quinta-feira, 12 de maio de 2022

Quando a mente se me pára

 

A culpa – ó mentalidade judaico-cristã – é do calor. É de tudo, but me. Digo eu. São estes dias encalmadiços, esta aragem que não há, este sol que madruga. É da água que não nos quer e anda em nuvens emigradas, borrifando os longes de nós. É das moscas da fruta e mais outras muitas que proliferam em nuvem e, como diz meu pai, nem a cura para o bichaço acaba com elas. Pois é. Por vezes, que são bastas vezes, pára-se-me o raciocínio. Ora vejam (leiam).

Um dia destes, resolvi dar uma voltinha por Lisboa. Mesmo. Às vezes, os provincianos gostam de ir tomar o ar da cidade, ver a paisagem humana, andar nas ruas que estão sempre no lugar, mas para eles  - digo, nós -  são novidade. É ar que se toma às colheres e age como remédio que não cura mas alivia, dá uma aberta à doença. Fui de companhia com quem entende a capital ao volante e nada sabe de subterrâneos. Mas eu sou de debaixo da terra e arrasto as companhias para esse interior temido. Os meus motivos são a rapidez e o descanso de ter apenas paisagem humana à disposição. Portanto, deslocámo-nos de Metro.

É claro que no Metro sou um ás. Entendo de todas as linhas (são apenas três) e vou-me orientando. Não obstante, é frequente enganar-me a mim mesma e a outrem. Ainda não compreendi a razão de me chegar à frente a informar quem seja, se raro acerto. Pobre de quem se abeira por tal motivo. Nestes casos, a intenção é insuficiente.

Bom. Claro que fizemos compras baratíssimas e sentámo-nos no Metro a mirá-las em duplo contentamento: por serem nossas e por não nos escalpelizarem. Ainda na estação, eu, entendidíssima em linhas de Metro, tinha-a informado do percurso e dissera qualquer coisa como, “temos de mudar em S. Sebastião”. No caso, sentadinhas lado a lado, cada uma com seu saquinho, ela tirou uma mala que achava um máximo e eu estava testando fechos e interiores, a mão no fundo das divisórias a palpar o tecido do forro. E eis senão quando a oiço dizer, “olha o S. Sebastião”. Achei um despropósito. S. Sebastião é aquele santo com ar de adolescente copinho de leite, quase nú e atravessado de setas ao desbarato. Dei uma olhadela incrédula à paisagem humana pensando que alguém se poderia mascarar de S. Sebastião, que isto há gostos para tudo. Não vendo nada suspeito, supus que podia um passageiro trazer uma imagem do santo à vista de toda a gente, seria devoto ou assim. Mas continuei sem enxergar nada de nada. Investiguei o exterior, quem sabe, era dia do santo e havia nos pontos de paragem um altar ou um andor com a imagem, podia até haver uma procissão que atravessasse a rua por ali por ser mais fácil. Foi isto que pensei. Mas continuei na mesma. Na estação, não havia sinais do santo. Quando olhei intrigada para a expectante colega, a mão ainda dentro da mala, fez-se-me luz (finalmente!): estávamos em S. Sebastião. Devo ter gritado "ai! S. Sebastião!", ou afim. Saímos disparadas e só tivemos tempo para correr de encontro – mesmo de encontro – às últimas pessoas que acabavam de entrar, o sinal de partida num aviso. O Metro arrancou deixando-nos na estação deserta – uns já tinham subido e os outros seguiam viagem. Quando contei de viva voz a estultícia que me assaltara nesses breves minutos, rimos demais e em bom som (ainda estou para saber como é que consegui pensar tanta parvidade). Uma vez ou outra, absorver em paragens cerebrais deste teor, não é completo desastre. Aquelas gargalhadas a ecoar foram o melhor do dia, regressámos mais leves.

 

6 comentários:

  1. O que eu gostaria de entrar no Metro, Lisboa ou outro, e passear, passear muito.
    Bfds

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    Respostas
    1. :))). Macau não tem Metro, Pedro?
      "Passear muito", também é coisa que não me acontece. Talvez seja por isso que, mal ponho um pé fora do meu ramo, encontro sedução e qualquer mínimo me encanta. Tudo na vida tem contrapartidas.
      Bom Dia:).

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  2. Gosto de ir para Lisboa passear, ver as ruas, as montras... Mas prefiro mesmo é ir ver os miradouros :)
    E nada de andar de baixo da terra. Ténnis, mala às costas e lá vamos nós.

    Beijocas

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  3. Bea, estou mesmo a ver essa tua desorientação e a galhofa que deu...
    Mas rir , mesmo pelas coisas mais simples, ou mais disparatadas, faz sempre bem e, por vezes, o riso chega a ser pelo próprio riso a despropósito. BFS

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  4. Não conseguiria passear consigo em Lisboa; não consigo andar de metro. Prefiro sempre imaginá-la nos Jardins da Gulbenkian...
    ~CC~

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  5. Momentos que fazem diferença no nosso viver...bj

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