terça-feira, 21 de março de 2023

Sombra Chinesa

 

O amor tem suas prerrogativas, tolda a vista e o juízo dos humanos.  Se para Jaime tudo era novo, não o era menos para ela. Dava por si a espiar sinais da idade, adivinhando rugas e cabelos brancos que não lhe existiam, receando - apesar de sentidas negativas e repetidas juras - que um dia Jaime escolhesse garota da sua idade, se fartasse dela com receio do mundo e da condenação que padre Fausto declarava pecado capital. Que a ela pouco se lhe dava, sempre vivera nas margens dos preceitos religiosos e mantinha com os homens uma espécie de pacto de uso consentido, a cada um o seu quinhão. Conhecia bem a violência e a força masculina a que respondia na mesma moeda, puxando dos recônditos a raiva que lhe entesava os músculos. Em cada desavença que ultrapassava a palavra, lutava contra o universo dos homens. Acudiam-lhe pontiagudos olhares lúbricos e sorrisos untuosos a remendar as intenções perversas dos ditos bem casados e pios. No corpo a corpo, vingava o sofrimento injusto das mulheres, fora sempre  esse o cerne das suas vitórias. Acendia-se-lhe nas entranhas um vulcão que respondia com lava à sobranceria saloia e besta dos homens que subjugavam pela força e tratavam as mulheres como animais desobedientes, sem pingo de vergonha por acto tão desleal. Chegada a sua vez, comprazia-se em humilhá-los, vencê-los onde se julgavam fortes, mostrar-lhes o desconforto de ser dominado, a quebra no orgulho macho a encorpar por ser a  fêmea a deitá-lo por terra, a imobilizá-lo, o pé no pescoço. Então, qual mamífero com sua cria, fazia-se ciosa do corpo e, ocultando os seus mistérios, sacudia aproximações. Ou desprezava-os. Esperava a noite e, num abandono liso e sem palavra, partia. Apagava-os do presente. Eram gente morta na memória. Assim sucedera com o pai de Teresa. 

O futuro sem homem não a assustava, mas, por exemplo de criação, força atractiva da natureza, ou por ser de crista levantada e desafiadora, preferia-os por perto.  Parecia-lhe a vida menos átona. Isto até Jaime lhe entrar porta dentro, a decisão amorosa no desarrumo dos caracóis, olhar agónico sublinhando a ausência de som que uma seda de dedos a tacto balbuciava.

segunda-feira, 13 de março de 2023

Sombra Chinesa

 

E que dizer dos amantes sem mundo e de curto tempo.  Desprovido de necessidade, o universo era-lhes sobejo e vago. Imerso em devaneios com rosto e forma definidos, Jaime vivia dias aéreos e ditosos que esparveciam Ernestina por abundância dos inadvertidos sinais de enamoramento. Lia-lhe as noites nas olheiras, no jeito deslembrado de andar pela casa, no sono que o tomava mal se estendia no sofá da saleta. Perguntava. E Jaime sorria, fazia mistério.  A mulher  abismava para as suas costas curvadas, horas a escrevinhar o que - e isso não o sabia ela -, mais tarde, em recobro de canseira amorosa, havia de ler em presença e de viva voz, deleite conjunto de madrugadas fugidias, as horas num sopro.

A filha do Pelinhos desvanecia. Não sabia ao certo se mais lhe agradavam os vagares do amor, se a voz de Jaime a contá-los. E, antes da dobra sacramental, selava de beijo cada folha lida. Não cuidava em destruir provas e toda se derruía em lágrimas se lhe acudia o assunto ou lhe perpassava na mente a existência do Chico. Antes guardava a arte do amado como se venera osso de santo, ou a aldeia na admiração da veia poética de Padre Fausto espraiando-se nas homilias. Ainda jovem, o sacerdote deixava o pessoal de cara à banda com a arte oratória que Deus lhe dera. No cume do ritual, encavacadas da fraqueza, as velhas, em disfarce de ajustar o traçado no peito,  fungavam para o negrume de xailes fumosos, enquanto as mais novas limpavam arrependidas lágrimas à costa da mão, talvez pecando, “mal empregadinho, um destes é que me ia a calhar”.  A jovens de maior comoção – a juventude ainda tem a lágrima ao canto do olho -, pingava-lhes o nariz e puxavam da manga lencinhos miniaturais, um quadradinho dobrado a força de ferro e onde só cabia muco de assoadela ligeira a que escolhiam lugar, ainda assim não maculasse o bordado de maior apreço.

