Havia um silêncio rodeando
a casa
quando minha mãe me acordava brandamente.
Sentia-lhe a mão passando de leve no meu rosto, candeeiro a petróleo
pousado na mesa de cabeceira. De
seguida,
“filha, são horas de estudar”. E
era assim todos os dias da semana, exceptuando domingos
e feriados.
Talvez
o inverno fizesse ouvir o vento no pomar ou agitasse por demais o
damasqueiro que beirava a janela do meu quarto e de
que não pressenti,
nem
uma única vez, murmúrios ou
fúrias, o cansaço a
tesourar-me
as noites. Talvez a chuva me lembrasse a molha futura,
o vento dobrando-me a
fragilidade - a bicicleta, nas
subidas contra o vento, pesava mil quilos e, por mais que forcejasse
nos pedais, a roda dianteira parecia colar no alcatrão. Nesses
momentos de esforço supremo, um carradão de livros e lancheiras no
suporte a desequilibrar, lembrava-me dela e do tanto que fizera e
pedira para me manter no colégio. Então, reunia tudo o que me
restava e, mau grado intensa dor nas pernas de
aranhiço, a roda movia-se: a contragosto, o pneu começava
a descolar e percorria
em vacilantes
passinhos de bebé o meio metro de incentivo que decidia o resto da
subida. Por isso,
enquanto estudava junto ao calor da chaminé, o vento encanando
em
assobio que nos enchia a cozinha de fumo, por
entre lágrimas involuntárias e fumarentas, pedia
a
Deus a mercê da sua ausência na travessia. Que a chuva matinal só incomodava ao longo
do dia, na viagem fazia-se
refrescante, tocava-me a pele
e escorria rosto fora, seguindo pescoço abaixo até onde. E idem
para as pernas, a capa de chuva extravasava
desculpas,
lágrimas em fio, não consigo mais, queria tapar-te toda mas não
dá. E eu, olhos de chuva pestanejante, atenta
à estrada e ao trânsito, já me atrasei, não estou a encontrar os
automóveis do costume. E tentava acelerar. Mas saia e bata coladas
nas pernas ditavam o avanço
dos pedais. Então, preocupava
à lembrança da querida
amiga que me aguardava,
decerto já de portão aberto e toalha pronta a enxugar rosto e
cabelo.
Chegava.
E, enquanto eu me enxugava em
rompante atabalhoado, ela
desatava-me
o material do suporte da
bicicleta. Logo após,
a nossa corrida até ao
colégio e
o aviso de sua mãe a fazer-nos
ligeiras, ai filhas tão
atrasadas que estão. Nós
duas estrada fora,
assolapadas de
livros e guarda chuva. Eu,
desarrumada de todo, a desviar
dos olhos uma catrefa de
cabelos húmidos,
e uma cambulhada
de livros e cadernos sacolejando
na mala à dependura do ombro.
Quanta ternura de
aconchego
devo a essa menina-mulher
e a seus pais que, sem paga ou
moeda de troca, sempre me
acolheram e deram a mão em tempos de voz áspera. Foram
a minha segunda família e nunca saberão quanto lhes invejei o viver
harmonioso. Era o
tempo da inocência
egocêntrica.
Guardo
dessas manhãs
comovida
recordação: durante duas horas, estudava e tomava o pequeno
almoço enquanto minha mãe apenas se ocupava de mim – fazia o desjejum das duas e o meu almoço, passava a ferro de brasas o meu
fato de ginástica e, nos dias em que eu estudava até ao último
minuto, atava-me a pasta e o saco do almoço no suporte da bicicleta
e retirava-a de casa, trazia-me a bata e ajudava a abotoá-la,
segurava a bicicleta para que a montasse, beijava-me com
os olhos que só ela tinha e eram meus, e
com eles me seguia
até que eu, aos esses no caminho, equilibrava na descida do monte e
fazia a curva já senhora do
veículo.
Não ficam em branco os defeitos que já me
dardejavam irreflectidos:
vezes existiam em que pedia a minha mãe para acordar mais cedo a fim
de estudar; ela
prometia, mas acordava-me à mesma hora aduzindo
que fora ao quarto e eu dormia tão profundamente que lhe faltara a
coragem. E eu não conseguia ver o amor por detrás, invectivava,
quase chorava, culpava-a
por um possível decréscimo no resultado do teste. Em suma, feita
estúpida, aborrecia-me com ela.
Não via o amor subentendido.
Fazia-me ignorante de que ela sim, acordava duas horas mais cedo,
duas horas que roubava ao
descanso e lhe encurtavam
as noites, cento
e vinte minutos que me
consagrava quase inteiramente. Como os filhos podem ser cruéis,
ainda que o não desejem ou sequer notem. Sobretudo
por nem sequer o notarem.