quarta-feira, 6 de março de 2024

A Morte de um Imortal

 

Mau grado a possível propaganda, julgo que o El Corte Inglês e a Gulbenkian são das poucas entidades que propõem cursos e conferências de qualidade, pro bono (é possível que existam outras). A Gulbenkian já nem tanto: acabou com algumas tarifas reduzidas e cortou com entrada livre para professores, nos seus museus; terminou com o ballet; espero que não lhes dê para cessarem o coro; maestro residente, julgo eu, já não existe. E agora patrocina cursos on-line pagos e não muito baratos. Está a  tornar-se outra; aos poucos, vai mudando de pele. Parece que os cientistas dão mais rendimento e fazem melhor ao mundo, as fichas estão todas – ou quase – na ciência. Ora nem tudo tem de ser rentável na organização que Gulbenkian patrocina ainda, depois de tanto ano de morto e a quem sou imensamente grata, decerto bem mais que muito lisboeta, passe a vaidade no vínculo. O jardim da Gulbenkian, que não cesso de agradecer à estética de Gonçalo Ribeiro Teles, é beleza que me espanta e apazigua em cada vez que o reconheço; a vida, vista daquela clorofílica verdura, parece mais suportável, quiçá, bonita. Aquele jardim anda comigo sempre. A memória o guarda, secreto e único por detrás da orquestra. Um pássaro atravessa o espaço buscando morada; no lago, os patos deslizam em seus patins de membrana interdigital, por vezes, uma linha de filhotes atrás. E as árvores. As árvores que captam os sons na vibração das raízes e dobram ramos reverentes para a parede vidrada onde os que lhes dão as costas produzem desmedidas sinfonias. Ali estamos juntos, cada um sozinho com a música, num disfrute que só por não sermos árvores se não dobra, ou ajoelha. É de respeito e admiração silenciosos que se trata, um pigarro ou outro pela sala soam a inoportuna presença.

         E eis que, depois deste introito adiposo, me lembro que vinha falar de António-Pedro Vasconcelos. Esparveci com esta morte, toda eu petrificada frente à TV. Segundo o realizador - e também outras coisas, entre elas professor -, no Corte Inglês, deu quatro Cursos sobre Cinema. Assisti ao último, fará agora um ano. Puro acaso, inscrevo-me em vários, mas não me cabe a selecção; por vezes, frequento um; António Pedro calhou-me. O título era inspirador, “A história do Cinema em dez sessões e meia”. Que foram treze, duas delas não pagas, o Corte Inglês apenas cedeu o espaço. Para além das sessões, a que se seguiu um jantar proposto pelo professor e a que não compareci por inadiáveis motivos de saúde, não saltei uma sessão. António-Pedro era exímio contador de histórias. Aliava tal capacidade ao seu vastíssimo conhecimento sobre cinema e à peculiaridade de nos deslumbrar com pedaços de filmes já vistos ou a ver. Mas nunca referiu ou mostrou um filme seu, jamais expôs as proezas de realizador, qualidade que, a meus olhos, mais o enaltece e foi decisiva no meu bem-querer. Além do mais, na qualidade de professor, não tenho uma vírgula a apontar: trouxe sempre as folhas de apontamentos relativas a cada sessão e, no final, distribuiu a lista de filmes que ele considerava necessário ver. Guardei tudo. Posso não lembrar muito bem onde está, mas sei que está. Claro que, aliadas a estas qualidades, há a sua simpatia pessoal, a forma como punha e tirava o chapéu, o saber sobre grandes planos e de como usar a máquina de filmar para isto e aquilo. Não erro se disser que não houve alma a quem o curso desagradasse. O certo é que foi raro assistir, na minha já longa vida, a alguém tão empolgado com o assunto que expõe. A discorrer sobre cinema, António-Pedro era um adolescente apaixonado. No final de cada sessão tinha uma caterva de gente a rodeá-lo e onde não me incluo; no meio de tanto fã sou incapaz de dizer uma palavra de jeito e sinto-me  em extremo desconfortável. Portanto, saía muda e entrava calada. António-Pedro parecia sempre contente por ser abordado, o que me lembrava um pouco a imagem que me deixou David Mourão Ferreira e mais seu cachimbo no átrio da faculdade, ambos satisfeitos da posição central, David discorrendo no meio de uma pequena multidão. A diferença entre eles era uma, à volta de António-Pedro havia uma mescla de pessoas; a David Mourão Ferreira só vi rodeado de mulheres jovens, decerto alunas. E é isto.