A filha do Pelinhos, mais entendida em contas e expedientes de vendedora que em leituras para que nunca tivera tempo e de que nem sabia se gostava, derretia com as palavras de Jaime que, no seu entender, punham a um canto os sermões de Padre Fausto e todos os santos do céu - em osso ou de corpo inteiro. Os homens que a tinham vivido não eram letrados, e auges do coração chegavam-lhe com a robustez de tronco de árvore, imbuídos de secura. Um macho pobre de meios simplifica o futuro se não faz cama à brandura, ou ainda o tomam por frouxo; a brandura não quadra com mãos calejadas. Notava-lhes o gosto no sufoco de um abraço ou na vertigem de sexo que se instalava no olhar, uma espécie de loucura urgente que lhes tomava o corpo e ela apetecia. Jaime inaugurava um mundo de palavras, loucura mansa que a cativava por modulação. Notava agora a vida das vogais, o prazer de casadas consoantes, a doçura do seu nome ciciado sílaba a sílaba. Alheia a romances e filmes, provava o sortilégio da linguagem, o sabor dos vocábulos, a escada de sonho que mora nas frases. Nesse encantamento, supunha-se capaz de horas infindas a ouvir-lhe as descrições e a festejar-lhe o ego e, pródiga em superlativos de extremo, julgava o seu menino o rapaz mais bonito e inteligente do universo.

segunda-feira, 6 de março de 2023

Sombra Chinesa

 

Os dias corriam sem atrito, deslizavam no calendário e escorregavam tempo abaixo. Isto pensaria alguém chegado à aldeia, notando a pacatez dos moradores e observando artes femininas na barra desbotada e que um dia fora azul, mas agora desmaiava nas frontarias.  Ou os olhos se perdiam na tristura de paredes descaliçadas onde as crianças, em despique que colhia  vencedor, fantasiavam objectos e animais nos recortes de acaso onde a cal desgrudara. Mas todos os grupos têm no subsolo a sua fonte de movimento. No magma que reinava sob a calma e a pobreza, a aldeia borbulhava. Esperava o estouro. Talvez só os amantes e Formosinho vivessem alheios ao que os rodeava.

Formosinho concentrava-se nos negócios e protegia as vinhas como quem encaminha filhos pela vida. Enchia-se de cuidados e tratava por suas mãos as videiras que plantara com Veridiana. Embebia na lembrança das primeiras uvas, dos receios em tarefas a estrear, do temor que uma filoxera ou desgraça maior assolapasse as cepas e arrebentasse o futuro. Nesse tempo verde, nenhum dos dois se atardava a pensar na própria longevidade: eram jovens e eternos.  Os medos cingiam-se a perigos e desmandos da natureza.

Os jornaleiros observavam-lhe os cuidados e cochichavam que era pancada aquela cisma de não os deixar pôr um pé no pedaço de vinha mais antigo. Mas era patrão e pagava a tempo, respeitavam. Para Formosinho era ponto de honra que mão sacrílega se alheasse das cepas que em silêncio de conluio guardavam gestos e suor de Veridiana e mais a esperança de ambos. A vinha era igreja, e ampará-la assumia foros de culto. 

