segunda-feira, 25 de maio de 2020

Reencontro


Tinha já a insuspeita cor do verão e a luz era tão clara que adoecia nos olhos. Uma ou outra criança sem alarde e o som ritmado de ondinhas folgazãs em desmaios enviesados como quem apronta uma partida, correndo numa direcção e a inflectir, de súbito, noutra. O leve som da água batendo palmas de espuma, contente de haver verão num dia de primavera. Eu, franzida para o azul esplêndido do céu; baixando as pestanas, a esfumar, a linha do horizonte. À direita, num virar de cabeça, a rigidez tímida e nebulosa da serra, pedindo desculpa de assim despida, nua, pele áspera, mazelas aqui e ali por entre o verde que se adivinha além névoa. A serra de sereno perfil, mistério de alma cândida guardando as águas.  Lá atrás, um caminho de calor nas dunas floridas de amarelo e rosa-lilás e a ausência dos cardos azulados e marítimos que, em Agosto, se erguem belos e terríveis e convidam, vem!, beleza trágica e intocada de sangue e espinhos, um indescritível pavor de calcanhar que a mente adivinha. Erguendo um pouco a cabeça, abraço com os olhos a transparência anilada, paixão dos meus sentidos, fundo desejo da alma. Sou desta praia como de nenhuma, lugar onde volto a ser criança. Braços abertos, riso de água cheio de gotas, rodeia-me, quanto tardaste.    

29 comentários:

  1. 1) À sua ode marítima só falta um piano na praia para a tornar canção.

    2) A propósito de voltar a ser criança: ouvi dizer que era feiazinha :) e que não tinha nada que a alindasse :(
    Olhe que os espelhos às vezes mentem...

    3) A propósito de reencontros:
    Muito pontualmente faço uma releitura. O que me move? Ou que o livro tenha sido lido na minha pré-história ou que o livro me tenha deixado interrogações ou que o livro tenha sido muito, muito bom.
    Foi o que me aconteceu com O Fio da Navalha de Somerset Maugham, nessa tríplice vertente: li-o na adolescência, levantou-me questões e retive que gostei muito; o algodão não engana.
    Somerset Maugham nasceu em Inglaterra tendo perdido ambos os progenitores quando era criança. Criado por uns tios ainda muito jovem traçou objectivos para a sua vida: escrever, viver da escrita e viajar. E foi mesmo isso que fez. Não tinha pretensões quanto a ser um grande escritor e foi mesmo desvalorizado pela crítica. Mas foi também o mais bem pago escritor da sua época.
    O livro retrata a história do aviador Larry Darrell cuja vida muda para sempre quando um amigo e colega de combate morre ao tentar salvá-lo. Uma interrogação perturbadora leva-o a renunciar a tudo quanto a vida lhe oferecia - a prosperidade de um bom emprego, o amor de uma linda mulher - para seguir os ínvios caminhos da sabedoria e da meditação. Leitor compulsivo dos Princípios de Psicologia de William James, o inexorável mistério da morte leva Larry a questionar o significado último da frágil condição humana e a embarcar numa obstinada e redentora odisseia espiritual.
    «- Que esperas encontrar?
    - Respostas às minhas perguntas. Quero ter a certeza da existência ou da não-existência de Deus. Quero conhecer a origem do mal. Quero saber se tenho uma alma imortal, ou se a morte põe fim a tudo.
    - Mas, Larry, há milhares de anos que a Humanidade faz essas perguntas. Se tivessem resposta, certamente há muito já teriam sido respondidas.
    - O facto de os homens fazerem essas perguntas há milhares de anos prova que não podem deixar de perguntar, e continuarão a perguntar.»