         Poderia terminar por aqui. Mas acontece que o acaso também conta.

(cont.)

segunda-feira, 4 de março de 2024

Invariâncias do Acaso

 

Vita foi mulher de muitos amores, homo e hetero. Suponho que por temperamento e condição fidalga, além de pertença a um grupo social e intelectual onde era bem aceite. Segundo mentes moralizantes, cedia aos desvarios da carne. Ou antes seria modo de ser, traço de personalidade. Consta que Harold, o marido, também preferia homens e que o casamento de ambos era uma relação aberta e onde o divórcio não cabia, quem sabe se pela dificuldade que a possível separação traria aos dois: no estado de casados, cada um se sabia mais livre. Do que se entende nas cartas - de Vita para Harold – a relação entre ambos ancorava na estima mútua. Porém, nessas mesmas, o caso Vita-Virgínia aparece como um misto de curiosidade e admiração por um ser frágil e doce, quase ingénuo, que Vita garante ser diferente do que Harold julga. E agita a bandeira, “é coisa platónica”. Porém, as cartas que dirige a Virgínia desmentem essa ideia hipoteticamente inicial e que o leitor pode subentender e admitir apenas como limiar, Vita não coaduna com a dama convertida ao platonismo; ou terá função de subterfúgio apaziguador.  

O caso de Virgínia é diverso. Parece não ter consumado o casamento com Leonard (há quem tenha apresentado como motivo o abuso familiar em criança). Mister Woolf foi  companheiro de alma e literatura, conhecia-a como ninguém e tinha por ela a ternura comovente que o faz empático ao leitor. Cuidou da sua flor o melhor que soube. Tratou-a amorosamente na doença e na vida - passeava-a pelos campos, trabalhavam juntos na editora, viajavam juntos. Imagino que Virgínia lhe dava a ler ensaios e romances. Mister Woolf foi o companheiro presente.

Pergunto-me se haveria outro caminho para Virgínia.  Lendo a carta de despedida que endereçou a Leonard, as possibilidades parecem esgotadas.  E Virgínia termina, “não creio que duas pessoas pudessem ser mais felizes que nós”. É uma despedida ponteada a luz, embora a autora afirme a dificuldade em conseguir ler, empecilho do aprumo na escrita (como se enferme de algum erro!). Será verdadeira a afirmação acerca da felicidade conjugal,  ou obedece à estima amorosa, sempre revelada a Leonard, e ao desejo profundo de o libertar de possível remorso?! Como se um afogamento voluntário não provocasse a natural mexida da água.

(cont.)

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Invariâncias do Acaso

 

Estão mortas. Ambas escritoras e inglesas. Amaram-se na primeira metade do séc XX. Dez anos mais velha, Virgínia foi a primeira a desaparecer e, na altura em que foram apresentadas e não foram simpáticas uma à outra, Vita era mais conhecida. Lidas as cartas, ficamos sabendo mais sobre a personalidade das duas, embora só uma interesse realmente. Nas missivas, a prosa de ambas é arrebatada e terna, culta e de extraordinária beleza.  Acontece nos livros o que acontece na vida, o amador e o ser amado vivem da relação. As cartas são a história de um amor desde o princípio de simpatia mútua e possível atracção posteriores aos primeiros contactos, até à paixão amorosa com tudo o que a faz ganhar peso; mas Virgínia usa de palpável leveza e contenção. À fase da paixão seguiu-se uma provável amizade que as juntou esporadicamente e de que não existirão cartas. Vita terá continuado a borboletear vida fora. De Virgínia pouco sei sob tal aspecto. Mas em tudo o sentimento amoroso me pareceu muito igual a qualquer outro: ali estão a constância no desejo do outro; as pequenas ternuras; a procura da intimidade não apenas física, há muitos encontros a sós para almoçar, jantar, lanchar, e não apenas na casa de uma ou de outra; a integridade peremptória de Virgínia que desde o início rejeitou presentes da amante rica e de berço fidalgo, a par da sua fidelidade ao trabalho na editora como fonte de rendimento. Porém, o certo é que Vita escreveu o que hoje se chamariam best sellers e que a Hogarth Press passou a ser a sua editora. As vendas permitiram aos editores a compra de um carro e outros artefactos que decerto aliviaram as contas de Virgínia e lhe aligeiraram a vida.

