segunda-feira, 15 de julho de 2019

Até ao Fim


Percorro um circuito de blogues que só acrescento ou minguo por razões maiores. Leio-os mais ou menos diária, quase sempre deixando rasto. Não sei se sou amiga dos bloguers, mas suponho bem que não interferem no meu conceito de amizade. Se um deles desiste da blogosfera, aguardo uns dias, por vezes semanas, e deleto-o. Mas também existem os que não me aturam as bocas, aqueles para quem sou indigesta, os que são muito para o meu pouco, ou que, simplesmente, querem a casa arrumada a seu exclusivo gosto e sem palavras minhas de permeio.  Esses, não sei como, proíbem-me a entrada e dedicam-se aos seus convidados, apresentam-se em circuito fechado; uma espécie de maçonaria bloguística e misteriosa. E, por mais que os goste ou tenha gostado, vou desgostando e deleto-os sem mas nem mas. Desaparecem.
A blogosfera é um dos mundos camaleónicos à disposição, verdade flutuante e palavrosa, muito cheia de qualificativos. Por todo o lado proliferam coisas lindas e sublimes que são apenas normalidade; adorações que a gente olha e se dedicam a coisa vulgar; beleza poética que é um sem valor. E, no meio desta amálgama, acontece poesia e substância; desabafos que são essência humana na sua recôndita pureza; crítica política e social com pés e cabeça, argumentos bem esgalhados; peças raras que se mostram e divulgam; gente que sabe da poda e se dá ao trabalho de dizer e mostrar como e o que pensa. Podemos pensar desigual, ser opostos, desdizer, acrescentar. O que não podemos é desmerecer do trabalho que têm na mostra. Digam-me que é um ego que procura satisfação. E depois, e se assim for,  por acaso diminui a qualidade? Há alguém que faça obra, seja isso o que seja, sem procurar satisfação e reconhecimento? É que desconheço essa qualidade de gente.
Portanto, num momento em que pouco se lê por ser actividade lenta, haver quem escreva – outra actividade que não corre a maratona - sem o óbice de provento, é meritório. Que nos enfeitem as horas sem que nos conheçam não me parece apenas afirmação do ego. E, sendo, que saiba a gente retirar a parte conveniente.
A todos eles: Bem Hajam

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Um Certo Aroma


Descobri William Faulkner há poucos anos.  Tudo começou com um livro adquirido talvez em saldo ou segunda mão, não tenho memória. E encontrei na escrita de “Os ratoneiros”, reminiscência poderosa, o que procuro em quase todas as obras, a boa arte de contar uma história. Uma história à antiga, plena de apartes e recortes, realidade que se vai estendendo na nossa frente à medida que vamos lendo. É um escritor soberbo. Na altura da descoberta, pensei que voltara a encontrar autor de apetite. Ironia do destino, começara a existir-me no último livro. Impressionou-me o realismo das cenas, situações tão reais que não nos (me) ocorre serem ficção e tendemos a pensá-lo autobiográfico. Que dom tem a mente de um grande escritor para assim descrever, até ao ínfimo pormenor, ambientes que não existem, pessoas fictícias vivendo situações que, ainda que possam existir, ali são esmiuçadas como se estejam à nossa frente. E tudo isto usando termos e imagens de fino recorte, coisa de quem mexe nas palavras com sabedoria. Amo de paixão este fulgor, é coisa que me está ou entra na massa do sangue. Portanto, já não sei porquê, comprei mais um livro. Na Feira.  Seria livro do dia, estaria com desconto assaz tentador, qualquer coisa assim. A minha intuição livresca saltou do último para um dos primeiros livros de Faulkner, "Sartoris". Uma festa do espírito. Abençoado homem!
Ora! Não vou contar o enredo; não faço resumos; desvio-me de copiar excertos. Leiam. Que os vossos excertos são outros e o meu Faulkner não pertence a mais ninguém. Cada um tem de fazer seus escritor e  escrito. Faulkner agradece.
E Bom Dia:)

