domingo, 27 de março de 2022

Ralenti

 

         A vida não pára. Nuns dias parece pegar os humanos pela mão e, materna, conduzi-los a bom porto. Contudo, mal o homem se percata, sofre castigo e dano. A indómita vida satisfaz, ignora,  baralha os desejos humanos. Exalta ou arroja-os sem pudor. Acéfala e despropositada, ceifa, colhe e distribui, isenta de justeza. Os acasos são felizes ou infelizes, justos ou injustos, em quem os pensa, que o ímpeto qualificante nos é intrínseco, haja o que houver não se detém. E vive-se assim, entre o absurdo determinismo e o seu idêntico e oposto indeterminado, na busca de sentido e mesmo sem o buscar. Ou procurando uma multiplicidade de sentidos, bengalas humanas ajudando ao caminho. Que dele, por mais que se fuja, não existe fuga. Até ao fim, tudo é risco e trajectória. Há trajectos que desejamos, são alegrias ínfimas, sucederes mínimos. Mas, se nos importam, logo deixam de ser mínimos. E não podemos subtrair-nos à alegria e à tristeza que deles nos vem.

Lastimáveis tempos estes em que assistimos de sofá à destruição paulatina de um país com tudo que acarreta, mortes, escombros, fugas apressadas, a incerteza de vidas cortadas e interrompidas. Observamos na segurança do lar, dia a dia, o desenrolar de um plano maquiavélico que retira chão e lugar a milhares de famílias. Vemos e ouvimos que vai passar à segunda fase (a frieza dos planos de guerra). Aguardamos. O caos mora longe, vê-se na tv, e há a egoísta esperança de que não nos chegue.

Impávida, a natureza continua a sua marcha. É primavera, há pássaros a chilrear, o chão atapeta de verde e as flores, ainda abotoadas, prometem alegrias coloridas. Sigo-a, tenho de segui-la, é preciso continuar, ninguém foge ao caminho. No meu caminho inventado, lá ao fundo, vem o velhote com as duas cadelitas. Esfumam antes do encontro, não chego a tocar-lhes, mas vagueiam por ali, bem os sinto.

18 comentários:

  1. Impossível escapar ao caminho que nos calha.
    Boa noite, bea.

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    1. Pois, não sei responder a essa certeza, Luísa. A minha proposta é que somos nós, enquanto humanos e sociais, os mais certos castradores da nossa mesma liberdade. Julgo ser impossível escapar à caminhada, não quero crer que nela tudo nos seja determinado. Mas, por vezes, parece.
      Boa semana, Luísa.

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  2. Que vida, que caminho, que sentido.
    Se Deus escreve direito por linhas tortas, este caminho de pedras (e é em pedras que este país está transformado) não pode levar a um nada no infinito.
    Mas a quem mais deve pedir proteção este povo, Bea?

    Chegámos à Primavera. Raul Brandão diz que chegada ela, dá logo rebate o tojo bravio e a aspereza é a primeira a senti-la.
    Esperemos que assim seja.

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    1. São tempos de antítese hegeliana, Joaquim. Calhou-nos. Ou pusemo-nos a jeito. Ou ambas. Mas sim, creio mesmo - e não é uma desculpa para justificar os males do mundo que atribuo aos homens e não a um poder divino - que Deus escreve direito por linhas tortas (as linhas tortas somos nós:)) e que às vezes achamos tortas em demasia e não sei se não seremos nós a entortá-las e nos desculpamos depois com o divino. Pronto, é uma opinião.
      Olhe, como não tenho por aqui tojo bravio, talvez a aspereza primaveril me chegue nos botões florais ou no morno dos dias que, finalmente, deu um ar da sua graça. De toda a maneira, prefiro a giesta ao tojo bravio que nos dará a carqueja que dantes íamos buscar ao campo para esfregar na pele dos porcos depois de mortos (hábitos antigos que ainda passaram por mim).
      Esperemos na primavera. Há que esperar em alguma coisa, não é?
      Boa semana, Joaquim.

