Intrigava-me
aquela mulher. Encontrava-a amiúde. Triste, cara fechada, despida do bom dia/boa
tarde costumeiro. Ao volante, conseguia superar-me no olhar fixo e recto, rodeado por compridos acrescentos
de esmorecimento carrancudo que a avelhantavam. Fomo-nos cruzando assim, sem um
cumprimento, o meu sorriso a desistir no esboço. Mercê destas aleivosias, decretei-a
mal humorada por natureza, um daqueles seres concebidos em dia aziago, ou que,
nascendo em noite de lua nova, e após ineficazes horas de sofrimento materno,
são tirados a ferros do limbo amniótico e andam pela vida em tétrica escuridão a
desejar úteros perdidos. A sua figura retira luz ao dia e, mal assomam a um
lugar, logo o tornam sombrio. Pertence-lhes o que alguns espíritos chamam de
aura negativa e lembram assombrações de alma penada. O fulcro da minha intriga ancorava
no olhar. A garota – rondaria os trinta – tinha olhos mortos. Aliás, parecia
toda morta e automática.
Foi
então que ouvi na peixaria os soluços da peninha popular, “coitada, o marido
morreu-lhe nos braços, casada há ano e meio, um bebé de dois meses, a casinha
nova, davam-se tão bem…” E nem foi necessário inquirir motivo, “foi coração, um
ataque fulminante”. E todos os gestos desirmanados me fizeram sentido, as
carrancas, a zanga com o mundo, a evidência da morte no olhar. Dediquei a minha
compreensão póstuma à sua desesperança, creio até que, do mais fundo de mim,
lhe desejei – e assim o pedi ao bom Deus - o reencontro com a alegria de viver.
Passaram
anos, deixámos de nos encontrar. Mas a bebé cresceu e já frequenta o que antes era a escola primária e agora não sei bem como se chama.
Para o vulgo, é a filha da Hortense. Conheço-a da escola que me fica próxima, e
observo que é garota inteligente e simpática. Para minha surpresa, um dia
entrei na loja dos chineses e a mãe estava atrás do balcão. Parece outra: rejuvenescida, sorriso aberto e pronto, o mais jovial que possam imaginar; e usa
de simpatia e atenção que me fazem repetir as idas ao chinês. No momento em que
a descobri (não me conhece), espreitava uma prendinha que encomendara e lhe
chegara pelo correio. Para a filha. Desembrulhava com cuidado para não
desmanchar a surpresa da miúda e estava felicíssima com a materialização da ideia.
Num golpe de olhos ao interior da embalagem verificou os pertences e, sonhadora,
murmurava no refazer do embrulho, vai ser
uma alegria, há que tempos cobiça uma coisa destas. E uma cliente, Ó Hortense,
então ela faz anos? E ela em amoroso cuidado com o presente, ajeitando-o com materna
sabedoria por baixo do balcão, ora essa, as prendas sem data marcada são as
melhores. E, olhos plenos de riso satisfeito, não me diga que não sabia
isto. Vá mas é comprar aí umas coisinhas
para os seus meninos.
Não
sei se a cliente acatou o conselho. Eu saí de bem com a vida.