Não lhe importava o quarto onde nascera Jaime; a cama de bravatas amorosas e desvanecimentos, do sono que o cansaço dos campos mudava em semimorte, das grandes insónias da doença, os olhos vagueando pelo mostrador do relógio, temendo mexer-se, ainda assim Veridiana não se doesse do movimento; da dor de vê-la a mirrar sob a colcha, os pulsos no osso, maçãs do rosto a crescerem-lhe, tanto osso que temos senhores, ninguém diria que tanto osso sob a carne. Via-a por vezes a passear na cozinha, sentia-a encostada ao fogão de lenha que chispava ou deambulando corredor fora, um canto em surdina, doce bálsamo caseiro. Breves delíquios que enxotava em passada rápida. Abria a porta virada ao quintal, descia os degraus e, atravessado de realidade, quedava-se a meio, estou a ficar maluco. Ernestina vinha por ele, que há patrão, deu-lhe um pontada, quer alguma coisa da cozinha. E ele desaparecia sob o pomar, um aceno de não foi nada, não tem importância. O que diriam se soubessem que via a mulher amiúde. E que mais podiam dizer, senão que amolecera do juízo. Calava o segredo. Também por gosto de tê-la só para si, a desabrochar-lhe nos olhos. Sem palavras.

 

sexta-feira, 3 de março de 2023

À Beira Rio

 

Eu queria ver-te havia tempo. Mas tinha de te entregar o tempo. Aprender a viver com a dor que não é física requer paciência, tem avanços e recuos. Digo que não é física, mas conheço as horas em que o coração se retorce e não se entende a razão de não cairmos varados. Também sabemos que, à menor compressão, a ferida sangra. Precisamos despi-la de ser pungente, trabalho que só o tempo consegue.  São dias atrás de dias, meses de adaptação.  A dor da perda prostra-nos fisicamente, torna-nos mais vulneráveis a doenças - dizem os entendidos que são médicos do corpo; e também os da mente. É compreensível, houve grande desgaste físico e psíquico, o organismo ressente-se;  por vezes  não aguenta a pressão e rasga, abre brechas, surge um mal inesperado. Ou são os nossos mortos que, como nós, tardam a habituar-se e nos chamam; talvez tentem levar-nos, não sei.  Também não entendo a razão de não querermos ir. Mas não queremos. De forma consciente ou inconsciente, queremos viver. É a força da vida sobre a morte, espontânea obediência às leis naturais. E há um dia, não sabemos qual, em que a perda foi interiorizada. Ou racionalizada. Mudámos a nossa pessoa querida de lugar. Coabitamos com ela e com a dor que se tornou latência. Sendo um, somos dois. Ou mesmo mais. Vivemos por nós e por eles. E há nisso a alegria do amor e a certeza de que, estejam onde estiverem, nos acompanham. Sempre.

E tudo isto eu te quis dizer hoje. Mas falámos de outras coisas.  É tema sapatinho de cristal, só o silêncio lhe serve.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

Vidas a Descoberto

 

Ontem estava uma caixa de livros – bem arrumados e ordenados – à beira do contentor do lixo. Não fui eu a vê-la, mas alguém que a supôs vazia e pensou guardá-la, tinha bom tamanho. Mas continha livros. Quando soube, pedi que ma trouxessem (ninguém a queria e pesava). Quando a abri, mau grado saber-lhe o destino, senti-me como quem entra em casa alheia sem pedir licença, em violação de privacidade. Porque é uma forma de, à revelia do sujeito envolvido, o mesmo se dar ao conhecimento e à exposição. Desconheço-lhes a proveniência, a relação que tinham com os proprietários, mas, pelo conteúdo, a maioria parece ter sido pertença masculina. Repartem-se pelo que suponho serem desenvolvimentos sobre o nazismo, conhecimento da vida e política africana e russa, divulgação de personalidades com nomes estranhos e de que nunca ouvi falar. Ainda não verifiquei que tipo de literatura contêm e se são apenas informativos ou se apresentam ideologicamente formatados. Um ou outro têm assinatura em diagonal, a lembrar a minha própria no dicionário de português, cujo se perpetua em casa de meu pai e a que os meus irmãos, assim como quem não quer nada, apuseram a sua. Não pude evitar um sorriso quando encontrei uma folha de ordenado, em tudo semelhante às que também recebi, mas lavrada numa empresa de que nunca tive notícia. É datada de Julho e não consegue ler-se o ano. Por entre aqueles livros que me parecem de aprofundamento de conhecimentos, e de outros que são sobretudo de natureza política, há três ou quatro romances que não sei situar mas me parecem sem valor, e um livro de Max du Veuzit que na infância li sem compreender o que lia e pensando que a autora era um homem. De modos que ainda hoje não sei se será boa ou má escrita, mas já aprendi que é mulher e escreveu sob pseudónimo, talvez para conseguir vingar.  É bem provável que nessa época julgasse a escrita de romances apanágio dos homens; Na minha mente, Corín Tellado também pertencia ao género masculino. Avante.