    No meu tempo de estudante, a disciplina de filosofia, dividia-se em psicologia no 1° ano do complementar e em filosofia propriamente dita no 2° ano. No meu 1° ano do complementar apanhei uma professora de filosofia (psicologia) filha do célebre professor Pardal, um senhor de sessenta e muitos anos, seco de carnes, cabelo todo branco, óculos, professor respeitadíssimo entre docentes e alunos, um autêntico decano do liceu onde eu andava. A dita professora era gorda, cabelo apanhado à Maria Callas, cara vermelha, tipo sanguíneo. Chamávamos-lhe a Pardalinha e era uma jóia de senhora. Fez com que todos os alunos da turma gostassem daquela disciplina tão abstracta a que não estávamos acostumados nos anos anteriores. Nutria a exuberante senhora uma admiração especial por William James, rotulado como pai da psicologia americana.
    Ocorre que James, fez da discussão determinismo/livre arbítrio algo crucial, não só na sua filosofia como na sua vida. As posições de­terministas, contra as quais se empenhava, resultavam de ele não poder conceber um mundo onde a vontade nada desempenhasse além de cumprir as ordens de um destino traçado previamente, seja por Deus, seja pela natureza de uma evolução que só um espírito iluminado conhece. No seu diário, em 1870, James escreveu:
    "O meu primeiro ato de livre arbítrio será acreditar no livre arbítrio."
    Ao reler O Fio da Navalha, talvez após quarenta e cinco anos da primeira leitura, recordei este episódio da juventude, onde ainda andava à procura de um rumo. Será que não ando ainda?

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    1. Então, vamos lá por partes:
      acha que é uma ode, Joaquim? Não sei bem o que seja, mas o seu objecto só me faz bem:)
      Pois...fui uma criança vivaça, alegre, magríssima mas de cara redondinha, bonitinha mesmo; uma púbere e adolescente feiazinha, nada conjugava; uma jovem e jovem adulta aceitável com sinal mais; uma mulher adulta e agora envelhecida que não perdeu aceitação, o que deixei cair foi o sinal mais. Não ligo muito a espelhos objecto; os meus espelhos são os outros. E quando mudei para jovem as colegas do liceu/colégio não me reconheceram.
      O fio da navalha é um livro que, tal como o Joaquim, li antes dos vinte, provavelmente por empréstimo. Já o reli, exactamente por ter ideia de que é bom. E não me lembro de quase nada. O que é decepcionante.
      Também já partilhei a ideia de que o sujeito tem voz activa na sua vida através do exercício da vontade. Que sempre a pode modificar através das suas escolhas. É muito bonita esta ideia, conquista o espírito do homem. Mas hoje já descreio desse poder da vontade. Certo, ela consegue umas coisas, mas são tão poucas e tão pouco determinantes. O acaso e a circunstância destroem muito sonho da vontade:).
      Também tive esse modelo de estudo, psicologia no 10º e filosofia no 11º. Mas o meu verdadeiro professor de psicologia ão foi esse cujo nome e figura nem sequer recordo. E a filosofia também não me conquistou.
      Quanto ao rumo, talvez nunca se encontre, gosto da perspectiva de Jaspers, somos seres a caminho.
      Boa tarde:)
      Tenho que treler oO fio da navalha:). não estou apta a discuti-lo. Talvez neste verão, trouxe um exemplar pequeno da biblioteca com o intuito de o dar a uma amiga que lê compulsivamente, mas entretanto o covid destruiu a hipótese de nos encontrarmos.

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    2. Como diz, é decepcionante ler-se um livro (e não é um qualquer) e anos depois nada ficar na lembrança. Também me acontece com livros, penso que com filmes menos e ainda com cidades que não visito há anos. Contudo, até há pouco tempo, lembrava-me do cheiro da minha ama, e de pequenos pormenores da infância. O que estará por trás da nossa memória, que mecanismos influem no seu funcionamento? Será como dizem alguns, uma questão de apenas armazenarmos o que é importante e com significado para nós (memória selectiva)? Será que nos lembramos melhor daquilo que evocamos mais vezes? Bem... nada sei do funcionamento do nosso cérebro, mas sei que o pior deve ser viver num silêncio de memórias. Deus nos livre!
      Boa noite.

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    3. Enquanto ela nos for respondendo de alguma maneira, ainda que a não dominemos, tudo segue normalmente. O vazio da memória, penso eu, será pior que uma vida apenas animal porque eles têm uma memória de sobrevivência, instintos, hábitos e não sei se o homem sem memória conserva alguma coisa de seu. E que pensamentos lhes ocorrem? É situação demasiado intrigante e deplorável.
      Bom Dia:)

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  2. É bom este conjunto de sensações e emoções!!! Bj Bea

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    1. Faz-me bem a tudo, Gracinha. É antídoto contra os venenos da vida.
      Um beijinho, Gracinha

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  3. Escrever poesia pode até ser fácil. Escrever prosa também. Mas escrever prosa poética já me parece, só estar, ao alcance de mentes abençoadas. A bea, a escrever como escreve, é um mente super abençoada.
    Amei, como sempre, ler este fascinante reencontro
    .
    Cumprimentos

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  4. Nada é fácil na escrita, Ricardo. Gostar de escrever não é admitir facilidades senão a do gosto. E, se cirande por blogues - e ciranda que eu encontro-o "inda bem não" -, vai observar que existe muita prosa poética por aí. E tanto masculinas como femininas. Há muita escrita de qualidade. Isso é indubitável.
    Mas foi mesmo um fascinante reencontro. É sempre:)
    Boa tarde

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  5. Mas que bem, só apanho pessoas que têm o dom da escrita

    Beijocas

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    1. será sorte ou uma pessoa exigente com o que lê?:)
      Bom Dia, Cláudia.

