quinta-feira, 24 de julho de 2025

Dulce Maria Cardoso

 

        De novo fui ouvir Dulce Maria Cardoso. Quando a conheci no CCB, fazia par com Fernando Pinto Amaral e já não recordo o assunto que estava sobre a mesa. Dulce vestia cetim, tinha um ar muito cuidado, o cabelo bastante curto; parecia uma mulher-garota de luxo. Então, julguei-a uma menina-bem que eu distinguia nas letras portuguesas aceitando-lhe sem reservas a qualidade. A assistência era minimalista, quase tive pena dos oradores. A Dulce que agora escutei era outra: o cabelo grisalho e meio ondulado e a pele limpa e sem rugas espelhavam a humanidade próxima que não conseguira detectar no nosso primeiro encontro. Acresce que transpirava serenidade. Digo sem certezas, pareceu-me ter laivos de nostalgia.

        Anos volvidos, a Dulce voltou à minha vida, publicava de vez em quando na Visão a sua “autobiografia não autorizada” que comparei às crónicas de Lobo Antunes e me agradavam da mesma forma. Era outro estilo, mas luzia nelas a qualidade de primeira água. Guardei ambos em dossiers antigos que antes serviram a testes e lições. Um dia, se para tanto haja tempo, vou relê-los.

        Bom, em verdade, a Dulce não me abandonava. Comprava-lhe os livros e a minha amiga dilecta ofereceu-me um (falta-me o primeiro). E ficava a braços com mulheres tão iguais a nós, tão cheias de serem comuns, corriqueiras, tão eu noutra pele, a vulgaridade sempre presente. Confundia-me a sua capacidade para recriar ambientes que conjugavam na perfeição com gente de carne e osso que cruzamos nos corredores da vida. Comovia-me a análise desapaixonada, certeira nos gestos como no pensamento, a descrição de lugares onde cabemos, de pessoas em que defeitos e manias estão sempre de mão de fora. Comovia-me e ainda me comove. Os livros da Dulce são um exercício do sofrimento feminino acerca do qual não faz conversa, mas plasma em escrita corrida de quotidianos repletos de mas. Quase tudo que conheço na obra da Dulce me soa a denúncia e desencontro. Ah! O sonho! Sempre o sonho de quem quer endireitar o mundo pela palavra.

        Desta vez, entrevistada por Maria Flor Pedroso, a Dulce foi muito crítica – parece-me até que a veia crítica lhe aguça o engenho para melhor descrever as suas mulheres e os problemas que as extravasam, quiçá as originam tal como são. Ser sujeito crítico exige ampla visão de conjunto, e ela tem-na. Instada, discorreu sobre a impreparação do povo para a democracia que foi “à portuguesa” e cujos frutos são hoje mais ou menos amargos. Contou uma ou outra história engraçada como é de tom fazer em sessões desta natureza. Inquirida sobre um novo livro, respondeu apenas que não faz livros a metro, não é uma autora de muitos livros. Que, embora “Eliete” suponha uma continuação, ela ainda não existe, vai ter de pensar tudo de novo, já que, no interregno, o mundo mudou e os seus personagens são do mundo. E justificou, “acompanhar a mãe com demência, ser sua cuidadora até à morte, não é compatível com a escrita de um livro; depois disso, eu mesma tive que me recriar, viver a situação, esgotou-me” (lembrei o termo exaurida). Julgo ter entendido melhor o olhar que a Dulce tem agora e é tão mais bonito.

        Foi uma sessão extraordinária. A autora apresentou sem subterfúgios o seu modo de ver o mundo e abordar os problemas; tocou brevemente em algumas memórias bem humoradas; mostrou-se humana e íntegra. Já não encontrava isto há tanto tempo!


12 comentários:

  1. Reencontrar quem se admira faz bem à alma.
    Bfds

    ResponderEliminar
  2. Quando a gente encontra do outro lado quem espera, sim. E foi o que aconteceu:). Quando não, estamos sempre a tempo de reconhecer o desengano e arrepiar caminho. A vida e a alma dos homens são, como na obra de Dulce Maria Cardoso, cheias de humanos e inesperados desencontros, tanta vez o acaso dá pelo nome de "o outro". É bastante comum sermos o acaso uns dos outros. Não se entende a razão de tanto o estranharmos.
    Um fim de semana aprazível, Pedro
    Bom dia, Pedro

    ResponderEliminar
  3. Também a ouvi este ano na Biblioteca de Palmela e gostei. Mas não acompanhei a edição da obra, fiquei-me pelo "retorno" e li uma ou outra crónica na visão, das quais gostei. Há tanto para ler, não consigo acompanhar...ainda estou curiosa é sobre as sessões da Cabrela, um dia hei-de ir...e quem sabe conhecer finalmente a Bea (se assim quiser, claro).

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. As actividades reabrem em Setembro. Julgo que o Bed&books esteja no facebook e tenha gravadas todas as entrevistas com escritores, tal como os anúncios de próximos eventos, mas não tenho conta e portanto não sei. O próximo é um concerto em Évora no mês de Setembro e a que gostaria de assistir. Com pena minha não poderei estar presente.
      Estou em quase todas as sessões de Cabrela com minhas manas. Portanto...
      Um abraço

      Eliminar
  4. É muito bom quando reencontramos quem faz a diferença 👏👏👏😘

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É uma sorte que por vezes até julgo não merecer. Pago-lhes em dedicação e leitura:)).
      Boa noite, Gracinha

      Eliminar
  5. Também gosto muito da Dulce Maria Cardoso. Adorei o primeiro livro que fala do Retorno e também gostei da Biografia não Autorizada. Gosto da maneira como expõe os problemas e das suas reflexões.
    Bom domingo ,Bea! e boa praia!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O primeiro livro dela, ao invés do que toda a gente pensa, não é o retorno (de que também gostei qb); disse ela que foi "Campo de Sangue". Também gosto da sua escrita densa.
      Um abraço, Prosa

      Eliminar
  6. A Dulce Maria Cardoso. Conheço-a pessoalmente das reuniões da Associação Portuguesa de Escritores Mas nunca falámos uma com a outra. Por falta de oportunidade? Não sei. Tenho dela uma boa impressão e achei maravilhosa a forma como a descreveu. É uma grande escritora. Havia de gostar o que a Béa escreveu sobre ela e sobre os livros que escreve. É realmente fantástica.
    Tudo de bom.
    Um beijo.

    ResponderEliminar
  7. Não faço ideia do que ela pensaria. Mas não é importante que o saiba. Os escritores têm muito quem opine sobre o que escrevem e suponho que até se fartem um bocadinho de ouvir gente cheia de ideias acerca do escrito e que liguem apenas a editores e pessoas em quem confiam e de que gostam.
    Boa semana, Graça

    ResponderEliminar
  8. Ainda bem que se tirou algo de tão bom da sessão.
    Admito que não conheço a Autora mas eu é raro ler Portugueses.

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

    ResponderEliminar
  9. E eu posso dizer que são os autores que mais leio:). Mas também não desdenho os estrangeiros. Há bom e mau, do nosso gosto e de desgosto, em todo o lado, não é Cláudia?
    Um abraço

    ResponderEliminar