sábado, 29 de janeiro de 2022

Atar e Desatar

 

Intrigava-me aquela mulher. Encontrava-a amiúde. Triste, cara fechada, despida do bom dia/boa tarde costumeiro. Ao volante, conseguia superar-me  no olhar fixo e recto, rodeado por compridos acrescentos de esmorecimento carrancudo que a avelhantavam. Fomo-nos cruzando assim, sem um cumprimento, o meu sorriso a desistir no esboço. Mercê destas aleivosias, decretei-a mal humorada por natureza, um daqueles seres concebidos em dia aziago, ou que, nascendo em noite de lua nova, e após ineficazes horas de sofrimento materno, são tirados a ferros do limbo amniótico e andam pela vida em tétrica escuridão a desejar úteros perdidos. A sua figura retira luz ao dia e, mal assomam a um lugar, logo o tornam sombrio. Pertence-lhes o que alguns espíritos chamam de aura negativa e lembram assombrações de alma penada. O fulcro da minha intriga ancorava no olhar. A garota – rondaria os trinta – tinha olhos mortos. Aliás, parecia toda morta e automática.

Foi então que ouvi na peixaria os soluços da peninha popular, “coitada, o marido morreu-lhe nos braços, casada há ano e meio, um bebé de dois meses, a casinha nova, davam-se tão bem…” E nem foi necessário inquirir motivo, “foi coração, um ataque fulminante”. E todos os gestos desirmanados me fizeram sentido, as carrancas, a zanga com o mundo, a evidência da morte no olhar. Dediquei a minha compreensão póstuma à sua desesperança, creio até que, do mais fundo de mim, lhe desejei – e assim o pedi ao bom Deus - o reencontro com a alegria de viver.

Passaram anos, deixámos de nos encontrar. Mas a bebé cresceu e já frequenta o que antes era a escola primária e agora não sei bem como se chama. Para o vulgo, é a filha da Hortense. Conheço-a da escola que me fica próxima, e observo que é garota inteligente e simpática. Para minha surpresa, um dia entrei na loja dos chineses e a mãe estava atrás do balcão. Parece outra: rejuvenescida, sorriso aberto e pronto, o mais jovial que possam imaginar; e usa de simpatia e atenção que me fazem repetir as idas ao chinês. No momento em que a descobri (não me conhece), espreitava uma prendinha que encomendara e lhe chegara pelo correio. Para a filha. Desembrulhava com cuidado para não desmanchar a surpresa da miúda e estava felicíssima com a materialização da ideia. Num golpe de olhos ao interior da embalagem verificou os pertences e, sonhadora, murmurava no refazer do embrulho,  vai ser uma alegria, há que tempos cobiça uma coisa destas. E uma cliente, Ó Hortense, então ela faz anos? E ela em amoroso cuidado com o presente, ajeitando-o com materna sabedoria por baixo do balcão, ora essa, as prendas sem data marcada são as melhores. E, olhos plenos de riso satisfeito, não me diga que não sabia isto.  Vá mas é comprar aí umas coisinhas para os seus meninos.

Não sei se a cliente acatou o conselho. Eu saí de bem com a vida.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Casas Contadas

 

