A vida é como os alcatruzes da nora, umas vezes em baixo outras em cima. Isto diziam os antigos no tempo em que havia noras. As noras, como expliquei a muita criança que as não conheceu, eram uma roda gigante e metálica com caldeiros pendurados. Este artefacto montava-se sobre um poço por forma a haver sempre alguns caldeiros imersos. A roda girava através de roldanas por esforço de burro, cavalo, macho ou égua, almas do sistema já que o faziam mover. Os pobres bichos rodavam em volta do poço de olhos vendados para julgarem que iam em frente - os animais não são destituídos de inteligência. Horas cansadas as que gastavam ligados à nora, baldes abaixo e acima, sob as patas um círculo calcado e remoído de sulcos, a nitidez das ferraduras a falarem do caminho redondo, umas apagando as outras em cada volta, aqui e ali a anarquia de desafogo intestino que pisavam e fedia. Alguns garotos, se o hortelão regava lá pelos fundos, afoitavam-se quinta fora e, aproveitando os olhos vendados, judiavam do animal. Se a marcha abrandava, logo o malvado hortelão se aproximava e lhe zurzia o lombo, "Arre burro! Em frente burro de um cabrão" (isto sendo o burro, claro; que a conversa não diferia se o animal fora outro). Acudia - até aos catraios mais judeus - uma piedade dolorida de assim batidos andarem os animais ao engano, eternos na esperança de chegar, talvez sonhando-se livres do jugo que os fazia presos e sofridos. Nos intervalos das voltas - enquanto o animal pisava do outro lado do poço -, os garotos, em bicos de pés, espreitavam a água cada vez mais funda e os caldeiros em eterno vaivém, perdendo líquido que a fundura recebia em eco sinistro, alguns mergulhados na escuridão da água. Havia um sobe e desce de caldeiros que enchiam de água no poço e, chegados ao cimo, um a um a despejavam numa calha, passagem afeita a frescura ímpar que formigava desejos sôfregos na garotada. A calha era caminho para o tanque de rega onde a água caía em sussurro contínuo. À superfície do tanque que lhes surgia enorme, libelinhas coloridas ziguezagueavam contentes, cada um perfilhando uma por via da cor. Na parte baixa do tanque, retirada a comporta (rolha de cortiça), a água corria por forma a regar leguminosas e árvores de fruta. Deve ter nascido deste sistema de rega a complexidade escolar de problemas com tanques que em simultâneo recebiam e perdiam água. Que culpa poderia ter a água, assim límpida e fresca, caindo de manso no tanque onde uma ou outra garota ousava uns dedos e depois a mão inteira. O inventor de tal aritmética, raro entendida por crianças, por certo desconhecia passos líquidos em regueiras de terra simples, os garotos invejando a frescura e o vagar com que a água deslizava, pés num desatino sedento. Mas o hortelão. O vigilante carrancudo, um diabo adivinho que vinha pomar fora, o cabo da enxada virado a eles, "o primeiro a pôr um pé na regueira atiro-lhe a enxada acima". E atirava a enxada que batia na terra a meio caminho, um baque surdo que entendiam por "desculpem lá o mau jeito, pirem-se antes que seja tarde". Quando o homem ia por ela, acentuava a carranca e, olhos vândalos de peçonha, vociferava, "ponham-se daqui para fora seus bardamerdas, só sabem roubar e dar cabo de tudo".
Não precisava tanto. À vista da enxada no ar, os garotos debandavam à força toda, receando o golpe e mais a sova em casa por invadirem lugar que lhes não competia. Só paravam na estrema do território. Aí, arfando, esperavam os que, com a pressa ou por serem mais pequenos, se tinham enrolado nas pernas e caído. E combinavam fazendo-se valentes, "contamos até vinte; se não vierem, vamos ver se o mama-na-burra os aleijou". E iam contando devagar não fosse dar-se o caso de terem de voltar a terra estrangeira. Mas logo os restantes apareciam esbaforidos e amedrontados, as gaiatas umas para as outras " apalpa lá o meu coração, bate com tanta força". E o minorca desligando-se da irmã, a fazer-se notado, "corri tanto que até batia com os calcanhares no cu" e acrescentava em meia afirmativa, "não fui o último, pois não?" E os primeiros a mirá-los, um trejeito depreciativo a torcer-lhes a boca, armados de forças que não tinham, "cagarolas". Sentavam-se no chão encostados ao muro, protegendo-se na magra tira de sombra, pés de pó, o suor escorrendo em fitas de sujidade, cabisbaixos do proibido, raivando contra o hortelão. Foi aí que o Justino cuspiu de chofre, "d'hoje pá frente o mama-na-burra fica lobisomem".
E por ali se quedaram rindo alto e inventando vidas de lobisomem. Contudo, por dentro, roía-os o sonho nunca enunciado de um impossível banho no tanque de rega, a imaginação de brincadeiras dentro da água a que nunca chegariam. Anos mais tarde, compensaram o tanque proibido com idas à ribeira desleal que matou dois deles sem autorização. A ribeira era um nunca mais de água e só alguns - muito poucos - viram o mar e nele molharam os pés, calça arregaçada, homens já de sua casa, a puxarem de filhos temerosos, "anda, um dia cresces e vens banhar aqui". Que é deles, esses que me habitam sujos e felizes, infância gregária encostada no muro branco da Quinta Grande.