segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Beatitude

  Beatitude é o termo certo para o meu dia. Porque eu e a praia. A sós. Sem outro som que o das ondas (os pensamentos  evolvem sem um ai que os denuncie). E  um livro, um guarda-sol nas lonas, uma mochila a cair de velha, a cadeira que há tanto ano me acompanha, o meu chapéu variável. Horas maravilhosas.  Da areia macia  ao azul do firmamento. Da água que já mudou a tonalidade e é fria, mas de que retiro o sabor vivificante do contraste no corpo quente. E os mergulhos que me desanuviam e inscrevem a sensação de pertença a um meio que não é o meu. Dia tão de maravilha que, na volta, dei por mim cantando no carro. Anos em que o não fiz sei lá porquê, cantar é tão bom como rir. Também percebi que a falta do canto me fez esquecer excertos da letra de canções que supunha escritas em mim. Canções de juventude, escritas aos bocadinhos num caderno, minhas irmãs a colaborar, Bea, está a dar, e lá desengalgava para o caderno com lápis ao lado. Agora tudo se simplificou, basta ir à net.

Talvez seja semelhante à sensação que tem a Gracinha quando passeia em Matosinhos e a que chama felicidade. Beatitude é em mim sentir que a alma se espalhou pelo corpo inteiro e tudo é vivo bem estar. O mesmo terá sentido o apóstolo ao desejar permanecer, "Façamos aqui três tendas". Beatitude é, ainda agora que estou a escrevê-las, me parecer que vivi horas impossíveis de suportar. Que o bom tem essa extraordinária propriedade: é insuportável delícia.

E é isto. 

domingo, 15 de setembro de 2024

Apontamento

  A vida oferece-nos uma amálgama de contradições por entre as quais vamos singrando melhor ou pior, de acordo com o temperamento e a situação, navegação quase toda de baixios,  erros e acertos à compita. Deixamos muita pele pelas esquinas, equimoses no flanco que descuidámos e  por onde caímos. Descuido ou falta de senso, chocamos com ângulos em agudo e lá vem a dor inesperada. Não se pense que emendamos para sempre, há equimoses pouco inteligentes, repetem escalavrados antigos, caminhos que prometemos a nós mesmos não palmilhar, buracos onde pensámos nunca voltar. 

    Quanto à vida em geral, perseveramos no erro, ou não fôssemos género humano. Particularizando, a questão cresce em complexidade. Temos os casos -  comuns a espécie e géneros - em que a vontade manda e o coração desmanda; ou aqueles em que as emoções e sua imediatez lavram caminho. E mais. Decidirmo-nos por uma via possível representa sempre o afunilar de possibilidades, uma determinação, e nunca saberemos se tomámos a mais certa (será melhor presumir que sim). Diria um colega das ciências exactas de quem discordo, "havia que esgotar todas as vias para sabermos qual nos serve". Mas a vida urge e não espera, e as decisões pessoais raro envolvem apenas um sujeito embora sejam da sua particular responsabilidade. Fora de serem mera reacção, as opções  requerem agilidade mental e, por parte de agente que não seja masoquista, comportam a preservação do eu. Se outros motivos não existissem, tal bastaria para nos fazer errar.  

    Contudo, aceitamos que a  errar também se aprende. Pois sim. Mas, se a origem respeita ao mais intrínseco de cada um, assenta em valores e convicções que fundamentam a acção global do sujeito e a sua conduta essencial,  não será aprendizagem fundamental. Nesse caso admitimos a repetição e, por tal motivo, voltar atrás, além de impossível seria mera inutilidade. Tudo o resto, parece-me, pode ser emendado, remendado, erradicado - ainda que possa originar novo erro; há quem afirme que se aprende a errar melhor, coisa que não sei o que seja. Aprendemos novos erros; os mesmos talvez se repitam menos vezes e podem conter tal força negativa que leve à evitação. Ou, como dizem os manuais, o erro pode ser transformado, substituído por actos de compensação positiva e que menos nos quilhem a existência pessoal e de conjunto. Nascemos inermes, mas fomos feitos para aprender, logo, também para o erro.

