Estou
no metro. Entro devagar na carruagem, a aproveitar
a benesse da idade e sento-me frente a um casal jovem. São indianos. Ele tem os
óculos e os olhos virados a ela. Focalizados. É linda e típica, pele acetinada
em moreno escurecido, boca carnuda, um
traço natural e acastanhado em debrum, o meio do lábio inferior em vermelho
natural. Mais acima, o donaire em arco da sobrancelha é asa que guarda a graça do risco de Kohol ajustado ao poço sem fundo dos
olhos. Ciciam palavras alegres ou ternas enquanto as mãos se vão entretendo em
conversa de umas a outras, num enlaça deslaça digno de filme. Presumo que
combinem quotidianos futuros, cada um esperando a palavra do outro. Talvez aprazem
a tarde, as próximas horas, o dia de amanhã. Existem-me da cintura para cima
que o resto do corpo elide e morre sentado, quieto. Nada neles é urgência,
antes parecem comungar do sentimento do apóstolo que em bem aventurança se vira
a Cristo e, negando o mundo real, pede o eterno, “ senhor, é bom estarmos aqui.
Se desejares, farei aqui três tendas, uma para ti, uma para Moisés e outra para
Elias”.
Não
houve tendas para o Senhor Deus. Não haverá para o casal indiano. Mas oxalá o momento
deles seja eterno o quanto baste.
Seja eterno o quanto baste e - como dizia o poeta- enquanto dure.
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