quarta-feira, 12 de setembro de 2018

A Verdadeira Artista...


Sobre Virgínia Woolf, do século XIX ao XXI, muito se escreveu.  Mas uma coisa é conceberes, outra, admirares a concepção alheia. Nenhuma das vertentes aliena a outra. Resta-te pensar, pacatamente e sem melodrama, o que por ti não foi ainda pensado.
Segundo parece, mister Woolf rearranjou os cadernos da mulher sobretudo para evidenciar o que nela mais batia, a escrita. Mostrar a arquitectura das obras desde a ideia inicial, desvelando a forma como se desenvolvia o processo criativo. É claro que é nítida a insegurança da escritora enquanto espera as críticas e as vendas. Por mais que arme em fleumática, essas duas a três primeiras semanas são de sufoco só amenizado pelo feedback favorável de amigos. Também é certo que o términus de qualquer livro é um sofrimento, muitas vezes já com outro livro na cabeça. Como se nota o prazer – de que ela mesma dá conta - em se esvair na escrita. Escrever consome-a, gasta-lhe a mente, suga-a. Mas é supremo gosto, realização. Porque foi uma vida dedicada às palavras, “os livros são os meus filhos”. Portanto, a fazer o que gostava e sabia. Dentro do métier.
 Virgínia é vontade indomável para fazer diferente e melhor em cada obra. Como escritora, não quer continuar ou manter o estilo. Cada livro é um  começo, uma experiência original. Não equilibra inseguranças, atira-se a escrever no seu estilo próprio e em concepções formais cada vez mais arrojadas.  Nada a detém, quer  na procura de novas formas, quer nos temas, quer na depuração dos escritos. De uma obra a outra, diversifica-se e, na mesma proporção, trabalha a qualidade de texto. Emenda, emenda, emenda. Reescreve até restar apenas o que queria dizer e como. São vulgares as notas sobre o número de páginas que escreveu e quantas supõe reduzir até à versão final. E não esqueçamos que era trabalho manual, só no final batido à máquina.
Portanto, se me dizem, ah, era muito insegura, aponto o arame - a escrita. E nunca a ele se furtou, antes viveu a tentar novas e arriscadas piruetas. Sofria quebras e dúvidas, estados  de lastimosa inutilidade, períodos refractários e breves em que descria do valor pessoal. Mas havia o L. a ordenar-lhe a vida natural, a passear com ela, a propiciar passeios e viagens, a ler e opinar sobre os manuscritos, a acompanhá-la nos sonhos: da editora, de casas e jardins e automóveis. O L. cuja ausência deixava Virgínia em solidão escura. Oh, sim, apoiava-se nele. Não se encostava.

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