Creio no poder da linguagem, penso que justifica e facilita o viver comunitário e a consciência de si. Os erros ilustram a contingência e a diversidade que nos constitui; também a liberdade possível, sempre menor do que a pensámos. Suponho que as escolhas mais perniciosas sejam as que parecem abafar a voz da razão. A vontade de domínio elege-as para, deliberadamente, provocar o mal nos outros. Mau grado desembocarem na menorização humana e impedirem relações amistosas e comunitárias, essas escolhas atravessam a espécie e chegam à ignomínia que é tirar a vida e destruir o quotidiano de inocentes. Ignoro se existe resposta que controle este factor a que analistas, escritores e filósofos deram e ainda dão tamanha atenção. Sem esquecermos a religiosidade e mais suas interpretações teórico-práticas.


quinta-feira, 12 de setembro de 2024

Prosa do Tempo que Passa

       Morreu-lhe o marido e um filho com 20 anos. Mortes lentas e muito sofridas. A filha  que lhe resta tem doença rara e atrofiante que dá pelo nome de paralisia supranuclear progressiva. Não sabe já do que se passa senão em flashes de lucidez. E será isto uma sorte, benesse da vida ou de um deus que dela se apiedou.

Fez hoje  cem anos. Conhece-me de me ver por ali, sem me acertar o nome. E sempre me sorri. Contudo, lembra-se das rosas brancas do quintal e, se ajudada, vai num encanto olhá-las.  Mas raro reconhece a filha. Nunca lhe ouvi palavra acerca de marido ou filho e julga-se menina, quer voltar à sua terra, lugar onde afirma viver com pais e irmãos. A chamada da terra dá pelo nome de infância e fala muito da mãe.

Qualquer aragem, por mais leve, lhe dará o descanso que merece. Vai evaporando em delicadeza e finura e Deus a livre de um dia, por um momento que seja, ficar ciente do ser em que a sua menina se transformou e mais se irá transformando.

É um passarinho débil e delicado que desconhece o ninho. Não voa e mal se alimenta. 

Pergunto-me se é para isto que queremos ser bem velhinhos. Ou se vivemos a ilusão de que os anos nos não roubam de nós mesmos. O tempo não exige de nós. Exige-nos a nós.

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Setembro

  Chegou Setembro. Não entendo bem como, mas olhem para ele, é bebé e já mexe. E eu a comportar-me como grávida que dá à luz contrariada e olha incrédula e enojada a peça que saiu de si. Nada sente além de estranheza, não há voz do sangue, não estende braços a examinar a criatura e que importa se é ou não perfeita, que sexo tem, ou a cor do cabelo seboso: não a quer. A natureza fez um trabalho que a vontade não deseja. Vai sair como entrou (não exactamente igual): sozinha e por seu pé; havendo meios, desembaraça-se  logo ali do estorvo. Deixa-o para trás como qualquer saco que se esquece (pensa ela). Assina papéis, dá-o para adopção. E eu igual com Setembro. Podendo.

A realidade factual de Setembro  deixa-me perplexa. Que diabo andei fazendo que me retirou de Agosto, ou até do tempo, sei lá. Agosto que me trouxe bons auspícios e me achegou companhias de tanto ano; e propiciou-nos o reconhecimento como se viéssemos de ontem, na certeza de até amanhã. AMIGOS.

  Entretanto, senti que Agosto esboroava, como a grávida deve ter sentido os primeiros movimentos da criança: nada podíamos contra a natureza. Como usa dizer meu primo, no pasa nada. São apenas dois meses, um atrás do outro, assim consta no calendário.

Contudo, esmiuçando melhor, Agosto trouxe consigo uma lua ímpar que espreitei durante dias até atingir o cume de superlua, no que me suponho bem pouco original, imagino que grande parte da população do hemisfério norte assim a festejou. Faltou a abundância de dias quentes sem um agitar de asa ou roçagar de saia, e tampouco sofremos o sufoco de noites esbraseadas e quietas, a terra numa exalação transpirada, adivinhando já a torreira gemebunda de todos os seres sob a canga do sol. Não houve o toque em móveis e niquelados mornos como se um fogo lento os consuma e entre por madrugadas exaustas. Faltou o calor que cansa sem motivo, as pernas que pesam, o suor a empapar camisas, soutiens e mais lingerie que, podendo, se aligeira, pudores sem voz que os salve. E há as casas de brancura a espargir na campina, cerradas como cubos, densas e dolorosas ao olhar, herméticas. Pelos caminhos do alcatrão que derrete e se agarra aos sapatos de quem ouse, rosnam brevemente os ares condicionados de um mundo a quatro rodas. E é só. Nada do som das fontes que não há, nada de verdes vibrantes. A natureza, para sobreviver, pende e semi morre. 