domingo, 7 de julho de 2019

Instante


Era uma manhã volátil, ora sombra ora sol. E nós duas em ocasião rara, eu a mirar ruas e árvores do lugar do pendura que pouco ocupo, no  exercício de olhar a paisagem como se a não conheça. Conversa pausada, assuntos de tudo e nada, eu por dentro das costuras de mim, bolas, isto é mesmo feio, não é preconceito. E a brisa que sim, brandamente; folhas resmalhantes a anuir, murmúrio de corpo infantil movendo-se ensonado em colchão de palhas. O dia plantado no tempo, cheguei. E o ritmo dos homens ainda absorto, o ar estreito de vozes e um vagar automóvel a ronronar. Portas semi abertas, compras que são desejo, tarefas em projecto, os bons dias de hábito ao vizinho que se assoma. Na corda da roupa, uma alegria sacudida, peças ufanas evaporando  a madrugada, já quase secámos. E nós duas paradas no semáforo. Crianças que os pais levam manhãzinha para os OTL e atravessam agora para a piscina, chapéus na cabeça, mochilinha às costas. Mãos dadas, caminham ordeiros, respeitando a formatura. Aqui e ali um adulto zelador. O meu pensamento lagarta na roupa que seca, junto à mulher que, sentada em banquinho rasteiro, muda os chinelos dentro de casa, talvez pensando que se não vê da rua. Ainda assim os noto,  são garotos muito pequenos. E antes que o pensamento me evolua, um grito uníssono, uma exclamação de alegria colectiva virada a nós, portentosa e surpreendida, Mariaaaaa.....Parados em monte, mesmo na nossa frente, enchem a passadeira e entopem os que atrás aguardam. Separa-nos o vidro do carro. Ela avança até ao vidro também acenando e rindo, a voz embargada, “são os meus alunos. São os meninos do meu jardim”. E eles como quem vê o deus desejado, sorrisos de orelha a orelha, acenando a mãos ambas, esquecidos da mão na mão, do semáforo, da fila de carros, imersos na ternura apalermada de quem gosta, a atenção inteira colada na figura dela. E ela rindo e acenando adeuses e beijos, toda deles, voz de comoção doce. E depois a retomar-se, mãos  pedindo que avancem, vão, vão, atravessem, adeus, adeus. E muitos beijinhos soprados nas mãos.
E a vida parou também a ver:).

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Alíneas


A gente pensa na sintonia da amizade e, procurando, encontra motivos. Embora um élan inexplicável una as grandes amizades, muito se pode explicar: causas físicas e até químicas; pensamentos similares ou que se completam; empáticas proximidades e vizinhanças; desejos e aspirações que coadunam; gostos musicais; princípios de vida e valores; leituras. E sei lá que mais.
Na adolescência, as amizades padecem de exagero, a vida sem amigos é inadmissível. Há verdadeiras paixões, ciumeiras e projecções nem sempre saudáveis. Ajudam a crescer. A crescer de muita e variada forma.
A adultícia amadurece as amizades, afirmação de que os tempos modernos me fazem duvidar. Depender de likes e ter centenas – dezenas que sejam – de “amigos” é uma bofetada na amizade como a conheço, ofende-a. Mas pronto, basta admitir que a amizade digital é outra coisa. Existe, mas não ganha a amigos que nos acompanham realmente e em presença. Que nos gostam com gestos e olhos, palavras e carinho, ajudas nisto e naquilo, conselhos que não pedimos mas eles sabem necessários. E, mais importante que tudo, o à vontade que sentimos na sua companhia faz-nos bem a tudo. Descansa-nos o seu olhar, comove-nos a voz que usam para dizer o nosso nome; deleita-nos o cuidado que têm connosco como se fôramos as crianças que, por qualquer dom indefinido, eles vêem.
Pergunto-me o que acontece à amizade quando envelhecemos. Onde pára. Os velhos não se acompanham senão a jogar à sueca ou à bisca e ao dominó. Os velhos que vivem nos lares e se rodeiam uns dos outros não são amigos.   Quezilentos e ciumeiros, delatam-se, roubam-se, não se ajudam e antes se denunciam. Cada um no seu mundo de solidão, braços estendidos a impedir entradas. Talvez a perda de realidade – um lar é mistificação -  roube o desejo de novas relações, a capacidade de ainda procurar sintonias afectivas. Ou será apenas o peso dos anos a desligar-nos do mundo, involução natural, o pensamento a atapetar de desinteresse propedêutico.
Ignoro a resposta. De onde estou, me parece até contra natura alguém esquecer amizades de uma vida. E se, como  na canção de Brel, partiram antes,  o que fará  enraizar o desinteresse pelos outros que ainda duram. Quando esteja na idade, saberei. E talvez nessa altura já não me lembre a pergunta.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

