Chegou sem fome, banhado em alegria e conversedo. E alagou os presentes em beijos e abraços.
Verborreico. Sentou-se a depenicar a refeição. E bebeu. Garrafa a meio,
interrompeu para fumar um cigarro. No exterior. Envolto em noite. Ao entreabrir da
porta, uma aragem fria espevitou arrepios sala fora e logo um coro uníssono, atenção à
porta. Fechou-a sorrindo, a mão a palpar o isqueiro no bolso. E as conversas recomeçaram
sem imoderados, pausadas. Faltava ele, braços a alongar pela
mesa e palavras de atropelo, as tais palavras a borbulhar alegria,
espuma breve que por vezes se perdia no entaramelado da língua sob a curiosidade auspiciosa de quatro ou cinco pares de olhos que as anzolavam sem êxito.
Um
súbito abrir da porta desenhou-o em fundo escuro. E logo o coro, a porta. Então, feito
sinaleiro, impôs calma, um dedo em gancho a definir-lhe a intenção; acenou-lhe,
chamou-a sem palavra. Ela corrigiu um botão da blusinha e interpretando o
desejo comum, saiu fechando a porta. Sentaram-se no poial, apenas iluminados
pelo postigo, sinal da vida que, a três passos, corria quente e cómoda. Ali,
não. Ali, havia a hostilidade da aragem. Ele fumava a olhá-la. Atento.
Finalmente tomou coragem e veio o discurso da partilha de emoções e problemas, o eterno discurso feito
e tão vezeiro, a partilha ajuda; o, julgo que sabes porque estás aqui e eu
julgo que sei o teu problema. Ela sorriu. Apenas. E foi tão indefinida quanto
ele, partilhar não resolve, mas obrigada na mesma. Ele entre baforadas, tu é que sabes. Findo o
cigarro, entraram ambos. Sentaram-se à mesa a retomar fios de meada. A garrafa decerto
morreu vazia que ela saiu antes, era tarde, esfriara no seu vestido de verão.
No
dia seguinte, cumpriu o prometido, visitou-a. Era manhã. Partiu depois de beber um
café quotidiano enquanto conversava
pelos cotovelos. Ela viu-o desaparecer em pressas de acelerador e pensou na por
demais incerta certeza dele, “quando formos mais velhos tomamos conta uns dos
outros”. Jovem e bem intencionado. Oh, a incólume juventude, sem rastos de tempo e sua corrosiva importância. Como é que ele consegue?!...