quarta-feira, 16 de março de 2022

Belfast

 

Fui ver “Belfast” de Kenneth Branagh. Permiti-me o luxo de viver um encantamento que não chegou a duas horas. Saí contente da sala, situação que entre mim e os filmes actuais não é muito comum.

Bom, por escrito, não aprecio contar filmes tintim por tintim, basta acrescentar que o recomendo vivamente.  Mas satisfaz-me o ego contar o que neles me impressionou, sendo que privilegio a forma como a história é contada e, nesse âmbito, as interpretações que tanto contribuem para nos enredarmos nela. Mergulhados na trama, esquecemos até o nosso papel de mero voyeur. Também é verdade que, à semelhança do que me sucede com os livros, prefiro histórias passíveis de acontecer, sem volte faces estrondosos ou personagens ideais ou idealmente maléficas. E “Belfast” tem isso tudo e um algo mais que o enobrece. Mostra o quotidiano de uma família. Senão vejamos: li em qualquer lado que é um relato mais ou menos pessoal da vida do realizador num período determinado da sua história e da história da cidade. Seja ou não, é um filme a preto e branco e de época, a lembrar aos espectadores mais velhos – como eu – a sua infância e os princípios em que foram criados. Porque é uma criança a figura central. Não é sem esforço que penso nesse garoto e no que teve de memorizar, nas cenas que ensaiou e quantas vezes o fez até à versão definitiva de cada uma. Oxalá não lhe tenha feito mal ao crescimento, duvido sempre da fama na infância e do trabalho de actor infantil. Há muita coisa que os proventos económicos não resolvem e até impedem.  

Por outro lado, sem esse rapazito e o seu pensamento singelo, o filme caía-me aos pés. Vemo-lo e é amor ao primeiro olhar.  Depois, há Judi Dench a fazer uma avó fenomenal e há um avô cheio de sabedoria – os diálogos são um primor - , e mais o amor entre eles. E existe a mãe (muito existe aquela mãe), uma actriz pletórica de juventude e beleza que enche o écran de vibrações. E, ou o amor de Sir  Kenneth pela mãe é um sentimento imenso; ou a estética lhe ordenou que encontrasse alguém cuja figura fosse, só por si, arrebatadora. A mãe é mulher forte e de princípios, sensível, apaixonada e linda; parece ideal a qualquer ser possuidor de razão (afinal, há no filme um ser ideal). No clã, o pai e o irmão diluem-se em relação ao desenho impressivo dos restantes membros.

Entretanto, estive a ler que o realizador, Sir B., viveu até ao nove anos em Belfast.  Portanto, é capaz de ser mesmo a sua história entretecida com a Belfast da época. E que mais dá?! A forma como a contou é que nos prende. Sendo ele o garoto, fez-se centro, mas é um centro tão bonito e a puxar-nos para si. Umas vezes comovente; de outras, pleno de bem humorada inocência; em algumas, apenas criança.

E é isto.

 

14 comentários:

  1. Com essa constelação de estrelas só pode ser bom.

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    1. Hummm...olhe que não é tanto assim, Pedro. Há por aí outro filme cheio como um ovo de malta do estrelato e já li que não é nada de especial. Creio que se chama "Beco das almas perdidas".

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  2. Começaria por reparar no aviso que nos faz de que não gosta de escrever sobre filmes, com muito detalhe. Nem se pede Bea, escrever sobre filmes não é contar o filme (não queira estragar-nos o prazer de o ver com spoilers desnecessários).
    Fui pesquisar e vi que é um grande candidato aos Óscares com sete nomeações, salvo erro.
    Ficou anotado.

    Embora saiba que a Bea é contra listas, veja como é importante uma sugestão, uma recomendação de uma pessoa credível, no sentido de ser alguém com que nós temos alguma (talvez mais) afinidade de gostos.
    E lembro aquela obra de arte que há tempos nos trouxe, "In the mood for love" que ainda hoje recordo a história daquele amor pouco convencional, os personagens de olhar enigmático, a música compassada, tudo sublimamente embrulhado com a delicadeza dos orientais.
    Mas recordo mais, recordo que a recensão que na altura fez do filme era digna do Lauro António, recentemente falecido.

    PS: como só se fala da guerra da Ucrânia, só ontem soube que faleceu no dia 13 o actor norte-americano William Hurt, um dos meus preferidos.

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  3. Bolas, o filme tem sete nomeações para os óscares?! Claro que para mim as vale todas, mas desconhecia esse pormenor. Estou informada. Pois é, só por escrito é que não gosto de contar. E aqui ainda menos, pelo motivo que o Joaquim aponta (não sou maluquinha de todo, a surpresa é um agrado em qualquer fita).
    Também gosto tanto de William Hurt. Fiquei zonza a olhar a linda foto que o blogue Da Literatura expôs e é mais ou menos como o recordo. Vamo-nos desta vida sem sabermos se há outra. Só desejo que não tenha sofrido em demasia, os cancros são terríveis.
    "In the mood for love" é um filme extraordinário e sobre ele já disse o que me marcou e parece essencial.
    Nós, Joaquim, somos parte de uma paisagem diáfana e habitada, de um cenário que se vai desfazendo, éramos um conjunto de sombras diversas a pontuar o horizonte e quase em cada semana desaparece uma ou duas. É certo, nascem e erguem-se outras, a vida continua, é preciso que o cenário mude. Mas vai-nos ficando a alma pelo caminho. A vida é exigente, não deixamos apenas os outros, vamo-nos deixando.

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  4. Fui ver aí há uns 15 dias e também gostei muito. Para este fds está agendado "O poder do cão", é uma cineasta que muito prezo...o filme já anda por aí a circular há muito mas só agora parece passar perto de mim.
    ~CC~

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  5. "O poder do cão" também me agradou. Mas menos. Jane Campion é uma realizadora a merecer sempre a nossa atenção.

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  6. Concordo, um belíssimo filme com uma excelente banda sonora!

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    1. Booommm...eu, a banda sonora não ouvi. É uma vergonha, mas se os filmes me interessam não oiço a música. Talvez um dia que o reveja dê por ela.

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  7. Deve ser interessante. Pelo menos fiquei com a pulga :P

    Beijocas e bom fim de semana

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  8. Haverá quem não goste, Cláudia; mas tenho pecha pela infância e sua filosófica simplicidade :).

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  9. Bea , concordo inteiramente contigo na apreciação de Belfast. Adorei o filme, e o miúdo, e a mãe e toda a família.

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  10. Temos gostos muito semelhantes, não é, prosa? Nunca esquecerei que foi contigo que vi "A rapariga da Dinamarca" (é bom haver marcos de junção e nos já temos alguns:) . Apreciei o filme extravagantemente.

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