A Minha Rua


À medida que os anos correm damos por nós a questionar valores assentes, princípios da existência. Vislumbramos sentidos ocultos onde, possivelmente, não há sentido nenhum e avaliamos ao milímetro o peso da máxima socrática, nada sabemos. A vida não nos ilumina de sabedoria, limita-se – e nem isto é universal - a esclarecer a própria ignorância. Portanto, não morremos sábios. Alguns levam consigo esse saber de sonho desfeito que é ignorância de papel passado. Que a outros, os achaques sobreocupam-nos e aniquilam; não sobra tempo para inquietações e filosofias.
A minha rua, minha de quase trinta anos, começou por ser uma rua bebé respigando auspícios. Conheci-a sem luz, em piso de terra. A breve trecho, chegou o asfalto e a iluminação. Encheu-se de moradias e, logo, logo, de crianças.  Então, na tardinha alentejana, a vozearia do futebol ouvia-se até ser escuro e a adiantada lua dar voz de paragem. A toda a hora revivia.  Garotos de bicicleta; duas meninas de mão dada e fugindo do cão que ladra preso à corrente; o rapazinho solitário, mochila nas costas, indo e vindo da escola que é logo ali; as mães que a espreitavam ainda assim o filho ou a filha; os pais que chegavam a hora certa, dia de trabalho cumprido. E as flores e arbustos que no princípio eram assomo de verde medroso e que espreitávamos a debruçar-nos sobre os muros baixos, rindo de contentes, a impar na vaidade da cor, espigados e satisfeitos da altura acima da parede branca, como quem afirma a endireitar o corpo, já sou grande.
Hoje, a minha rua desamparou. Restam um ou dois casais de meia idade a quem netos e filhos pouco visitam, a vida a exigir deles o que antes pediu a pais e avós; morreram locatários, alguns sem ruído ou rasto; a garota de mais inquieta beleza finou-se no asfalto e devastou três vidas por junto. Houve divórcios e abandonos súbitos, desamores e ódios, lágrimas e gritos que meteram polícia, vícios que deram em morte e mortes que ainda andam por aí, que também devagar nos matamos. Em algumas o letreiro, Vende-se, é sublinhado desastre. Na manhã dos meus passos, olho cada uma como foi, a gente que ali fez ninho ainda adormecida. Que, firmando a vista, reconheço, a minha rua desdentou. Aqui uma morte, ali a ida para o lar, além um emigrante que tarda em regressar, mais atrás um divórcio. E, à medida que os jovens se afastam das minhas bandas, surgem cães e  gatos, pobres substitutos da riqueza que se foi.
Mas, quem sabe, as casas vazias se enchem de novos  casais e em breve no ar  viajam vozes de infância nas invectivas dos jogos de futebol e na contagem até vinte das escondidas. Que ainda os cedros guardam nichos de corpos pequenos. Para quê, não o sabemos.


terça-feira, 2 de julho de 2019

Surpresa: Assis Pacheco


O verão atípico que vivemos e outras desimportâncias, levaram-me a dedicar tempo diário à leitura. Mais tempo.  Termino livros iniciados há séculos, leio romances que me aprazem e outros à experimenta, e até por aqui vou escrevendo mais. Dou-me ao trabalho de pesquisar, na floresta da estante, livros que se esconderam de mim e ofertas que outrora desdenhei. Depois recolho-os por junto, quedo-me uns segundos  a olhar aquele montinho de entretém e ponho mãos à obra. Vou lendo.
Nesta tarefa de pente fino, terminei hoje um livro que merece referência. É pequeno, de artigos dispersos, escorreitos e bem humorados – boa leitura de férias. Recomendo estas crónicas que, há mais de quarenta anos, foram para o ar nas manhãs de domingo da RDP, lidas pelo autor, Fernando Assis Pacheco. A obra dispõe bem e interessa o leitor: em cada texto está um pouco de quem escreve. Não apenas por ser Assis Pacheco a escrevê-lo no seu estilo próprio, mas porque, com frequência, (para não dizer sempre), conta sobre si, desvenda-se ao leitor e logo este – que neste caso sou eu – se sente irmanado nas vicissitudes do escriba e pouco se lembra de terem aquelas palavras quarenta anos. A edição das crónicas lidas ao micro constitui justa homenagem ao talento do jornalista, escritor, poeta, tradutor. E etc. Que foi muita coisa, este Fernando. E do que li, além de talento que não regateio, ficou a imagem de pessoa íntegra, bondosa e bem humorada.
Sou grata a quem de direito: ao jornalista que as imaginou e escreveu; a quem reuniu e publicou as folhas batidas à máquina e não tituladas; e a quem teve o bom gosto de me oferecer, “Tenho cinco minutos para contar uma história”. É um prazer ter Assis Pacheco por perto.