Li uma obra de Leonor Xavier sobre as casas que habitou.  “Casas Contadas”. Se não fora o curso que frequento sobre Literatura, Filosofia e Espiritualidade (não percebo bem o que é que a espiritualidade anda a fazer fora da literatura e da filosofia; soa-me mais honesto, tal como se apresenta, dar-lhe o nome de Religião e Moral Católica). E eu que não conheci a senhora, salvo de algumas – poucas – entrevistas que ouvi na rádio e de tê-la visto participar num programa de Tv, simpatizei. É de leitura escorreita, com alma dentro. Vale pela alma. De resto, parece-me que a sua vida foi estilo conto de fadas. Ou ela lhe deu o tom. Bem nascida, muito amada, inteligente, bonita, cheia de vida, uma pessoa intensa e intensamente curiosa. Casou como se casava no seu tempo, mas com a sorte de formarem um casal com muita afinidade. O marido, também inteligente e cheio de futuro, também de boas famílias. Se em solteira tinha casa de férias, não lhe faltou em casada. Como ela mesma afirmou, viveu numa bolha. Em Portugal ou no Brasil. Depois, os filhos (3), as empregadas que sempre teve (não uma, duas), as casas com o quarto e casa de banho da empregada, os amigos, as noites fora ou em casa de amigos. A ida para o Brasil com passagem por Paris onde o casal achou que devia esbanjar um pouco, afinal estava a despedir-se da Europa. Depois, a estadia no país irmão e que também deu certo. Após anos no Brasil, sem dramas, o fim do casamento. A profissão de jornalista que ali descobriu e parece não ter tido dificuldade em encaixar na vida caseira. A sua capacidade de ser próxima das pessoas. A saudade de Portugal e do que deixou. 

As agruras hão-de chegar-lhe em Portugal, após o regresso com os filhos. As dificuldades no jornalismo português, as críticas de que foi alvo, a morte da mãe que sempre a apoiou, a doença.

Que novidade me trouxe Leonor Xavier. Nenhuma. Mas é agradável lê-la. Porque, falando sobre si, não se lamenta e é entusiasta da mudança. Porque sempre preferiu ver o copo meio cheio. Porque, contando tudo, nada diz do que ou de quem lhe foi íntimo. E por ser autêntica. Na sua vida a fé teve, desde sempre, um papel importante. Mas interpretou e adaptou a si regras e normas - mesmo as da sua religião -  que considerava ultrapassadas.

Bom, o meu intuito era escrever sobre as minhas partes gagas (ou será gagás) e saiu isto. Paciência. Sorry.  Fica para uma próxima.

sábado, 22 de janeiro de 2022

A Involuntária Leveza da Imagem

Imaginando que tenho uma sósia e me encontro com ela na rua, creio que não me reconheceria.  Diariamente, o espelho cumpre, dá-me aquela imagem despenteada e tanta vez insone, árduos papos a sustentar olhos de problema que o dia olvida. Essa, sou eu. Um eu que não reconheço verdadeiramente. Se o encontre na rua não sei quem é, não estranho, “aquela sou eu”, como estranhei quando um dia me vi fotografada – e penteada, diga-se – em revista de tricot. Tirei a prova inquirindo de amigas e conhecidas, com quem a achas parecida, e todas, contigo. O facto estranho é que hoje não tenho imagem, nunca me apareço seja onde for e, pior, desconfio que não me reconheceria. Bom, ainda me reconheço nas fotos. E tal certeza orienta-me. Talvez se encontrasse a das fotos me lembrasse de mim e, em disparo de mola me saltasse a descoberta, “ah, tão parecida comigo”. É que não me agrada o talvez, mas não posso, em honestidade, afirmar o indubitável reconhecimento. Já me acontece há anos com o que escrevo: releio-me e penso que aquela pessoa acerta pensamento e palavra comigo, mas não me ocorre a pertença. Como em certo cartão de Natal que enviei e reli na casa do destinatário.  Pergunto-me como é que nem reconheci a letra, era manuscrito.  As palavras tomaram-me e  lembro-me de pensar que gostaria de ter sido eu a escrevê-las, invejei a autoria. Como cantou o poeta, serei “qualquer coisa de intermédio”, daí a dificuldade no acerto.

