quinta-feira, 26 de maio de 2022

Retoma

 

Quando ela vivia na ponta do Algarve eu acorria a Lisboa se acaso seguia viagem no Alfa Pendular. Almoçávamos juntas a cada três meses e confidenciávamos uma à outra a vida contável. Os comboios ma traziam e levavam. Não vinha por mim, mas sentia em cada vez que, mesmo entre comboios, o nosso encontro existia.

Chegava primeiro e aguardava-a na gare. O meu coração em festa via o comboio crescer, os travões sustendo a marcha até à inacção. Depois, assistia ao abrir de portas das carruagens e cismava a tentar adivinhar de onde surgiria. Reconhecia-a mal punha o pé no primeiro degrau e corria a ajudá-la com a bagagem. Os comboios são um amor latente que me vem da infância. Na minha mente mantêm inalterado mistério, imagino que podem parir personagens inesperados e gente invulgar. Ou, quem sabe, desembarcam pessoas que não vejo há séculos e em incredulidade me reconhecem, a dúvida a ganhar peso na pergunta “não é fulana?”. Na realidade, não tenho memória de me trazerem senão o que já esperava. E muito mudaram. Não se alimentam de carvão; o rosto do maquinista já não espreita afogueado a bandeira verde desfraldada na gare pelo chefe de estação; desapareceram os rolos de fumo que o envolviam e eu mirava expectante, inventando que quando se dissipassem havia de lá estar outra coisa que não um comboio; falta-lhe a carruagem negra e inviolável com os dizeres “CORREIO” rebrilhando amarelos, que eu julgava atafulhada de cartas até cima e os agulheiros – não conhecia outros funcionários da CP senão eles - custavam imenso a despejar, via-os mesmo lá em cima dos montes de cartas a encher sacos e sacos de correio. Outra particularidade dessa carruagem era a boca aberta – uma tira como a dos marcos de correio - sedenta de missivas e onde a menina Susana, subindo um degrauzinho, deitava diariamente um aerograma. A menina Susana que era assaz jovem, vivia com os sogros e detinha uma tristeza muda a que apetecia dar consolo.

Mas agora o panorama é outro. A minha amiga mudou de casa e vive mais próxima. Quase, quase, frente a uma estação de comboios conhecida. E vemo-nos infinitamente menos. Ela espera-me em casa e chego pontual, a aproveitar todos os minutos que nos pertencem. Continuamos a almoçar juntas e, em conversa, vamos ver a água. Mas, enquanto eu não me canso daquele manso rumor, a ela incomoda-a o sol. E sentamo-nos na sombra, em lugar que escolhe, a desfiar pormenores. Talvez alargando nós. E eu mentalmente, desculpa estar de costas, não é minha intenção ofender-te, tenho mesmo ganas de me sentar ao contrário. Por mim ficava à tua beira, desimportada do sol a bater-me na tola, olhando o espelho que os barcos cortam de manso e tu festejas contente. São barcos alegres, bem diferentes dos que, em meus verdes anos, me levavam e devolviam. Mas fazem a mesma viagem e sou incapaz de olhá-los sem nostalgia. Eu sei que sobre ti rodopiam, em voos de sol, as feras gaivotas de olho de lince que descem abruptas sobre os peixes. E, apesar dessa injustiça cósmica de sermos alimento uns dos outros, vê-las lembra-me mar, areia e eternos dias soalhentos.

E depois de a deixar em casa, regresso tão ensimesmada que me esqueço de ligar o ar condicionado em dia de calor.

 

10 comentários:

  1. Essas visitas não deviam trazer alegria e boas memórias?
    Bfds

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  2. Julgava eu ter contado isso mesmo. Não foi? Ora bolas para mim.
    Bom fim de semana, Pedro.

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  3. O texto transmitiu aqui um misto de sentimentos, pelo menos assim o interpretei... O início pareceu bem alegre, para o fim, já nem tanto.
    Mas está perfeito, como sempre :)

    Bom fim-de-semana

    Beijocas

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  4. Somos uma mistura de sentimentos, não é mesmo, Cláudia? Diz um amigo meu que toda a alegria tem seu reverso e, tendo-a a ela, também o sofremos. Pertence.
    Bom fim de semana.

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  5. O importante é a amizade que se mantém, independentemente do panorama. Obrigada, bea, por me bater à janela... :))

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  6. Penso também isso. Mas a amizade deve ser regada, não é? E pode crer que tento, mas a minha amiga tem uma vida difícil ao cultivo.
    :) escrevi o que penso tanta vez, se passo em casa que é sua, Luísa.

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  7. A amizade é o sentimento mais puro e desinteressado próprio dos humanos. Mas também muda com o tempo, porque os tempos mudam e os humanos também.BFS

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  8. A minha amiga que resta (das 3 fadas/graças que éramos em adolescentes) tem agora muito menos que fazer e preocupações, filhas crescidas e vida equilibrada. Pois em tanta confusão nos vimos e visitámos, no alvoroço dos filhos, separações e mortes... Agora, nem um mail, nem um encontro, nem nada. Eu penso (quase?) todos os dias nela e nunca, nunca me habituarei ou compreendi. E é como dizes "fica-se ensimesmada". A amizade é um bem precioso, tem de ser cuidada e alimentada, tem de ser transparente e fácil, caminho de dois sentidos largos.

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