Por mais que o verão se tenha feito outro de si mesmo, qualquer alentejano é grato a essas noites fora da sua natureza, seguro contributo para a ilusão do verão que não houve e, pensávamos, viria ainda. É óbvio que os dias de praia, à luz deste Setembro sem disfarce, me surgem de estreiteza tamanha. Quando o presente devém passado tudo se altera: no mundo natural como no humano. Deixa-me pena a água que tão pouco me recebeu. Saudade levei, saudade trouxe. Que no último dia lhe senti a despedida nos cambiantes: perdida a tonalidade azul-anil coloria de um meio verde escurecido. Foi Agosto (custa dar ao meu mês um pretérito). Não havia ainda o crocitar das gaivotas exigindo a retoma, asas rasando a areia, espera paciente pousada junto às dunas enfeitadas de cardos marítimos, beleza arroxeada e tão nefasta ao toque como boa para os olhos.

Quem é Setembro? Não é ainda Outono, mas já se prepara e lhe segue as pisadas. A luz enviesou, os dias encolheram e talvez as cegonhitas da beira-de-estrada estejam de partida. No último dia estavam em seu poiso, quem sabe se intuindo a despedida que eu recusava; ou, em versão mais prosaica, os dias encurtaram e, donas de casa diligentes, preparavam a cama. 

Talvez no final do mês recomece a natação. Talvez seja aceite em alguns cursos, talvez tanta coisa que inda não sei e pode acontecer. Subtraídos dois dias, Setembro é quase todo futuro, um mês de incógnitas. Vou esperá-las com calma, a idade não me permite grandes alentos e nem já estou por eles.

Bem vindo Setembro! (enquanto escrevia o texto mudei de opinião; da ex grávida não tive notícia:)).


Nota: O uso de maiúscula no mês é propositado. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Inventário de Anjos

 

Hospedámo-nos juntas por dois anos. Contudo, a vida e a ocasião dispõem e também escolhem. O mais do que fizemos foi em lugares diferentes. Mas visitávamo-nos amiúde e quase sempre com noite incluída. Ela dava-me prendas com que eu nem sonhava, como por exemplo uma máquina fotográfica. Mais tarde, passou a dar-me roupa. Fazia-me prometer que não abria o presente senão no dia de aniversário ou no Natal e que o usava nesse dia. Certa vez pôs-me a prenda na mão e disse " e agora se faz favor não vás já a correr para casa, os teus irmãos podem esperar mais um dia. Se vais para a praia, usas isto depois de tomares banho, ouviste?  (Tróia tinha balneários). É mais nova que eu, mas armava em mãezinha. Cumpri. Abri o presente depois do banho, já o sol descia no horizonte. Do pacote glorioso e tão ansiado saíram uns calções brancos e justos que me davam abaixo do joelho - usavam-se - e uma blusa azul escura só com uma manga de cava; bem que procurei a outra manga, mas não havia. Os balneários tinham um espelho a todo o comprimento da parede. Quando me olhei entrou-me funda ternura e pensei na sorte de ter assim uma amiga e ser inimaginável que nos perdêssemos uma da outra.  Tinha a certeza que ela andara a escolher o mais original que encontrasse e me assentasse bem.

