Cada
um tem a vida que tem e é nela que acontece. Quando li o post do blogue Mariana versando sobre o Dia da Poesia – de que nem me lembrei, tantos são os
dias de tudo –, pensei no modo como a autora avulta e alinda os quase nada
quotidianos. E isto, só por si, é arte. Mas, se fora o meu dia…
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A segunda-feira começa-me ainda a noite não guardou os seus pertences e, por
vezes, dorme profunda e desassombradamente esparramada sobre o mundo. À segunda
tenho um pequeno almoço agradável em
espera, uma revista de que leio um artigo ou outro, e um silêncio cativante -
sem barulho de trânsito ou conversa, sem chamado de cão ou gato, sem o ruído de
portas que abrem e fecham. É nesta extensão pacífica que se revela a essência
dos objectos e ocorre a distensão da matéria, agora liberta de aperreios: não a
molestam olhos e uso humanos e cessam maus tratos de pressa e humores.
Se
a manhã começa cedo demais, o portátil alinha-me com o mundo. Passeio
sorrateira por blogues adormecidos, às vezes com um comentário pronto a colar,
outras apenas curiosa. Nunca consegui escrever um texto, mas já tenho começado
alguns ou terminado. É um mundo dentro do mundo. Em diferido.
Nas
manhãs de segunda não acontece nada de especial, ninguém escreve, não me enviam
convites, conselhos, ou sequer recados e novidades caseiras. Mas também não
tenho novas de catástrofes (não leio o Correio da Manhã, não ligo a TV ou o
rádio). Ainda assim, a natação inscreve nelas algo raro: o gosto, o apetite e a
liberdade de esbracejar e espernear imersa em água quente. Abençoadas manhãs.
Mas nesta manhã especial a poesia chegou ao almoço e sentou-se à minha mesa, comeu da minha refeição e foi embora contente. O meu poeta não verseja, existe-me “está(s) de pé na orla dos meus versos”. Lindo como ele só e seus indomáveis caracóis morenos desmanchados a tesoura, sua barba cerrada de pensador, seus inesperados olhos azuis.
1) Concordo consigo, a autora do blog Mariana alinda os quase nada quotidianos e, acrescento, com uma simpatia que desmancha qualquer mau humor de circunstância. E isto, também é arte.
ResponderEliminar2) Fiquei a matutar no seu poeta, mas não tenho artes adivinhatórias. Quer destapar-lhe o busto?
3) Fiquei a conhecer o seu diário de segunda-feira. Deixe-me ser categórico e intempestivo como gosto, para dizer-lhe que para amostra gostei mais que os do Saramago (que para mim só deslustram o grande escritor) e se aproximam do meu querido Vergílio Ferreira.
4) O meu médico mandou-me dar um giro a seguir ao jantar e evitar o maldito e cómodo sofá. Comecei na sexta-feira (o seu dia negro). Jantar terminado, pus a máquina da loiça a lavar, peguei no saco de lixo e aí vai ele que se faz tarde. Ainda perguntei quem queria vir, mas a televisão ligada e a atenção focada, não obtive resposta. Duas voltas ao quarteirão depois, a lua estava bonita, fones nos ouvidos ligados à antena 2, começa a ronda da noite com a voz maviosa do Luís Caetano e, às sextas, com a participação de Ana Luísa Amaral a traduzir o poeta mexicano José Emílio Pacheco, e o mais interessante, a explicar porque traduziu assim. Às sextas, não falho, só falta arranjar motivação para os dias restantes :)
:))) Não são as minhas segundas, mas uma parcela das manhãs de segunda. Há mais dia, Joaquim. E sim, Maria Dolores é pessoa que dispõe bem. Tem grande amor à vida, julgo.
ResponderEliminarNão quero destapar o busto ao meu poeta, não. Que só em mim ele o é, na realidade dedica-se a outras coisas, acho eu que muito poeticamente.
