Foi
neste quadro dúbio e só por ela apercebido que a notícia deflagrou e lhe varreu
dúvidas e desejos. Ernesto, o filho mais velho, fora preso. E a prisão do
rebento era sofrimento bastante e de maior urgência.
O rapaz levava-me anos de avanço nas letras e estudava
para doutor não se sabia bem de quê e nem isso interessava. Na aldeia só
riscavam doutores de leis e médicos, tudo o mais era lavoura de pouco mérito. A
professora que lhe ensinara as primeiras letras, se alguém o nomeava, assentia
impante, uns laivos de ternura na voz, tem muito boa cabeça, um aluno como não
há. Os pais orgulhavam-se sem modéstia desse filho exemplar e esperavam-no
formado e bem de vida. Era de boas falas e fazia-se próximo aos desvalidos,
facto que, com o correr dos anos, aumentava a estranheza dos progenitores,
damos-te tudo, estudas na cidade grande como o Jaime, para que acompanhas com
pobretanas que não têm onde cair mortos, que conversas com eles, se em tudo te
são diferentes. A resposta de Ernesto chegava embrulhada em sorriso aberto, não
podemos esquecer o berço e olhem que os homens, quaisquer que eles sejam, têm
muito em comum. E a mãe simplificando ideias numa pontinha de orgulho, este
rapaz sai ao meu pai, tem coração de oiro.
Nunca
se soube quem propalou a notícia, mas o certo é que, de mistura com a comum
perplexidade, saltava à vista a aflição pesarosa da família. Estupefacta, a aldeia perguntava-se como podia
ter acontecido, Ernesto era boa alma, nada fazia supor que pudesse ser preso. E
onde estaria. Teria roubado, matado alguém, seria crime que os pais não
perdoavam e por isso não iam de visita. Mas, tal como a notícia chegara anónima,
assim aconteceu com a secreta justificação que ilibou pais e irmão e estarreceu
todos, parece que é preso político, coitadinho. A aldeia encheu-se de cochichos
e temores sussurrados em vozes pequenas que espiralavam em tibiezas reticentes.
Dizia-se mesmo que alguém – seria qualquer aldeão – lançara as más novas. E era
indubitável, tal pessoa só podia ser da PIDE. Havia, pois, redobrado cuidado
com o que se dizia e a quem. Duvidava-se de um por apurar a orelha para
conversas de rua, de outra porque perguntava demais, de algum que sempre fora invejoso
e de má catadura, deste porque aparecia com dinheiros novos, daqueloutro que
era vingativo e mau como as cobras. A
sensação de desconfiança só abrandou – e a brandura é o princípio do
esquecimento – quando alguém se lembrou que o PIDE podia ser de fora, um
fornecedor da mercearia ou da taberna, um ourives itinerante, o amola tesouras
que vinha da aldeia vizinha, o carteiro proveniente da vila, ou mesmo algum dos
agulheiros que chegavam e seguiam de comboio depois de cumprido o turno. E, à
medida que a confiança renascia nos olhos – todos ansiavam pretexto para voltar
a confiar -, a compaixão pelo jovem enraizava.
Curiosa essa ideia dos "Doutores"... Eu sou Licenciada e os meus avós sempre diziam que eu era a neta doutora, por mais que eu dissesse que não era médica.
ResponderEliminarE se havia coisa que me irritava nos meios pequenos, que o meu avô nasceu numa aldeia bem pequenina, era esses diz que disse. Horrível. E tudo era um choque. Uma vergonha.
Beijocas
Nas terras pequenas é assim mesmo. Mas depende de como se diz e o quê. Nem tudo é má língua desatada.
EliminarUps, esta anónima sou eu, a Cláudia do eutambemtenhoumblog :P
ResponderEliminarBeijocas
Bem me parecia conhecer o tipo de escrita:). No problem, Cláudia.
ResponderEliminarSe fosse na minha aldeia, também os padres 'riscavam', escolhendo outros campos para arar. E, Bea, no seu texto é bom sentir o orgulho de ver um filho a estudar para doutor, fosse lá do que fosse. As alternativas também não eram muitas.
ResponderEliminarO 'não ir de visita' nessa situação é que já arrefece e confirma que os medos eram muitos. E as desconfianças também.
Pois é, mas um pai - ou mãe - só não vai de visita se não puder, como era o caso. Nesta aldeia não havia padre: Talvez viesse de fora só para dizer missa. Em gente de fracas posses, um filho doutor era prodígio muito suado por todos, os pais porque gastavam o que fazia falta em casa, os filhos porque partiam em desvantagem em relação aos colegas e tinham de vencer nos exames. Não me parece coisa fácil para nenhum dos elementos e tenho a certeza que o canudo pertencia a todos. Pena que alguns filhos o esquecessem.
ResponderEliminarGreat article. Have a nice day
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