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  3. Bea, a tua última frase " mas vagueiam por ali, bem os sinto " deixou-me preocupada. Será que o sr José não melhorou? Será que partiu? Desculpa, mas, como já disse muitas vezes, passo sempre por aqui, embora nem sempre entre. Um beijinho e boa noite
    Emilia

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    1. O senhor Zé, apesar do que afirmava nos poucos encontros - bem o estranhei, faltava aos passeios de hábito -, piorou bastante, a filha veio de novo buscá-lo. Juntaram-se outras complicações e, sozinho em casa, o velhote descurou os cuidados. A minha fonte, que o conhece a fundo e há décadas e foi quem contactou a filha, supõe que tomou por cura o que eram melhoras e abusou da condição. A natureza fez o seu caminho. Neste momento, julga-se improvável que volte a casa. Mas a esperança é a última a morrer. Acredito que lute com todas as forças para voltar, é galinha do campo presa em prédio citadino. Só não sei se, no caso, a vontade basta para vencer.
      Obrigada pelo seu interesse, Emília. Boa semana:)

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    2. Obrigada, Bea. Espero melhore e volte. Um beijinho e uma semana com saúde. Beijinhos
      Emilia




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  4. Dói e revolta ver pessoas arrastar os despojos da vida sem saber sequer para onde.
    Tudo porque um louco desvairado tem saudades do passado e complexos de superioridade.
    Boa semana

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  5. É isso, Pedro, dói e revolta.
    Boa semana.

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  6. A existência humana, por mais que a planeemos, atordoa-nos com situações inusitadas, que interrompem o sonho e a normal cadência do dia a dia.
    Um mal, sem dúvida, para o qual ainda se não arranjou solução.
    Abraço de paz e amizade.
    Juvenal Nunes

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  7. e nem se vai encontrar, não é, Juvenal. Ou encontra-se situação a situação. A vida é imprevisível. Mas não é imprevisível do mesmo modo. Ou é cada um a determinar as suas imprevisibilidades.
    Boa semana, Juvenal.

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  8. Na sua memória eles viverão sempre como uma parte do confinamento e do desconfinamento leve que se seguiu...pelo menos enquanto se sentir afectivamente ligada ou tiver que "limpar espaço" para guardar mais memórias. Também os guardamos de certo modo.
    ~CC~

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    1. Curioso, jamais os associei ao confinamento e desconfinamento. Eram os meus companheiros - só de cruzar - factíveis e independentes dessas efemérides. Não creio que algum de nós passeasse por esses motivos. E ambos nos julgávamos ali por anos. Assim não acontece por ora e talvez não volte a suceder (os quatro nunca mais; os dois é muito duvidoso). Mas a vida é tão mutável que me abismam os seus segredos.
      Abençoada seja a memória, CC. Por tanto que me permite. Não sei se haveria sonho sem memória. A escrita não havia e seríamos quem, o quê. É melhor pensarmos pouco no assunto.
      Bom Dia.

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  9. Por isso deixei de ver tv e não só...
    Sou consumida de tal maneira pelas desgraças, altera-me mesmo. Nervos, deixar de dormir, etc.
    Não posso, não consigo.

    E a vida não pára mesmo. Felizmente ou infelizmente. Uns dias melhores que outros, mas o caminho é para a frente, para quem ainda o tem.
    Por isso é que viver infeliz não pode ser. A vida é curta.

    Beijocas

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    1. Sim, viver infeliz não será bom. Mas fazer os outros infelizes não é melhor. E é bom que a vida não páre, traz alguma novidade e incentivo.
      Bom dia, Cláudia.

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  10. Ainda bem que o tempo não pára...pois assim vai suavizando a dor e renovando o que pode ser renovado!bj

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  11. Tem razão, Gracinha. Somos seres do tempo, não há nada a fazer.

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  12. A guerra na Ucrânia é uma dor de alma contínua. Até onde? Até quando? e ninguém pode fazer nada além do feito? Horror profundo e cada vez maior...

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