Não li os diários de Saramago; ou li e não sei. Serão os cadernos de Lanzarote? Não aprecio muito Saramago, mas gostei dos cadernos. Os diários de Vergílio Ferreira também não li. Mas hei-de comprá-los.
Aprecio Luís Caetano e Ana Luísa Amaral. Tenho andado distraída de A Ronda da Noite, já não a oiço há algumas semanas. Mas costumo ouvir O som que os versos fazem ao abrir.
Ana Luísa Amaral é poeticamente didáctica. Uma querida é o que ela é.
ÀS sextas à noite estou desalmada que é como quem diz, com alma de sexta à noite:), cansada e a pensar que no sábado, mesmo que madrugue, volto à cama e fico a ler ou a escrever.
Bom, sofro de certa incapacidade no simultâneo. Ou caminho e olho e penso; ou oiço o programa e penso. E prefiro tomar o pulso ao caminho, auscultá-lo, conversar com ele sem palavras ditas. Nada de fones. Passeio a sentir a dureza do chão, o rumorejo das folhas, os golpes de ar, coisas assim.
Esqueci uma coisa, Joaquim. Por que razão não ouve a ronda da noite diariamente? Só a oiço na rtp play, mas é diária. Ou muda de horário só à sexta?
ResponderEliminarEm casa não calha ouvir a ronda. Porquê não sei, distraio-me com outras coisas.
EliminarPor pura coincidência, tenho feito o meu passeio nocturno à sexta e fiquei com a ideia que a Ana Luísa Amaral só aparece também às sextas (estamos calhados!).
A mim é precisamente ao contrário da Bea; o meu percurso é urbano, não há cá paisagens nem sons bucólicos, vou fazendo a digestão e os fones fazem-me esquecer a rigidez do chão e entrar nas ondas do éter.
:)). Há ainda mais que ver na cidade. Vou reparar se Ana Luísa Amaral só aparece nas sextas.
EliminarUma vida tranquila.
ResponderEliminarE é isso que afinal necessitamos.
Neste momento, Pedro, creio que sim. Mas não é o que queremos sempre; depois da vida tranquila, e dependendo da idade, vêm-nos outros desejos.
EliminarTenho a certeza que a Poesia se senta à sua mesa todos os dias.
ResponderEliminarMuita saúde.
Um beijo.
Oh não, a de olhos azuis não. Que a outra vagueia por onde quer e faz-lhe mais companhia a si, Graça, que a mim. Mas tem lugar em minha casa, sim:).
EliminarA poesia anda contigo todos os dias mesmo quando sentes as pedras do caminho.BFS
ResponderEliminare só as sinto porque me entrego a ela:). É bem verdade, mas não sou poeta como tu. Paciência.
ResponderEliminarBFS, prosa.
Bea, começo por agradecer a "poesia" que existe na sua tão interessante prosa bem como a beleza no seu comentar!
ResponderEliminarTambém gosto de dias assim, descomplicados mas que fazem do nosso viver, a magia da simplicidade!bj
Estamos em sintonia, Gracinha. Sorry pelo atraso.
Eliminar"Poesia" é o que venho cá ler constantemente :)
ResponderEliminarBom fim.de.semana :)
Beijocas
Tão querida, Cláudia. Atrasei a resposta, sorry. Foi o Joaquim que me alertou.
EliminarAinda que atrasada, cheguei a tempo e ainda bem que vim. Chega-se sempre a tempo à Poesia. E esta também é boa quando é vivida no dia a dia. Como estas horas que conta com tanta beleza e sábia serenidade. E isto é arte que ajuda a compreender e a amenizar os dias de quem a lê, Bea. Obrigada.
ResponderEliminarObrigada também pelas palavras tão queridas!
Bom, peço desculpa, mas teria de ler de novo o post para saber o que então escrevi. Tudo que escrevo é verdade quando o escrevo. E depois varre-se-me. Portanto, vou acreditar em si, Maria (é-me mais fácil e salutar). É certo, ninguém se atrasa para a poesia.
ResponderEliminarUm beijinho.