Imagino que Vita foi mais em/para Virgínia que o inverso. Mas que sabemos nós do que vai no coração dos outros. Talvez Vita encontrasse em Virgínia uma espécie de pérola rara ainda fechada em sua concha. Existiram. Houve um tempo que foi delas. Isso sabemos.

         O que a gente gosta nos outros, santo Deus. Virgínia tinha fascínio pelas pernas de Vita, suspendia-se-lhe o pensamento (imagino) na sua vitalidade, colunas de alabastro de onde o tronco emergia. Ambas lésbicas. Ambas casadas. Mas o amor é sempre o mesmo, a homossexualidade só no acto físico se faz diversa. 

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Invariâncias do Acaso

 

Em minha casa desagua tudo que os filhos não querem, não precisam, desgostam ou a que não vêem utilidade. A mãe guarda. A mãe não atira fora. Quando a mãe desapareça vão decerto maldizê-la pela tralha que guardou. As fotos de/com antigas namoradas de que a mãe continua a gostar, mas os filhos desgostaram; as poucas cartas que existem e me estenderam desprendidos: "atira fora" -  cartas com letrinha escolar e que os sms substituíram inflados de novidade e superficial leveza, isentando o arquivo. Nas cartas - folhas A4 pautadas ainda com sinais de dossiê de argolas -, estão as mágoas, o ciúme adolescente, os pedidos de desculpa e o "môr" repetidíssimo. E é isto, faz parte da função parental.

Há uns meses ficou a criar lastro uma caixa de livros.  Olhando-os por alto, assim como quem não quer nada, vi "Cartas de Amor, Virgínia Woolf e Vita Sackville-West".  Retirei-o para leitura pressurosa.

 Aprecio a escrita de Virgínia, o seu Diário não desmente a raridade da escritora. E gosto da pessoa - com ou sem Vita. Fiquei sabendo pelas cartas que Orlando é Vita chapadíssima. Chapadíssima, não; antes animada pelo amor de Virgínia. Não diria que foi um amor casto, mas Virgínia é recatada até na paixão; e não é necessário chegar a meio do livro para sabermos que Vita é explosiva e livre no verbo enquanto Virgínia é deliciosamente frágil e sucinta. Mas aprendemos também que o "queridíssima criatura" tem nela uma fundura de sentimento que sobrepõe a verve torrencial de Vita.    Além do mais, constitui factor de sedução ler uma mulher que viveu e criou obra tão à frente da época. Nem por isso bonita mulher. Mas, entre outros factores apelativos, saliento o facto de sempre ter trabalhado; e, por fidelidade a si mesma e às suas convicções, nos livros e outros escritos, deu voz a minorias e também à que, sendo adiposa maioria, era -  ainda é - tratada pela lei e pelo costume dos homens como qualquer minoria: a das mulheres. 