De alunas da mesma turma no ensino nocturno a amigas foi um pulinho, mas o tempo e a vida são móveis e trazem no ventre a mudança. Conhecemos outra gente, fizemos outras amizades, tivemos novos amores -  deixámos de ser corda e caldeiro. Mas tenho nela a mesma confiança. Continua leal e desabrida. É batalhadora e, não havendo batalha, inventa-a. Seguimos a mesma profissão, mas a sua determinação batia-me aos pontos se eu fosse competitiva e comparasse o que não é comparável. Apesar de se auto denominar alentejana por adopção, é uma mulher do norte integral como sou uma mulher do sul por inteiro. Continua divertida e com ideias que são só dela e não lembram a mais ninguém. Lê livros sempre a maquinar sobre o que subjaz; por norma, vemos neles coisas diferentes; ela desconstrói o romance e constrói o romance do romancista, procura nele razões pessoais que o tenham levado à escrita disto ou daquilo, a criar esta ou aquela personagem e  procura documentar as suas teorias, espiolhando o que pode sobre; o romancista não sabe, mas, se a conhecesse, chegaria à conclusão de que lhe dava tanto trabalho desconvencê-la como escrever novo romance. Eu sou apenas leitora, a vida do romancista, os motivos de tema e personagens não me interessam, gosto apenas da história. Foi ela que me apresentou a Lobo Antunes, Agustina (sua escritora preferida) e a autores estrangeiros como Camus, Hemingway e outros que não lembro - comprava livros que eu lia depois.. Continuamos a conversar sobre livros e aconselhamo-nos mutuamente. Fez de mim uma amante de cinema, vimos juntas O caçador e Era uma vez na América. Na verdade vimos juntas muito filme, mas gostei especialmente destes e recordo-nos saltando as poças de água nas ruas de Lisboa no pós filme tentando arejar o coração apertado, o nosso amigo R, seu quase irmão e bem mais novo que nós, desanuviando o ambiente como só ele sabia e inda sabe. 

No princípio da nossa amizade, quando uma à outra nos desvendámos, um dia perguntou, quando vais a casa? Dei-lhe a data e retorquiu, vou despedir-me de ti à rodoviária. E lá estava com um grande ramo de cravos, toma, são para a tua mãe. Deu-mo sem delongas e foi embora. E eu segui viagem a pensar no seu gesto. Penso muitas vezes nesse gesto e pergunto-me se seria capaz de algo semelhante.

No meu último aniversário vestiu cetim, pintou-se, aprimorou. E eu metida num percal qualquer e sem um nico de pintura, cabelo em desalinho. Sentou-se à minha direita, uma senhora fina, bonita e competente. Borbulha nela um ar de competência que pode até assustar quem a não conheça. A mim, comovida e imersa, nem me ocorre o que conversámos. 

Esta amiga é um dos meus anjos mais terrenos.

terça-feira, 27 de agosto de 2024

Inventário de Anjos

 

    Há datas assim, caem-nos em cima feitas marcos quilométricos. Jamais eu notaria marcos dessa natureza ao longo das estradas. Mas estão lá. A despeito da minha ignorância, só desperta ano passado  quando uma amiga, que avalio tão zonza quanto eu, puxou do telemóvel e me comunicou que, em vez de estar a chegar à praia, caminhava numa estrada, não via o mar, e parara no quilómetro não sei quantos (ela sabia o número exacto). E eu mais tonta que ela, isso é o quê?! Ela cansadíssima, bolas pra ti e pra mim, olha não sei onde estou, mas fico aqui junto ao marco, acho que me vou sentar. Eu, espera aí que vou buscar o carro e apanho-te onde estejas. E o resto da história não interessa, mas os ditos marcos ficaram-me. 

Esta converseta sobre marcos vinha a propósito de outra amiga que me ligou no último aniversário e parabéns e tal. E respondi o que se deve; tal como afirmou um querido aluno na aula de apresentação e carregando muito no erre por defeito de linguagem, "eu sou rude, sou do campo". Digo eu que ambos sabemos agradecer apesar de campónios.  E vai daí, ao convencional do telefonema juntei, "nós duas fazemos este ano 50 anos de amizade". E ela acordada para a longevidade, "ah, pois, é verdade; temos de comemorar". Eu pensava nos outroras em que vivíamos como corda e caldeiro. Porém, Agosto é mês de férias e não passávamos juntas a minha data festiva. A bem da verdade, as comemorações pessoais nasceram quando os filhos deram um basta enérgico e mesmo contundente nas suas. E quais parabéns, e quais pais e família e bolos e palmas e eteceteras. Tinham crescido.