No entanto, algo me salva do completo desconhecimento. Em certo aniversário natalício de há pouco tempo (sendo de há muito, não valia) uma amiga criativa, de longos e afuselados dedos - uma pessoa daquelas com unhas pretas ou azuis, enfeitadas de brilhantes e o mais que a originalidade inventa -, ofereceu-me um quadro artesanal, feito com colagens de revista. Gosto bastante dele, tenho-o no meu quarto “se não fora eu ter-te assim/ sempre à beirinha de mim…”. Quando desembrulhei a prenda e ao primeiro olhar me saltaram as duas figuras repetidas n vezes, saiu-me, “estas somos nós duas”. Não somos, é claro. Mas é mesmo como se. Conclusão: ainda não está tudo perdido. Um dia encontro-me por aí e abraço-me contente à aparência de mim😊.


quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

Sempre o Caminho

 

         Janeiro é friorento e repete  um nunca acabar de dias. E o mau de Janeiro é haver Fevereiro que, embora mais curto, sofre de idênticos problemas. Há um gume acerado no ar que fustiga a pele e nos dá nariz de palhaço mas com pingo, incómodo que pode virar problema se esquecemos o lenço de papel. E é fora de dúvida, os passeios matinais - os meus -  ressentem-se destas agruras. O garoto da bicicleta irá de boleia, facto que agradeço ao bom Deus, de tal modo me pareceu enregelado da última vez que nos cruzámos. O cão que flanava em  certo quintal, foi agarrado pela frieza e nem o focinho aponta fora da casota. A caminheira do estio, evaporou. O avô do Tomás também criou invisibilidade e nada de atravessar a estrada de um lado para o outro, boné, botas de borracha e fato macaco a lembrar um tractorista sem tractor.

Ao silêncio da manhã ficam bem os balidos de ovelhas imunes à frialdade, cumprimentando-se sem pressas enquanto tratam do desjejum. E é magnífica esta confluência campestre que desvela a frescura única e quase virgem de um dia a começar, a ingenuidade  da luz namoradeira tenteando caminho, dedos docemente invasivos a despertar o mundo. No ar, os odores sentem-se ainda sem mistura nem sobreposição, cheira a terra orvalhada, a clorofila, aos pastos que reverdecem, ao energético vapor do mundo natural que só as manhãs transpiram. Mas logo a nudez da manhã se veste de automóveis com atraso – em janeiro, sair da cama é mais difícil – e um ou outro silvo no rodado em lufa-lufa de bicicleta friorenta e açodada. Depois da curva, e até antes dela, espreito. O senhor Zé está sentado no muro de cameleiras. Não sei como aguenta a pedra gelada. Mas ali fica a descansar da subida e gosto de pensar que também à minha espera. Levamos uns minutos à conversa, falamos do tempo e de pequenos ridículos lembrados na hora, enquanto automóveis mais atrasados aceleram na descida e oscilam nas lombas como barquitos em onda bravia. O rosto do velho avermelha enregelado, anda devagar, tem três pontos de paragem e gasta no caminho o triplo do meu tempo. Sabe todos os dias em que não compareço e quando digo, até amanhã, por vezes corrige, não, amanhã não vem, tem a natação. E alegra-me esta memória. É um querido.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Vidas

 

Há gente que a vida marca, apõe-lhe um véu triste no olhar. Conheci-a no extinto Magistério Primário, frequentava o ano acima do meu. Oriunda de uma vila no Alentejo profundo, bonita, magra como um junco, olhos ainda impunes. Passados anos e muita vicissitude, soube que, entretanto, a família aterrara na minha terra e aqui fazia vida. Ela ensejava no percurso dos principiantes então denominados professores agregados: dava aulas um ano aqui, outro ali.  Nessas andanças, foi uma das jovens professoras de meu irmão. Mas, apesar das liberdades de Abril, circulávamos em vias diversas e nem por uma vez a encontrei. Ouvia falar dela, como de tanta gente que mal conhecia. Nada nos ligava. Os anos passaram, ensinámos durante décadas na mesma terra, quiçá eu tenha recebido alunos a quem ensinou a ler, escrever, contar. Chegou a ambas a hora da reforma. Continuámos estranhas.  Certo dia em que aceitei o convite de duas colegas para caminhar, encontrámo-la. Ficaram as três à conversa num mundo só delas. Pareceu-me triste, uma diferença no olhar. Dela, sabia que era solteira e tinha memória de seu irmão, um jovem que o cancro levara. Gastei uns dias a pensar naqueles olhos e resolvi ligar-lhe. Combinámos um chá num lugar agradável que o covid viria a encerrar. Foi prazenteiro. Saímos algumas vezes e lembro-me que a presenteei com um concerto de ano novo na Gulbenkian; gostou. Mas, aos sessenta, cada um tem os seus nichos de conforto e as suas relações. Foi-se afastando. Julguei natural, não interferi.  E a vida voltou a sugar-nos, cada uma em seu caminho. Entretanto, não conseguia deixar de pensar que tal afastamento se devia à minha estranheza quando me confidenciou que não tinha melhores amigas, que não sabia quem fossem. Na proverbial inconveniência que me caracteriza, a minha admiração explodiu cheiinha de pontos de exclamação acusadores. Na vez seguinte em que nos juntámos, já eu com o assunto arrumado, fez questão de pontificar, afinal sabia quem era a sua melhor amiga. Sorri a descansá-la. E senti pena. E depois disso, sabia haver um riacho a separar-nos.