Virgínia escrevia apesar da constância na dor de cabeça e da tenacidade da loucura, talvez duas metades do mesmo problema. O tempo gasto a escrever era gosto a consumi-la, aproximava a doença. De resto, admiro também Mister Woolf, Leonard, companheiro de vida que a entendia como ninguém e com quem Virgínia partilhou o trabalho de edição na editora comum, a Hogarth Press. Comovem-me as tarefas normais na editora a que se dedicavam sem falhas e com prazos a cumprir, os passeios que davam pelos campos, Leonard a tentar distraí-la de si mesma como quem espanta corvos; a justeza das contas no dia a dia e que Virgínia controlava. Virgínia é em mim personagem de romance, só que existiu realmente, tinha um corpo, desejos, saturação disto e daquilo, amores, grandes desalentos e tristezas, a doença mental sempre entrevista e causa do suicídio. Sentindo o aproximar de nova crise e conhecendo que lhe seria fatal em termos de sofrimento e perda de lucidez, Virgínia decidiu parar de sofrer. Esta pessoa, não é a Virgínia Woolf  do meu imaginário. Mas também é. Afinal, mesmo lendo diários e cartas e romances, o que sabemos nós dos outros senão que existem? Quase tudo o resto é imaginário, nós mesmos, sempre nós mesmos.

(cont.)

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

Raio de Sol

  "A vida é o que nos acontece quando não esperamos que aconteça". Não sei se li a frase, se é apenas a ideia com que fiquei de expressão bem mais bonita e completa que este remendo da memória. Pode pertencer a livro, filme ou série. Ou a página de revista onde os meus olhos atraíram. A vida surge-me como um todo, não se restringe ao inesperado. Mas existem inesperados que importam, são os cotovelos da vida, mudam-lhe o sentido e dão-lhe dimensão. Há os que oferecem caminho plano, cheiroso, de amplas sombras; e os que não têm caminho, por vezes inóspitos, ferindo o bandeirante que ousa atravessar. Para certos desconcertos temos armas naturais e puxamos delas no emaranhado de ramos ou pedras. Mas quem se sinta desarmado deixa para trás pedaços de tecido, é vergastado por ramos que desprendem, os espinhos fazem-no sangrar. E tanta vez não consegue abrir vereda onde outros passem com menos dano. Nunca fui a África, mas julgo que passamos grande parte da vida à catanada, a vencer resistências próprias e de outrém, no intuito de nos cumprirmos como seres gregários. Contudo, solitários. E tão paradoxais.
Abundam cotovelos para que não existem armas. Lutar com eles é sempre aceitar perder alguns pedaços. Amorfizei num, rasteiro balão que perdeu o hélio. Na minha frente, por entre espinhos e troncos que o dilaceram, o meu terno bandeirante trauteia baixo uma canção. E entendo a cobardia de não ser companhia nos cotovelos que o esperam.
É previsível a existência de períodos em que desapareço da escrita. Mas espero sempre reincidir:)
Bem hajam

 

domingo, 21 de janeiro de 2024

Olívia

 

Corremos por dentro do tempo e rápido nos chega o fim. Talvez já nem existas. Não sei mesmo se a morte te aconteceu. Não uma morte comum, das que se apresentam como portas fechadas a impelir-nos ao caminho. Falo da tua morte física. Sempre me pareceste desvivida e sem ousadia. Hoje hesito grandemente no particípio. Exerci a força de que fui capaz para te despertar do que eu supunha  letargia, queria mover-te. Fora de igrejas e catequeses; fora de primas benquistas e vorazes; fora de um sistema que te prometia nada e tu abraçaste ou te abraçou. Ou ambos. Talvez eu tenha, finalmente, crescido. Ou envelhecido. Nunca eu te pensei como se fosse tu. Nunca. Usei a conhecida bengala: não se pode ser o outro porque o outro é um outro eu - afirmação que tem tanto de semelhança como de diferença; uma desculpa para não me pôr no teu lugar. Se tal acontecera, logo saberia que não poderias ser diferente.  Foste ou ainda és feita de mil pedaços incógnitos; estás, talvez, nos meus antípodas. Que parvoíce a minha pretender a mudança vendo-te uma vez por ano. Que loucura ter olvidado que não se foge a quem se é. As minhas sugestões eram como água escorrendo entre os teus dedos. Um dia alguém me disse, “ fica a frescura”. Mas nem sei se houve frescura, não sei se desejavas que voltasse; se não fui, em cada encontro, o empecilho que rodeaste como sabias; se, ao partir, não deixava em ti um alívio. É verdade que nunca me convidaste e chegaste a recusar dias em que me propunha visitar-te. Motivos tão fúteis! Mas olha, mesmo assim não cheguei lá.  Tu não querias ver-me, era eu a intrometida, sempre eu a convidar-me e a mostrar um mundo bonito, sem queixas e pesares, onde as pequenas novidades tinham lugar. Um mundo que ignoravas e talvez acreditasses, quem sabe se não fazias como as crianças nas histórias:  intuem que é um mundo a fingir, mas afligem-se na mesma, choram ou riem consoante o assunto.

