eles também assim. Contudo...
E
enquanto o automóvel sorve quilómetros dia fora, a mulher põe o mundo no lugar
e a casa readquire-se, “Haja Deus”.
Levanto-me sempre mais cedo para conseguir ter pequenos-almoços vagarosos. :)
ResponderEliminarSomos duas:).
EliminarAinda não descobri de que gosto mais, se do pequeno almoço; se de estar a sós com as minhas imateriais companhias, nessa hora. Sei que me são necessários para dar passagem ao dia.
Olá, Bea!
ResponderEliminarEsta história lê-se, vê-se, ouve-se.
É poderosa a tua escrita.
Gostei.
Beijo e... bom Setembro
(Há tanto tempo que não passava por aqui. Fui eu quem perdi.)
Bem vinda:). E passe sempre.
EliminarPoderosa...alguém usou um dia a mesma expressão para falar da sedução da pele.
Não, escrever é a minha gota de água no mundo das palavras e dos escreventes. E já encontrei neste texto vários "erros".
O primeiro café do dia, tão bom que é, não há outro assim. Até apetece...que dia e noite passem depressa.
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