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  6. Vivemos por estes dias um verão antecipado e que bom é voltar a comungar com as marés. :)

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  7. é aproveitar enquanto dura, Luísa. O tempo agora também é imponderável:). Mas sabe bem até pelo inesperado.
    Bom dia

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  8. Praias assim desse género, recordo com carinho o Portinho da Arrábida: água gelada, but who cares?
    Contudo prefiro as praias com rochas, assim estilo Adraga, Três Irmãos ou Zambujeira.
    Se pudesse reencontrar uma praia seria a da Ilha do Pessegueiro, sem dúvida.
    Mas não vai dar, primeiro porque é muito longe para mim; segundo porque a praia que eu conheci já não existe, a não ser na minha memória.

    Bons banhos!
    🐳

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  9. O Portinho não faz o meu género. Tem areal pequeno e não podemos, se nos apetece, isolar-nos à vontade, uma descida e subida difíceis em demasia, um parque de estacionamento pequeno e que obriga a pontos de embraiagem que não arrisco; e a água é bastante fria. Tem ainda outra agravante, em meu entender, é um bocadinho in.
    Também gostei da Zambujeira do Mar, em tempos. Hoje, nem sei bem como seja. E a praia da Ilha do Pessegueiro era, à época, quase deserta. No dia em que a visitámos estávamos nós e um pescador.
    Tem razão, Maria, a praia que foi nossa, aquela que vimos e sonhámos, que em si é uma e em mim outra, já não existe - o rio é o mesmo mas outras são as águas. Mas, como alguém me disse um dia, "fica a frescura"; ou como li ontem, "as águas são outras mas é o mesmo rio e a água, sendo outra, mantém a mesma frescura".
    A memória sabe torturar-nos, mas também refresca, não é?:).

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  10. O Portinho era praia de criança e não era in naquela altura, eu adorava aquela descida, achava a vista deslumbrante (e o meu pai é que ia a conduzir 😂).
    Festejei lá os meus 29 e depois rumei a sul, nunca mais lá voltei.
    Porto Covo e arredores eram um paraíso naquela altura, nada de enchentes, tudo muito calmo (excepto talvez em Agosto).
    E toda a costa por ali abaixo até Sagres é (era) uma maravilha: palmilhei-a toda.
    Boas memórias é o que não me falta... mas queria mais, precisava de mais.
    Praia, quero eu dizer, um Piscis nunca pode ser feliz longe do mar.
    Ó Dona Bea, podemos saber qual é o seu signo, ou também é um segredo guardado a sete chaves?
    🐠🐠

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    1. É assim, m termos de paisagem, não há igual ao Portinho da Arrábida.

      Não sou muito ligada a signos e quem me conhece afirma convicto que não tenho muito a ver com as características do signo. Mas o facto é que sou Leão.
      Hummm...eu ia para Porto Covo e Zambujeira do Mar sempre em Agosto. E acredite que não me lembro se havia muita gente. Talvez houvesse alguma. Tenho boas memórias de ambas.
      O mar de Sagres é inigualável, em minha opinião. Sua majestade é de opulência altaneira e quase insolente. Mas não é local que aprecie para férias, nunca vi nada tão ventoso como aquele cabo e dizem que a água é bem fria. Competia-me ponderar bem as praias, levava comigo três irmãos e dois eram crianças completas. Observar-lhes a descida para a Praia Grande em Porto Covo era sempre um sobressalto; na altura, havia apenas um carreiro feito pelos pés dos aventureiros. Exigia que minha irmã mais nova descesse comigo. Nesse tempo tudo nos era alegre e solto, a vida e o futuro pouco pesavam, estávamos ocupados a experimentar as novidades do presente.
      Acha mesmo que um peixe não vive longe do mar? Conheço alguns que detestam praia, mar, areia:). Degeneraram.