E é como te digo, envelheci:  ver o passado com os olhos de hoje dá-nos nova dimensão. Não me parece que seja sabedoria.  Raro respondeste às minhas missivas compridas. E, porque não te esquecia no Natal, ligavas a agradecer. Ao invés do que afirmavas ao telefone, era um bem parecer; decidi não escrever mais e esvaneceste.

Ou preferias evitar-me para impedir desconcertos e dúvidas sobre ti mesma. Para não te arrependeres do caminho. É uma hipótese.

Sem serventia, penso em ti com frequência. E tenho entre as páginas de um livro o último cartão de natal que não enviei. Já tem anos, mas continua a fazer-me pensar.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Lamento

 

Por vezes, revelo aos mais próximos o meu gosto pela escrita. Mas nunca to disse. Tu não lias. Só nos últimos dez a quinze anos a solidão te levou ao jornal do café e qualquer diário te servia. Antes, sempre que me procuravas e encontravas a ler, “fazias uma pregação”. Agastado, lançavas-me remoques pelo tempo que dizias perdido em vez de ajudar aqui ou ali; em vez de minorar os trabalhos maternos. E, aos gritos, perdigotos por todo o lado, davas exemplos: podia ajudar na terra, plantar couves e alfaces, amanhar uns canteiros de cheiros, salsa e coentros.  Ou podia tratar da criação. Assim faziam as mais. A tua exaltação a crescer e eu a minguar, sem um mas de que temia o preço. Então, obrigava-me a deixar o romance que tinha em mãos. Contrafeita, ia fazer alguma coisa. Em nossa casa e fora dela nunca o trabalho faltou. Portanto, pensava eu, para quê dizer-te que além do tempo que perdia a ler, outro tanto fazia com a escrita.  Se to contasse, repetias a lengalenga de sempre; e olha, cada vez mais te dou razão e a acho certa, “estou farto de te dizer, és inteligente, mas esperteza não tens nenhuma”. Sabes, se explano a ideia que tenho acerca de alguém, as manas sorriem meio a troçar, e declaram no que então era só vocabulário teu, “és uma anjinha, tu”. Havia na tua voz um timbre desconsolado e, em simultâneo, uma espécie de desalento feroz por eu ter saído deste modo, como se esse facto constituísse uma desobediência vingativa do destino, uma deliberada e crescente ignorância do teu desejo. Mas não somos como queremos, o lema “Querer é poder” fracassa em muito parâmetro. Tu não eras o que eu queria, nem eu fui quem tu quiseste.

Mas o tempo dobra-nos. Dobrou-nos. Tenho esperança que, lá bem no fundo de ti, te tenhas conformado. Desagradei ao nascer, era fêmea. E dei-te cabo da juventude que, por acaso - bem me lembro -, custaste a deixar. Cresci sem jeito para costuras e mal podia com uma enxada. Nunca consegui carregar padiolas de esterco contigo, erguê-las do chão era-me impossível e zangavas-te. Mas não conseguia na mesma e tinhas de requerer outra ajuda. Se te ajudava a regar as laranjeiras, infernizavas-me a vida com gritos e impropérios que não vou nomear. Mas olha, além de te dar razão (sou, de verdade uma desajeitada abécula), estou bastante arrependida de nunca te ter lido nada do que escrevi para ti. Nada.