São livros antigos, de folhas amarelecidas. Talvez – mera conjectura - pertença de casal que já não existe ou foi para um lar. Que a mulher lia menos e o conteúdo era bastante mais leve; e que o leitor mais regular decuplicava o número de obras e era muito objectivo nas preferências. No conjunto, existe um único livro de autor(es) português, chama-se “Cultura Portuguesa” e é de Hernani Cidade e Carlos Selvagem, dois homens de valor que lutaram pela liberdade em tempos difíceis. Imagino que houvesse também obras de escritores nacionais. No desmanchar da casa, talvez os filhos - ou quem se entregou à actividade - tenham arrecadado os livros que lhe interessavam e alguns tivessem raiz nacional. Mas, guardado entre as páginas de árido livro, um pequeno tesouro: uma folha. Espessa e ovalada, toda em tom de vermelho escuro. Linda e intacta. Imagino-a a marcar a leitura, a mão a retirá-la ou a poisá-la entre páginas  cuidadosas; ou, quem sabe, um aéreo dedo deslizando na nervura central. Decerto, um marcador de boa memória. 

E, no interior de um romance de Zola, em caligrafia feminina,  encontrei versos: a folha está rasgada, mas foram escritos no próprio livro em Lisboa 2/2/6… Os versinhos, quadras muito simples, estão organizados por números romanos e detêm alguns erros. São ingénuos versos de amor, um amor antigo que mistura Deus e o Menino Jesus com o sentimento de união, muito ao modo de quem foi jovem nos anos cinquenta e sessenta.

Ainda não desvendei toda a caixa, mas já escolhi algumas obras. Hei-de continuar a folheá-las com o respeito que lhes devo e mais a quem pertenceram. Por certo vou encontrar outros sinais da humanidade que os habitou desde a compra. E aqui darei conta:)

Sejam felizes

terça-feira, 14 de fevereiro de 2023

Às vezes o Amor

 

"Agora, mesmo no seu silêncio se apercebia o gáudio sôfrego de um cão que acha o seu dono e de novo fareja e rebusca pelos cantos familiares. Quina deixava-o proceder, fingindo não notar que ele tinha fome e que o seu rosto quase imberbe parecia ter sofrido amolgaduras e estava esverdeado de fadiga. Via-o sorrateiramente espreitar num armário, aproveitando a sombra para palpar os restos que,  em velhos pratos de barro, se tinham coberto de um bolor azul e cor de prata, delicado como uma borla de pó de arroz. Ela chamou-o, e Custódio, voltando-se, apresentou a expressão exageradamente inocente de quem disfarça uma culpa; um fio acobreado de doce de cereja corria-lhe devagar, pelo queixo. Quina puxou mais o lenço sobre a boca, e tossiu, cheia de riso. Ali estava aquele rapaz, tolo, belo, fiel e egoísta, não mais responsável do que um sarmento de videira que, esquecido de si, contudo cheio de veemência, vive. Aqueles olhos opacos, que pareciam trespassar todas as coisas sem porém lhes tocar,  como os amava! Os seus cabelos, a que os movimentos imprimiam um constante balanceio de seda desfiada e que mesmo na imobilidade eram possuídos de vibração, esgotante e perene vibração, como os amava! E a sua voz, aquele balbucio indiscreto, vago, tão humano, que soava sempre um pouco como uma surpresa angustiada, um pedido de auxílio, como ela a amava!"