Uma vez ou outra, continuei a vê-la ao volante. Não se aproximou. Passou mais de um ano. Certo dia, ligou a dizer que adoecera. Paralisia Supranuclear Progressiva (PSP), doença degenerativa do sistema nervoso central e de actuação rápida.  Fiquei aterrada quando busquei informações sobre. E corri a vê-la. Cai com frequência, tem perturbações oculares e de equilíbrio, dores por todo o corpo e chora bastante. O discurso é lento e repetitivo, tem lapsos frequentes, por vezes sem nexo. Não suporta barulhos e as visitas cansam-na. Vou sempre por pouco tempo. Reparo que quase não come, duvido do destino que cabe aos doces que lhe faço. Vive com a mãe, uma velhinha de 97 anos mais saudável que a filha, mas que não pode nada. Contrataram empregadas, uma diurna, outra nocturna. Hoje, viveu um dia melhor. Facto inédito, conseguiu descer a escada e veio comigo ao quintal. E logo entonteceu.

À saída carrego sempre uma dor de cabeça. Não entendo, se é a alma que me dói, para que se mete a cabeça ao barulho.

 

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Mescla


Ora bem, nem tudo foi mau. Enquanto as gentes punham sono, leitura e namoro em dia, entretive-me a bordar uma toalha de natal. Verdadinha. Não que prefira tal arte. Mas dei-me ao trabalho de aprender um ponto e, usando de metódica perseverança, terminei a obra antes da consoada. Aqui e ali, lembrava Bethânia bordando ponto cruz nos solitários  fins de semana de uma canção.

Tomei a peito os passeios matinais e criei laços com o senhor Zé e a Violeta. Mais fortes com a Violeta. A querida Violeta que corria para mim que nem lebre e me pulava para o colo. Se não me apetecia vestir ou sair de casa, bastava lembrá-la e logo criava ânimo. Era amor, só pode. Nessas horas ainda mortas, apeguei-me ao cheiro estremunhado da erva húmida pelo sereno, à sarabanda barulhenta dos pássaros em manhãs solares, ao arrepio se um gume de aragem  esfria o rosto apreciando céus de cinza e casas ainda em sono involutivo. Conhecia um a um os condutores que me cruzavam e sabia as acelerações de atraso; o garoto simpático e de invernos encapuçados bicicleta fora; certo cão que me espreitava e seguia em silêncio por detrás do muro; o chão de camélias à beira do qual me sentava a mimar a Violeta; o senhor do mata-velhos, olhos vidrados no caminho; a curva onde me sorriam os caracóis louros da minha ex-vizinha que levava a garota à escola.

Na quadra doentia tive uma única e solícita visita (doce, doce amiga), mas, talvez por essa distância medrosa, chegaram-me alguns livros. E, ao longo do ano, foi caindo um rebuçado aqui e ali: o vírus não quis nada comigo e as doenças graves ausentaram-se. Reencontrei a professora de inglês e houve mesmo um almoço revivalista. Não perdi o gosto por ler e escrever e, no mundo digital, fiz novos conhecimentos, alguns já no limbo do esquecimento, coisa muito natural neste sector da comunicação cingido à palavra.

