Sou
de sequeiro e não sei se gosto do mar enquanto oceano e imensidão. Temo-o. E rondo-o. Olho maravilhada aquela
imensa mole, admiro-lhe a grandeza e a paleta de cores, o movimento incessante
e vivaz, o brilho sob o sol. Se penso nele, habita-me um respeito temeroso,
inibidor do sentimento. Não apeteço
cruzeiros e o meu ser repele um horizonte de água. Sou adversa à constância do
cheiro ao iodo marítimo e a viver balanceada num insuportável colchão aquoso.
Mas
a praia. A praia sedutora, a expandir-se até aos confins mais escusos do eu e
infra eu. Exigente, despoja-me do ser que sou e me habita. E ali ficamos em
sintonia. Entretanto, não me preocupa o que sou, sabendo que sou ainda alguma
coisa. Agrada-me como amante romanesca que arrasa convenções e se deita sobre
elas a descansar. Com ela tolero a vida; de outras vezes, ajuda-me a viver com
mais ou menos apreço. Sou de visitas pontuais em calores de verão. E ainda
assim me sustenta. É um dos meus amores perfeitos. Alinda-me os interiores.
Penso
bastas vezes na hipótese de perdê-la. Sonho que deixa de me existir. Na
verdade, qualquer contingência pode impedir-me de visitá-la e obrigar-me a
desistir dos momentos que acolho e acabido dentro de mim, preciosidade que são.
Mas talvez Isabel Allende tenha razão. No que julgo o seu último livro há uma
mulher que durante três anos envia cartas a si mesma. Faz viagens para nada. Ora, coisa nenhuma é “para nada”. O chato disto tudo é que a gente, mediante as
linhas que a vida e os outros nos traçam, pensa ser original. E não.
Vai-se a ver há uma escritora que pensou exactamente o mesmo. Mas ela apenas pensou.
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