O
calendário de Natal do ano passado começou a 8 de dezembro. O de 2020 não me
lembro, mas hoje inicio o calendário de Natal 2022.
Ora
bem. Atendamos aos pressupostos acerca da data: a festa da consoada é a minha preferida.
Encaro-a como o lugar aprazível e familiar que nos preenche nessa noite em que o
Menino-Deus faz anos. Imagino que lá no etéreo haja festa rija e os
intervenientes originais recordem esse dia aziago que acabou bem – isto de
andar muito grávida de estalagem em estalagem não é brincadeira nenhuma. E
depois um burro é vagaroso e as dores de parto, garanto, são terríveis. Bom,
numa virgem não sei, mas imagino que sejam em tudo a mesma coisa. Tenho imensa
pena de Maria. Calculo que estivesse mal comida, andasse a fazer a dilatação
sentada no burrico, toda dobrada e dorida por inteiro - o primeiro filho fica-nos
na memória. Pronto, era a mãe de Deus, mas ele lembrou-se de ser homem e lá
sacrificou a pobre. No nascer e no morrer não a poupou. Maria bem mereceu a assunção,
elevar-se assim, inteirinha, com sapatos
e tudo. Mas um Deus é necessariamente bom filho. Um Deus cristão, entenda-se,
que por exemplo os deuses gregos eram terríveis de maus, estou a lembrar-me de
um(a) que pontapeou com tanto afinco o filho que o deixou coxo para sempre
(pobre Hefestos, já não lhe bastava este nome horrível, ainda teve de ser coxo
e feio). É como se vê, a violência doméstica começou cedo e em alta patente.
Retornando
ao tema, parece-me bem que no Natal de Jesus Cristo (Cristo seria apelido? E da
mãe Maria, ou do pai José?), o mais feliz foi ele. Porque, vejam só: o pobre José,
aflito por Maria se encontrar naquele belo estado, calcorreava sítio atrás de sítio, a pé, guiando o burro que devia estar como ele, cansado; entrava nas estalagens, ouvia as
negas e continuava caminho num lugar que desconhecia. E os anjos, em vez de
lhe dizerem qualquer coisita, não. Andavam todos lá para Belém, entretidos a escolher
poiso no estábulo, como se não tivessem tempo para isso. O parto do primeiro
filho demora um tempo desgraçado, dava-lhes até para voar ao céu e fazer uns
gargarejos ou mudar a harpa. E já agora: estou ciente de que Jesus é filho de
Deus. Mas vocês desculpem, o pai é quem cria e educa. Portanto, não me venham
cá com a teoria de pai adoptivo e tal e tal. José era o pai. Ponto final. Por
outro lado, penso que o sangue de Deus (pai natural e sobrenatural) corria nas veias do
bebé de mistura com o de Maria. É bonito um Deus de verdade misturar o seu sangue
com o de uma mulher. Mesmo que o resto seja por obra e graça do Espírito Santo.
Julgo eu que Deus-Pai fez de propósito só para lhe dar algum trabalho porque
nem os católicos se lembram do tal Espírito Santo que, desculpem lá a má
língua, é uma figura muito apagada, parece-me que, literalmente, existe para
fazer número. Pessoa, no amoroso poema dedicado ao seu Menino Jesus, arrasa-o
(ao Espírito Santo). Um dia que me lembre ainda hei-de trazê-lo aqui.
Mas
atenção, mesmo na descontra, tenho de reconhecer: alguém que vem ao mundo por
amor aos homens só pode ser Deus. Um Cristo que prega o amor e se deixa matar
pela humanidade tem de mim o que queira. É que nós não prestamos, temos por
vezes alguns actos dignos e é só. O resto é ramerrão, mais do mesmo com muita
calinada à mistura. Bem precisávamos ser resgatados. Para o amor. Não há no
mundo coisa que valha mais a pena que dar a mão a quem precisa e, na medida do
possível, conservar a inocência de alma (se quiserem, do espírito; ou mesmo da
mente).
E
hoje foi Natal, pois foi. Paguei um almoço que devia há tempos. Pagar, em
linguagem pessoal é fazê-lo, agarrar nele e levá-lo lá onde o esperam. Que
agradável sentir-me bem recebida. Havia na mesa uma toalha de linho antigo,
daquele fiado em tear manual com florinhas bordadas a ponto cheio (nunca tinha
visto e palpado um linho tão linho). E, melhor que isso, em homenagem ao
almoço, as minhas meninas que já quase não mexem, desceram à vez a escada, sentadinhas
na cadeira igual às que vemos na TV. E comeram o que lhes pus no prato e depois
servi a sobremesa. Para remate, por
entre cuidados e fragilidades, levei uma a ver as suas flores in loco (não
as visitava havia muitos meses). Deu-me uma data de beijos e ciciou quando lhe ajeitei a manta nas pernas - já só cicia
-, assim sim, almocei uma coisa que me soube bem; e vi as minhas flores.
Digo
eu, foi um bom Natal.