Essa amiga que desde o início me pareceu garota modernaça e decidida, comungou apertos e ignorâncias juvenis; obrigou-me a fazer um enxoval, ajuizando ser pertença de todas as raparigas;  enxugou-me lágrimas amargas; fazíamos os tpc juntas e ajudou-me nas férias com os meus irmãos de quem se fez amiga. Em tempo de aulas saíamos à meia noite de um comboio que nos deixava na gare deserta, um quilómetro a palmilhar sem temor em vila iluminada e solitária, facto que me fazia dizer-lhe amiúde, "ainda não percebi a recomendação da tua mãe, "ai filhas não se encostem às paredes, andem pelo meio da rua". Nunca soube se não respondia à questão por concordância comigo que achava muito mais perigo em andar no meio da estrada, se os subentendidos da mãe lhe eram claros. Seguíamos rindo e conversando de tudo e nada, como se no dia seguinte não nos levantássemos cedinho porque o trabalho. Quando em minha casa, participava activamente nas limpezas, toda ela alegria despachada e convicta, eu gosto mesmo é de limpar casas sujas e de "aventar" o lixo. E ria-se do novo sentido do termo.  Nas férias escrevia-me cartas em círculo e chamava-lhes circulares, eu a dar a volta à circular porque a escrita combinava com a forma da carta. As circulares que me enviava eram ordens para uma saída nem que fosse só até sua casa, ou avisos do dia em que chegava. E selava as ditas, devidamente assinadas por ela e um secretário, com impressões labiais fixadas por batom vermelho vivo que ambas compráramos em Badajoz, sendo verdade que o meu mano caçula deve ter espreitado a mesa de cabeceira, rodado o batom sem o destapar e fui dar com ele debaixo da minha cama, todo esbarrondado e sem proveito, os tacos do quarto em vermelhidão aflita, ai, não me digam que isto é sangue, querem ver que estou doente e não sei.  Sou bem capaz de ter dado um enxota-moscas no mano mais novo pelo silêncio acerca de; aquele batom era para nada, ficava-me pessimamente e não me atrevia a sair com ele posto.  A amiga ficava linda: amarrava um lenço (usavam-se), deixava uns caracolinhos castanhos a assomar nas laterais ou cobria-os no completo de si, branca de pele e olhos verdes, o vermelho da boca ia-lhe tão bem como a mim o inverso. Tivemos sacos de praia parecidos (que ela inventava e costurava); lenços de cabeça iguais e que bisavam o cair do batom; chapéus à beto(a) e  de que não recordo o nome, mas eram brancos e pareciam chapéus de bebé; boinas bascas que só a ela ficavam bem, mas eu usava na mesma por me emprestar certo ar revolucionário; casacos de carneira e botas caneleiras (aí eu tomava algum jeito). Um mundo de coisas pequenas e baratas - exceptuem-se os casacos de carneira - de que ela se lembrava e eu alinhava contente.

(cont.)


sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Lampejos

             A vida é como os alcatruzes da nora, umas vezes em baixo outras em cima. Isto diziam os antigos no tempo em que havia noras. As noras, como expliquei a muita criança que as não conheceu, eram uma roda gigante e metálica com caldeiros pendurados. Este artefacto montava-se sobre um poço por forma a haver sempre alguns caldeiros imersos. A roda girava através de roldanas  por esforço de burro, cavalo, macho ou égua, almas do sistema já que o faziam mover. Os pobres bichos rodavam em volta do poço de olhos vendados para julgarem que iam em frente - os animais não são destituídos de inteligência. Horas cansadas as que gastavam ligados à nora, baldes abaixo e acima, sob as patas um círculo calcado e remoído de sulcos, a nitidez das ferraduras a falarem do caminho  redondo, umas apagando as outras em cada volta, aqui e ali a anarquia de desafogo intestino que pisavam e fedia. Alguns garotos, se o hortelão regava lá pelos fundos, afoitavam-se quinta fora e, aproveitando os olhos vendados, judiavam do animal. Se a marcha abrandava, logo o malvado hortelão se aproximava e lhe zurzia o lombo, "Arre burro! Em frente burro de um cabrão" (isto sendo o burro, claro; que a conversa não diferia se o animal fora outro). Acudia - até aos catraios mais judeus -  uma piedade dolorida de assim batidos andarem os animais ao engano, eternos na esperança de  chegar, talvez sonhando-se livres do jugo que os fazia presos e sofridos. Nos intervalos das voltas - enquanto o animal pisava do outro lado do poço -, os garotos,  em bicos de pés, espreitavam a água cada vez mais funda e os caldeiros em eterno vaivém, perdendo líquido que a fundura recebia em eco sinistro, alguns mergulhados na escuridão da água. Havia um sobe e desce de caldeiros que enchiam de água no poço  e, chegados ao cimo, um a um a despejavam numa calha, passagem afeita a frescura ímpar que formigava desejos sôfregos na garotada. A calha era caminho para o tanque de rega onde a água caía em sussurro contínuo. À superfície do tanque que lhes surgia enorme, libelinhas coloridas ziguezagueavam contentes, cada um perfilhando uma por via da cor. Na parte baixa do tanque, retirada a comporta (rolha de cortiça),  a água corria por forma a regar leguminosas e árvores de fruta. Deve ter nascido deste sistema de rega a complexidade escolar de problemas com tanques que em simultâneo recebiam e perdiam água. Que culpa poderia ter a água, assim límpida e fresca, caindo de manso no tanque onde uma ou outra garota ousava uns dedos e depois a mão inteira. O inventor de tal aritmética, raro entendida por crianças, por certo desconhecia passos líquidos em regueiras de terra simples, os garotos invejando a frescura e o vagar com que a água deslizava, pés num desatino sedento. Mas o hortelão. O vigilante carrancudo, um diabo adivinho que vinha pomar fora, o cabo da enxada virado a eles, "o primeiro a pôr um pé na regueira atiro-lhe a enxada acima". E atirava a enxada que batia na terra a meio caminho, um baque surdo que entendiam por "desculpem lá o mau jeito, pirem-se antes que seja tarde". Quando o homem ia por ela, acentuava a carranca e,  olhos vândalos de peçonha, vociferava, "ponham-se daqui para fora seus bardamerdas, só sabem roubar e dar cabo de tudo".

Não precisava tanto. À vista da enxada no ar, os garotos debandavam à força toda, receando o golpe e mais a sova em casa por invadirem lugar que lhes não competia. Só paravam na estrema do território. Aí, arfando, esperavam os que, com a pressa ou por serem mais pequenos, se tinham enrolado nas pernas e caído. E combinavam fazendo-se valentes, "contamos até vinte; se não vierem, vamos ver se o mama-na-burra os aleijou". E iam contando devagar não fosse dar-se o caso de terem de voltar a terra estrangeira. Mas logo os restantes apareciam esbaforidos e amedrontados, as gaiatas umas para as outras " apalpa lá o meu coração, bate com tanta força". E o minorca desligando-se da irmã, a fazer-se notado, "corri tanto que até batia com os calcanhares no cu" e acrescentava em meia afirmativa, "não fui o último, pois não?"  E os primeiros a mirá-los, um trejeito depreciativo a torcer-lhes a boca, armados de forças que não tinham, "cagarolas". Sentavam-se no chão encostados ao muro, protegendo-se na magra tira de sombra, pés de pó, o suor escorrendo em fitas de sujidade, cabisbaixos do proibido, raivando contra o hortelão. Foi aí que o Justino cuspiu de chofre, "d'hoje pá frente o mama-na-burra fica lobisomem". 

E por ali se quedaram rindo alto e inventando vidas de lobisomem. Contudo, por dentro,  roía-os o sonho nunca enunciado de um impossível banho no tanque de rega, a imaginação de brincadeiras dentro da água a que nunca chegariam. Anos mais tarde, compensaram o tanque proibido com idas à ribeira desleal que matou dois deles sem autorização. A ribeira era um nunca mais de água e só alguns - muito poucos - viram o mar e nele molharam os pés, calça arregaçada, homens já de sua casa, a puxarem de filhos temerosos, "anda, um dia cresces e vens banhar aqui". Que é deles, esses que me habitam sujos e felizes, infância gregária encostada no muro branco da Quinta Grande.