Fui ver “Belfast” de Kenneth
Branagh. Permiti-me o luxo de viver um encantamento que não chegou a
duas horas. Saí contente da sala, situação que entre mim e os filmes actuais
não é muito comum.
Bom,
por escrito, não aprecio contar filmes tintim por tintim, basta acrescentar que
o recomendo vivamente. Mas satisfaz-me o
ego contar o que neles me impressionou, sendo que privilegio a forma como a
história é contada e, nesse âmbito, as interpretações que tanto contribuem para
nos enredarmos nela. Mergulhados na trama, esquecemos até o nosso papel de mero
voyeur. Também é verdade que, à semelhança do que me sucede com os
livros, prefiro histórias passíveis de acontecer, sem volte faces estrondosos ou
personagens ideais ou idealmente maléficas. E “Belfast” tem isso tudo e um algo
mais que o enobrece. Mostra o quotidiano de uma família. Senão vejamos: li em
qualquer lado que é um relato mais ou menos pessoal da vida do realizador num
período determinado da sua história e da história da cidade. Seja ou não, é um
filme a preto e branco e de época, a lembrar aos espectadores mais velhos –
como eu – a sua infância e os princípios em que foram criados. Porque é
uma criança a figura central. Não é sem esforço que penso nesse garoto e no que
teve de memorizar, nas cenas que ensaiou e quantas vezes o fez até à versão
definitiva de cada uma. Oxalá não lhe tenha feito mal ao crescimento, duvido
sempre da fama na infância e do trabalho de actor infantil. Há muita coisa que os
proventos económicos não resolvem e até impedem.
Por
outro lado, sem esse rapazito e o seu pensamento singelo, o filme caía-me aos pés.
Vemo-lo e é amor ao primeiro olhar. Depois, há Judi Dench a fazer uma avó
fenomenal e há um avô cheio de sabedoria – os diálogos são um primor - , e mais
o amor entre eles. E existe a mãe (muito existe aquela mãe), uma actriz pletórica de juventude e beleza que
enche o écran de vibrações. E, ou o amor de Sir Kenneth pela mãe é um sentimento imenso; ou a
estética lhe ordenou que encontrasse alguém cuja figura fosse, só por si, arrebatadora.
A mãe é mulher forte e de princípios, sensível, apaixonada e linda; parece
ideal a qualquer ser possuidor de razão (afinal, há no filme um ser ideal). No
clã, o pai e o irmão diluem-se em relação ao desenho impressivo dos restantes
membros.
Entretanto,
estive a ler que o realizador, Sir B., viveu até ao nove anos em
Belfast. Portanto, é capaz de ser mesmo
a sua história entretecida com a Belfast da época. E que mais dá?! A forma como
a contou é que nos prende. Sendo ele o garoto, fez-se centro, mas é um centro
tão bonito e a puxar-nos para si. Umas vezes comovente; de outras, pleno de bem humorada inocência; em
algumas, apenas criança.
E é isto.
Com essa constelação de estrelas só pode ser bom.
ResponderEliminarHummm...olhe que não é tanto assim, Pedro. Há por aí outro filme cheio como um ovo de malta do estrelato e já li que não é nada de especial. Creio que se chama "Beco das almas perdidas".
EliminarAssim sendo...levo a sugestão!bj
ResponderEliminare vai bem encaminhada, Gracinha.
EliminarBom Dia:).
Começaria por reparar no aviso que nos faz de que não gosta de escrever sobre filmes, com muito detalhe. Nem se pede Bea, escrever sobre filmes não é contar o filme (não queira estragar-nos o prazer de o ver com spoilers desnecessários).
ResponderEliminarFui pesquisar e vi que é um grande candidato aos Óscares com sete nomeações, salvo erro.
Ficou anotado.
Embora saiba que a Bea é contra listas, veja como é importante uma sugestão, uma recomendação de uma pessoa credível, no sentido de ser alguém com que nós temos alguma (talvez mais) afinidade de gostos.
E lembro aquela obra de arte que há tempos nos trouxe, "In the mood for love" que ainda hoje recordo a história daquele amor pouco convencional, os personagens de olhar enigmático, a música compassada, tudo sublimamente embrulhado com a delicadeza dos orientais.
Mas recordo mais, recordo que a recensão que na altura fez do filme era digna do Lauro António, recentemente falecido.
PS: como só se fala da guerra da Ucrânia, só ontem soube que faleceu no dia 13 o actor norte-americano William Hurt, um dos meus preferidos.
Bolas, o filme tem sete nomeações para os óscares?! Claro que para mim as vale todas, mas desconhecia esse pormenor. Estou informada. Pois é, só por escrito é que não gosto de contar. E aqui ainda menos, pelo motivo que o Joaquim aponta (não sou maluquinha de todo, a surpresa é um agrado em qualquer fita).
ResponderEliminarTambém gosto tanto de William Hurt. Fiquei zonza a olhar a linda foto que o blogue Da Literatura expôs e é mais ou menos como o recordo. Vamo-nos desta vida sem sabermos se há outra. Só desejo que não tenha sofrido em demasia, os cancros são terríveis.
"In the mood for love" é um filme extraordinário e sobre ele já disse o que me marcou e parece essencial.
Nós, Joaquim, somos parte de uma paisagem diáfana e habitada, de um cenário que se vai desfazendo, éramos um conjunto de sombras diversas a pontuar o horizonte e quase em cada semana desaparece uma ou duas. É certo, nascem e erguem-se outras, a vida continua, é preciso que o cenário mude. Mas vai-nos ficando a alma pelo caminho. A vida é exigente, não deixamos apenas os outros, vamo-nos deixando.
Fui ver aí há uns 15 dias e também gostei muito. Para este fds está agendado "O poder do cão", é uma cineasta que muito prezo...o filme já anda por aí a circular há muito mas só agora parece passar perto de mim.
ResponderEliminar~CC~
"O poder do cão" também me agradou. Mas menos. Jane Campion é uma realizadora a merecer sempre a nossa atenção.
ResponderEliminarConcordo, um belíssimo filme com uma excelente banda sonora!
ResponderEliminarBooommm...eu, a banda sonora não ouvi. É uma vergonha, mas se os filmes me interessam não oiço a música. Talvez um dia que o reveja dê por ela.
EliminarDeve ser interessante. Pelo menos fiquei com a pulga :P
ResponderEliminarBeijocas e bom fim de semana
Haverá quem não goste, Cláudia; mas tenho pecha pela infância e sua filosófica simplicidade :).
ResponderEliminarBea , concordo inteiramente contigo na apreciação de Belfast. Adorei o filme, e o miúdo, e a mãe e toda a família.
ResponderEliminarTemos gostos muito semelhantes, não é, prosa? Nunca esquecerei que foi contigo que vi "A rapariga da Dinamarca" (é bom haver marcos de junção e nos já temos alguns:) . Apreciei o filme extravagantemente.
ResponderEliminar