O amor tem suas prerrogativas, tolda a vista e o juízo dos humanos. Se para Jaime tudo era novo, não o era menos para ela. Dava por si a espiar sinais da idade, adivinhando rugas e cabelos brancos que não lhe existiam, receando - apesar de sentidas negativas e repetidas juras - que um dia Jaime escolhesse garota da sua idade, se fartasse dela com receio do mundo e da condenação que padre Fausto declarava pecado capital. Que a ela pouco se lhe dava, sempre vivera nas margens dos preceitos religiosos e mantinha com os homens uma espécie de pacto de uso consentido, a cada um o seu quinhão. Conhecia bem a violência e a força masculina a que respondia na mesma moeda, puxando dos recônditos a raiva que lhe entesava os músculos. Em cada desavença que ultrapassava a palavra, lutava contra o universo dos homens. Acudiam-lhe pontiagudos olhares lúbricos e sorrisos untuosos a remendar as intenções perversas dos ditos bem casados e pios. No corpo a corpo, vingava o sofrimento injusto das mulheres, fora sempre esse o cerne das suas vitórias. Acendia-se-lhe nas entranhas um vulcão que respondia com lava à sobranceria saloia e besta dos homens que subjugavam pela força e tratavam as mulheres como animais desobedientes, sem pingo de vergonha por acto tão desleal. Chegada a sua vez, comprazia-se em humilhá-los, vencê-los onde se julgavam fortes, mostrar-lhes o desconforto de ser dominado, a quebra no orgulho macho a encorpar por ser a fêmea a deitá-lo por terra, a imobilizá-lo, o pé no pescoço. Então, qual mamífero com sua cria, fazia-se ciosa do corpo e, ocultando os seus mistérios, sacudia aproximações. Ou desprezava-os. Esperava a noite e, num abandono liso e sem palavra, partia. Apagava-os do presente. Eram gente morta na memória. Assim sucedera com o pai de Teresa.
O futuro sem homem não a assustava, mas,
por exemplo de criação, força atractiva da natureza, ou por ser de crista
levantada e desafiadora, preferia-os por perto.
Parecia-lhe a vida menos átona. Isto até Jaime lhe entrar porta dentro,
a decisão amorosa no desarrumo dos caracóis, olhar agónico sublinhando a ausência de som que uma seda de dedos a tacto balbuciava.