domingo, 8 de maio de 2022

Sombra Chinesa

Foi neste quadro dúbio e só por ela apercebido que a notícia deflagrou e lhe varreu dúvidas e desejos. Ernesto, o filho mais velho, fora preso. E a prisão do rebento era sofrimento bastante e de maior urgência.

 O rapaz levava-me anos de avanço nas letras e estudava para doutor não se sabia bem de quê e nem isso interessava. Na aldeia só riscavam doutores de leis e médicos, tudo o mais era lavoura de pouco mérito. A professora que lhe ensinara as primeiras letras, se alguém o nomeava, assentia impante, uns laivos de ternura na voz, tem muito boa cabeça, um aluno como não há. Os pais orgulhavam-se sem modéstia desse filho exemplar e esperavam-no formado e bem de vida. Era de boas falas e fazia-se próximo aos desvalidos, facto que, com o correr dos anos, aumentava a estranheza dos progenitores, damos-te tudo, estudas na cidade grande como o Jaime, para que acompanhas com pobretanas que não têm onde cair mortos, que conversas com eles, se em tudo te são diferentes. A resposta de Ernesto chegava embrulhada em sorriso aberto, não podemos esquecer o berço e olhem que os homens, quaisquer que eles sejam, têm muito em comum. E a mãe simplificando ideias numa pontinha de orgulho, este rapaz sai ao meu pai, tem coração de oiro.

Nunca se soube quem propalou a notícia, mas o certo é que, de mistura com a comum perplexidade, saltava à vista a aflição pesarosa da família.  Estupefacta, a aldeia perguntava-se como podia ter acontecido, Ernesto era boa alma, nada fazia supor que pudesse ser preso. E onde estaria. Teria roubado, matado alguém, seria crime que os pais não perdoavam e por isso não iam de visita. Mas, tal como a notícia chegara anónima, assim aconteceu com a secreta justificação que ilibou pais e irmão e estarreceu todos, parece que é preso político, coitadinho. A aldeia encheu-se de cochichos e temores sussurrados em vozes pequenas que espiralavam em tibiezas reticentes. Dizia-se mesmo que alguém – seria qualquer aldeão – lançara as más novas. E era indubitável, tal pessoa só podia ser da PIDE. Havia, pois, redobrado cuidado com o que se dizia e a quem. Duvidava-se de um por apurar a orelha para conversas de rua, de outra porque perguntava demais, de algum que sempre fora invejoso e de má catadura, deste porque aparecia com dinheiros novos, daqueloutro que era vingativo e mau como as cobras.  A sensação de desconfiança só abrandou – e a brandura é o princípio do esquecimento – quando alguém se lembrou que o PIDE podia ser de fora, um fornecedor da mercearia ou da taberna, um ourives itinerante, o amola tesouras que vinha da aldeia vizinha, o carteiro proveniente da vila, ou mesmo algum dos agulheiros que chegavam e seguiam de comboio depois de cumprido o turno. E, à medida que a confiança renascia nos olhos – todos ansiavam pretexto para voltar a confiar -, a compaixão pelo jovem enraizava.


7 comentários:

  1. Curiosa essa ideia dos "Doutores"... Eu sou Licenciada e os meus avós sempre diziam que eu era a neta doutora, por mais que eu dissesse que não era médica.

    E se havia coisa que me irritava nos meios pequenos, que o meu avô nasceu numa aldeia bem pequenina, era esses diz que disse. Horrível. E tudo era um choque. Uma vergonha.

    Beijocas

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    1. Nas terras pequenas é assim mesmo. Mas depende de como se diz e o quê. Nem tudo é má língua desatada.

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  2. Ups, esta anónima sou eu, a Cláudia do eutambemtenhoumblog :P

    Beijocas

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  3. Bem me parecia conhecer o tipo de escrita:). No problem, Cláudia.

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  4. Se fosse na minha aldeia, também os padres 'riscavam', escolhendo outros campos para arar. E, Bea, no seu texto é bom sentir o orgulho de ver um filho a estudar para doutor, fosse lá do que fosse. As alternativas também não eram muitas.
    O 'não ir de visita' nessa situação é que já arrefece e confirma que os medos eram muitos. E as desconfianças também.

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  5. Pois é, mas um pai - ou mãe - só não vai de visita se não puder, como era o caso. Nesta aldeia não havia padre: Talvez viesse de fora só para dizer missa. Em gente de fracas posses, um filho doutor era prodígio muito suado por todos, os pais porque gastavam o que fazia falta em casa, os filhos porque partiam em desvantagem em relação aos colegas e tinham de vencer nos exames. Não me parece coisa fácil para nenhum dos elementos e tenho a certeza que o canudo pertencia a todos. Pena que alguns filhos o esquecessem.

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