Mau
grado a possível propaganda, julgo que o El Corte Inglês e a Gulbenkian são das
poucas entidades que propõem cursos e conferências de qualidade, pro bono (é
possível que existam outras). A Gulbenkian já nem tanto: acabou com algumas tarifas
reduzidas e cortou com entrada livre para professores, nos seus museus; terminou
com o ballet; espero que não lhes dê para cessarem o coro; maestro residente,
julgo eu, já não existe. E agora patrocina cursos on-line pagos e não muito
baratos. Está a tornar-se outra; aos
poucos, vai mudando de pele. Parece que os cientistas dão mais rendimento e
fazem melhor ao mundo, as fichas estão todas – ou quase – na ciência. Ora nem
tudo tem de ser rentável na organização que Gulbenkian patrocina ainda, depois
de tanto ano de morto e a quem sou imensamente grata, decerto bem mais que
muito lisboeta, passe a vaidade no vínculo. O jardim da Gulbenkian, que não
cesso de agradecer à estética de Gonçalo Ribeiro Teles, é beleza que me espanta
e apazigua em cada vez que o reconheço; a vida, vista daquela clorofílica
verdura, parece mais suportável, quiçá, bonita. Aquele jardim anda comigo sempre.
A memória o guarda, secreto e único por detrás da orquestra. Um pássaro
atravessa o espaço buscando morada; no lago, os patos deslizam em seus
patins de membrana interdigital, por vezes, uma linha de filhotes atrás. E as
árvores. As árvores que captam os sons na vibração das raízes e dobram ramos
reverentes para a parede vidrada onde os que lhes dão as costas produzem
desmedidas sinfonias. Ali estamos juntos, cada um sozinho com a música, num
disfrute que só por não sermos árvores se não dobra, ou ajoelha. É de respeito
e admiração silenciosos que se trata, um pigarro ou outro pela sala soam a
inoportuna presença.
E eis que, depois deste introito adiposo, me lembro que vinha falar de António-Pedro Vasconcelos. Esparveci com esta
morte, toda eu petrificada frente à TV. Segundo o realizador - e também outras
coisas, entre elas professor -, no Corte Inglês, deu quatro Cursos sobre Cinema.
Assisti ao último, fará agora um ano. Puro acaso, inscrevo-me em vários, mas
não me cabe a selecção; por vezes, frequento um; António Pedro calhou-me. O
título era inspirador, “A história do Cinema em dez sessões e meia”. Que foram
treze, duas delas não pagas, o Corte Inglês apenas cedeu o espaço. Para além
das sessões, a que se seguiu um jantar proposto pelo professor e a que não
compareci por inadiáveis motivos de saúde, não saltei uma sessão. António-Pedro
era exímio contador de histórias. Aliava tal capacidade ao seu vastíssimo
conhecimento sobre cinema e à peculiaridade de nos deslumbrar com pedaços de
filmes já vistos ou a ver. Mas nunca referiu ou mostrou um filme seu, jamais
expôs as proezas de realizador, qualidade que, a meus olhos, mais o enaltece e foi
decisiva no meu bem-querer. Além do mais, na qualidade de professor, não tenho
uma vírgula a apontar: trouxe sempre as folhas de apontamentos relativas a cada
sessão e, no final, distribuiu a lista de filmes que ele considerava necessário
ver. Guardei tudo. Posso não lembrar muito bem onde está, mas sei que está.
Claro que, aliadas a estas qualidades, há a sua simpatia pessoal, a forma
como punha e tirava o chapéu, o saber sobre grandes planos e de como usar a
máquina de filmar para isto e aquilo. Não erro se disser que não
houve alma a quem o curso desagradasse. O certo é que foi raro
assistir, na minha já longa vida, a alguém tão empolgado com o assunto que
expõe. A discorrer sobre cinema, António-Pedro era um adolescente apaixonado.
No final de cada sessão tinha uma caterva de gente a rodeá-lo e onde não
me incluo; no meio de tanto fã sou incapaz de dizer uma palavra de jeito e
sinto-me em extremo desconfortável.
Portanto, saía muda e entrava calada. António-Pedro parecia sempre contente por
ser abordado, o que me lembrava um pouco a imagem que me deixou David Mourão
Ferreira e mais seu cachimbo no átrio da faculdade, ambos satisfeitos da posição
central, David discorrendo no meio de uma pequena multidão. A diferença entre eles
era uma, à volta de António-Pedro havia uma mescla de pessoas; a David Mourão
Ferreira só vi rodeado de mulheres jovens, decerto alunas. E é isto.
Poderia terminar por aqui. Mas acontece
que o acaso também conta.
(cont.)