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    2. As vezes que eu desci esses carreirinhos para a Praia Grande...
      E os Cabos são sempre zonas de muito vento e de mares majestosos, mas eu gosto, e gosto muito de faróis, visitei todos os que pude.

      A Bea não faz por menos: Leão é só o signo mais forte do Zodíaco, o dos vendedores, dos predestinados ao sucesso. Peixes é talvez o mais fraco, é o signo dos sonhadores, sensíveis, pouco práticos e nada ambiciosos (a não ser que tenham um ascendente forte).
      Mas isto em termos gerais, claro. O carácter de cada um também depende de muitos factores concretos (onde nasceu, educação a que teve acesso, pessoas com quem conviveu, etc.). Não que eu perceba muito do assunto, li algumas coisas, especialmente sobre o meu signo, e fui tirando conclusões, possivelmente erradas, sei lá...
      Agora essa treta de ler horóscopos é do mais ridículo e patético que há: não me entra na cabeça que alguém, minimamente inteligente, acredite nisso; mas a verdade é que há! 😯

      Claro que há Peixes a viver longe do mar, e talvez até felizes, pois podem ir vê-lo e senti-lo sempre que quiserem. E eu também não adoro tanto assim a praia e a areia... gosto de lugares calmos, detesto multidões e confusões. Refiro-me ao elemento Água, até pode ser um rio, ou uma simples ribeira a correr, que aquele som dá-me logo outro ânimo, outra alegria.

      Um dia bom, Bea.
      🐠🐠


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    3. Adenda:

      Onde escrevi vendedores, deve ler-se vencedores
      :)))

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    4. Já lhe disse que toda a gente entendida em signos e que me conhece, me diz que sou incaracterística:). Mas na profissão também acontecia, as pessoas a quem perguntava respondiam que tinha perfil de Línguas e Literaturas. Enfim, devo andar enganada no mundo. Mas na altura divertia-me parecer uma coisa e ser outra:). Acho que vou sempre gostar dessa aura meia incógnita. Não sei porquê.

      Conheço peixes que só gostam da água do banho e da torneira:)). Mas concordo, são sensíveis e sonhadores. Um bocado frágeis.

      Rios, ribeiros, lagos, são bonitos, aprecio o som da água, mas não me empolgam. Abomino praias fluviais e banhos que não sejam salgados. A minha alegria é sensorial, tenho de ir lá para dentro:).
      Quando e se fico sozinha em casa relembro velhos tempos e é muito bom voltar aos hiatos de mim comigo:)))
      Boa tarde, Maria

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  11. Essa praia é a sua pátria, o seu ninho, o seu pedaço de paraíso. Conseguiu um texto belíssimo. O meu aplauso, Bea.

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    1. Não é a minha pátria, nem o meu ninho, Nina. Seguramente. Mas um pedacinho de paraíso que uns dias por outros me é permitido desfrutar, admito. A vida é assim, de vez em quando, a gente precisa ir ao céu e voltar.
      Divirta-se no fim de semana:)

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  12. Boa tarde tudo bem?Desculpe o encomodar. Sou brasileiro e procuro novos seguidores para o meu blog. Novos amigos também são bem vindos, não importa a distância. No mais desejo muita saúde para você e sua família.

    https://viagenspelobrasilerio.blogspot.com/?m=1

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    1. hei-de visitá-lo quando tenha um tempinho. Nunca me inscrevo como seguidora, mas sigo vários blogs que me agradam por isto ou aquilo. Vou analisar e depois se vê, ok?

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  13. É sempre bom voltar aos lugares onde fomos felizes!!!
    Bea, descreves tão bem «a tua» praia, que me vi na areia e quase mergulhei na água gelada. (Será que a água é mesmo gelada?)
    Beijo, bom fim-de-semana, cuide-se.

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  14. Não, não, a água nunca é gelada. Mas tem dias em que não apetece por demasiado fria. E outros, como o que descrevo, em que a temperatura é a exacta, aquela, tira o calor sem mágoa, suavemente.
    Há quem diga, e eu acredito, que nunca voltamos ao mesmo lugar. Somos outros e ele também; sobretudo se o tempo interfere ou as emoções pessoais se modificam. Mas também penso que dentro da mudança alguma coisa de perene se mantém, nem que seja em nós:). Neste caso, sou sempre eu quem acusa maior mudança, mas a essência é, em cada uma, a mesma.
    Um abraço, Teresa. Bom fim de semana.

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