Apesar do constante descritivo, não creio que haja um lado de coisas benéficas e outro de desgaste e malapata. Antes acredito na mescla, a vida contém bem e mal e um origina-se do outro dentro da mesma coisa. Senão, veja-se, a Violeta foi a minha grande descoberta de 2021, a alegria  das manhãs. Conquistámo-nos mutuamente e aos poucos, cada dia mais. Como a raposa e o principezinho. Contudo, abandonou-me sem despedida. Não possuía um vulcão por varrer nem uma rosa para cuidar, não voltou para um planeta minúsculo que se enchia de crepúsculos e de que tinha saudade. Irreprimível, regressou ao nada de onde saiu. Como nós, provavelmente. Por ela houve a tristeza e a alegria. O covid limitou-me quanto pôde (muito), mas não a teria conhecido sem ele.

Houve outras coisas? Sim, mas a vida não é toda de contar.

 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

O Ano Dois da Malapata

 

Apesar de toda a esperança investida, da boa vontade em sonhar polícromos amanhãs que cantam e encostam às boxes o malfadado 2020, 2021 não foi um bom ano. É certo, a pandemia aliviou no verão. Mas acontece que gastei o meu tempo a cair e o verão, que nunca é bem, bem, como o queremos, deu-se mesmo ao desplante de ser inesperado e diferente. Depois…bom, depois morreu-me o gato, faleceu de uma ponta à outra. Em seguida, o pobre e velho Fox  também viajou sem regresso; a casota não se conforma e lá está ainda debaixo da árvore que, de certeza e apesar de o não demonstrar, se lastima pela seiva e anda de lágrima a rebentar na nervura das folhas, em solidão que confrange. Ao invés, as ervas reverdecem e julgam-se no paraíso, o mal de uns é o bem de outros.  Brotam em catadupa, quase tão salientes como as dos desenhos animados que no tempo de riscar um fósforo transformam qualquer deserto em selva intrincada. As ervas, concluo, são as únicas que gostaram do ano que se finou e vicejam encantadas com o espaço que o cão lhes vedava – os cães são assim, abominam misturas vegetais e, ciosos, habitam os lugares por inteiro. Também gostam por inteiro, devotam-se. Mas o seu ser carnívoro desdenha tudo que seja planta. Os gatos não. Os gatos desenfastiam mastigando umas ervas. Nós bebemos água das pedras, eles mastigam umas ervinhas. Faz-lhes bem ao aparelho digestivo. Tanta lambidela dá livre trânsito aos pelos no estômago, não entendo como aguentam. O meu gato preferia o chá-príncipe que viceja perto da cozinha. O malandro roía as pontas das folhas como quem come gelados, era um gosto vê-lo. Avante. Quase não assisti a espectáculos e nem me lembro se passeei. Pouco vi os amigos. A cirurgia que esperava há muito não aconteceu. De modos que ponderei considerar-me doente, mas não acho preferível. Apanhei alguns sustos familiares por via das doenças, mas avante. Lamentavelmente, as piscinas não abriram; logo, foi-me negado certo quinhão de bem estar. Resumindo: em 2021 congelámos os apetites, as necessidades, os amores e alguns rancores. Claro que há excepções. Ouvi uma menina dizer na rádio que aproveitou o tempo de maiores restrições para descansar e namorar, parecia encantada. Mas eu que já nasci cansada, não preciso repouso; e namorar é prémio, reserva-se a este ou àquele na roleta da sorte. Portanto, foi um ano restritivo, angustiante em alguns bocadinhos e nimbado de tristeza, bastava olhar as pessoas na rua ou no Metro.

Tive um cão e um gato que se finaram, mas a morte da Violeta pede um superlativo relativo de superioridade. Nunca tu pensaste ser o meu superlativo, pois não Violeta.