segunda-feira, 1 de julho de 2019

Encontro com Emma Reys


Há três editoras que me fazem o gosto na feira do livro: Quetzal, Alfaguara  e Relógio d’Água. O impulso veio dos nomes – a primeira tem nome de pássaro que perdida a liberdade, morre; as outras têm nomes de água, uma caindo em torrente e a outra gota a gota. E só depois olhei e estudei os livros. Que me agradaram. Acresce que a Alfaguara tem uma benesse extra, as vendedoras são também leitoras acirradas e recomendam os livros tão empolgadamente que nos apetece desbundar nas compras. Tenho uma fé nas meninas da Alfaguara. Este ano calhou-me ser atendida por um jovem; e perdi, o sexo masculino é muito menos interessante nas vendas, quer é despachar. Ainda assim, ouvi uma das garotas a lamentar a falta de tempo por querer comprar à filha um livro de que não retive o nome porque fiquei refém  da sua ternura sonhadora e expectante, eficiência de mãos a enfiar dois Houellebecqs no saco de papel, estou desejando ver o que ela diz quando o ler. E compensou a objectiva destreza do meu atendedor selecto já virado a outra gente.
E portanto estava eu olhando os livros da Quetzal sem intentar compra quando senti que um deles me olhava fixamente. Aproximei-me. Li o título. Folheei. Li um pouquinho. Escrita agradável e fácil de ler. Perguntei o preço. Comprei. Chama-se “O Livro de Emma Reys” e é um conjunto de cartas onde a mesma, que foi pintora colombiana de vida bem aventurosa, conta a sua infância sob a forma de cartas escritas a um amigo. As cartas não são forjadas, o amigo existiu e recebeu-as mesmo. Suponho no entanto que sempre houve o propósito de as publicar em livro (a publicação efectivou-se após a morte de Emma e todo o dinheiro reverte para um colégio como aquele que frequentou, de gente pobre). Acresce que a senhora não falava sobre a infância e ninguém lha conhecia. Mas as ditas cartas são de uma agradabilidade à leitura que as depenei em poucas horas. E se primeiro quis ler, depois fiquei com pena de já ter lido.
O que mais me agradou foi a forma como descreve a sua história. Entendo-a na perfeição. Parece, por aquilo que lemos, que Emma seria uma pessoa muito infeliz. Mas, não sendo feliz, tinha pouco tempo para pensar nesses pruridos de felicidade. E tal. Dá-se a coincidência de Emma ter sido educada num convento por freiras da mesma congregação religiosa em que estudei entre os onze e os vinte anos. Fui aluna externa, interna, e transitei desde o colégio fino ao mais pobre. Inclusivamente, o colégio dos pobres era mesmo um convento. E tinha as exactas e mesmas regras: de levantar, rezar, salas de trabalho e ocupação, serviços, igreja, formatura, bibes e fardas, datas de festas, camaratas só abertas para dormir.... Mas os tempos eram outros. As meninas de mente capaz estudavam fora e todas passeavam aos domingos à tarde com a irmã responsável.   Além disso, veraneavam na praia de Mira e havia excursões em cada período lectivo. Benesses que Emma e as colegas não tiveram, estavam no convento como freiras de clausura. Mas o melhor é ler o livro. Como aperitivo, transcrevo as palavras de um crítico de arte sobre Emma “A lenda de Emma forjou-se a partir da sua própria vida e apesar da sua obra” (Luis Caballero).
Portanto, quem gosta de ler cartas...ao prazer!