“A Sibila” Editora Relógio d’Água, 35ª edição págs. 210 e 211

domingo, 5 de fevereiro de 2023

Um Quase Nada

 

Fora eu mulher metódica e a escrita seria diária. Escrevia com sol ou chuva, ventasse ou surgisse no firmamento um sol dolente e morno a espanejar-se. Escrevia qual poeta, como quem toma remédio para a dor, em obrigação que é prazer. Escrevia. Mas acontece que tenho dentro um dever mais fundo a sobrepor, uma espécie de aguilhão que me constrange o dorso bovino e teimoso e me encarreira em horários comezinhos de governanta, obrigando a escrita ao tempo livre. Entretanto, releio e registo a evolução, passei de sopeira a governanta; julgo que seja termo adequado já que o vocábulo me veio aos dedos sem pensar. Digam o que digam, sempre é uma subida. E haveria brinde se as subidas me interessassem, o que, receio bem, não seja o caso. A ascensão social não me está nos genes. Paciência. Que a outra, pelo menos que eu tenha conhecimento, só uma Maria Santíssima conseguiu. Já me resignei à humanidade, tenho mesmo de seguir o caminho inverso e ir para a terra. Se isso a que se chama alma for imutável (subindo ou não) já é grande sorte. A chance -  que por vezes esqueço - é ter nascido humana. Humana e normal (quero dizer, em tudo semelhante a outros humanos).

Acresce ao meu contar  intermitente, o pontual e instante  desejo de destom que me esvoaça entre pausas. Nessas horas, e esta é uma delas, fustigam-me    avulsos e dispersos pensamentos, espécie daqueles artigos de mercearia antiga que não dizem uns com os outros, uma barra de sabão, um quarto de banha, cinco tostões de amendoins. É o prazer de apontar e o pensamento usa os dedos que tem. Portanto, por exemplo em noites de concerto, sinto-me acompanhada, a música rompe e estamos ali sem depois. Estamos. É isso. Estaremos sempre, mesmo se e quando já não estivermos.

 No Metro, reparei o parzinho do banco ao lado. Sem telemóvel, embebiam em namoro clássico. Que bonito assistir. Não se beijavam lascivos, nem mesmo arrebatados. Mas a linguagem desvanecida do olhar dizia do encantamento, tão igual em ambos. No colo dela, postas em unido repouso, as mãos entrelaçavam abandonadas uma na outra. Mas, em conversa banal, os olhos eram únicos. Que factores fazem hoje tão esquivo o namoro e banalizam o amor. É certo que não me passeio por matas e jardins, mas será que ainda os namorados por ali se perdem. Não sei. Passo na Baixa e encontro apenas pessoas apressadas e friorentas. A maioria dos jovens são turistas e também a eles o amor desapetece. Conversam entre si como casais de cinquenta e mais anos, pacatos e amigáveis, e nem ligeiro odor de magia amorosa. Subo ao andar de cima de um estabelecimento conhecido. Junto à janela da mesa onde me sentei de outras vezes, um par jovem inventa ternuras, ele pousa-lhe a mochila e ajuda no despir do casaco que dobra na cadeira ao lado; depois, senta-se e encontra a mão que avança sobre a mesa e, feita ave que busca poiso, se entrança na dele. São eterna juventude, falam baixo e observam o exterior à luz clara da tarde, o candeeiro da rua emoldurado na janela. Enquanto isso, inteiriçado de frio e em pouca roupa, senta-se junto a mim um rapaz magro, rosto afilado, olhos de azeitona preta. O ambiente aquecido e o odor de café fazem da sala –  bonita e antiga – uma zona de conforto não ruidoso. Regozijo pelo garoto que se sentou e arruma a mala de muito uso a seus pés. Contudo, incomoda-me o ar displicente e de comiseração irónica da funcionária quando, vindo à mesa, ele hesita e pede  um solitário chá. Olho em volta, todas as mesas compostas: bolos, sandes, torradas, cafés. Chega-me uma vontade imensa de vingar a humilhação e encher-lhe a mesa de iguarias. Talvez envergonhasse o garoto. Ou não.