Sou
contra a opressão dos silêncios fechados,
raiz de mágoa ou ódio, consoante a natureza de quem os sofre e usa. Sou
pela palavra que arredonda, falha de esquinados embates que laceram. Porém,
fala-se e escreve-se demais sobre o que de menos importa. Hoje, as palavras
perdem-se por arredores e veredas, alheias à utilidade explicativa, à tradução
da humanidade, ao sentimento que enobrece. Fúteis, perdem a densidade outorgada
por razão e sentimento. Mas aparecem. Fogos fátuos do efémero, despidos da
universalidade redentora e do encontro, abandalham o discurso.
No
século XVIII Kant viu a beleza como referencial do encontro entre os homens.
Diz o filósofo que pela contemplação e consideração do que é belo e executado
por eles mesmos, os homens se encontram uns aos outros. Unidos por via da
estética, encontro emotivo que ocorre na profundeza da contemplação. E é isto tão bonito
e verdadeiro que não esquece.
Mas
hoje o silêncio afectivo devém mundo quase deserto. Esse bem estar de
entendimento que une duas pessoas à totalidade, rareia. Campeia a satisfação
individual ou a pares que não irradia senão de um a outro e tanta vez se
consome a si mesma, isenta de difusão. No entanto, a beleza da obra de arte
permanece. Foram criados novos museus, aumenta o número de turistas por país,
cresce anualmente o número de visitas em galerias e museus. Nunca o belo foi
tão badalado e visto. E a queixa não pode ser “o muito que falta ver”. Porque,
arte e leitura não dependem tanto da quantidade quanto da qualidade com duplo
sentido, do sujeito e do objecto. Interessa o modo de olhar, o como de ver ou ler. Dados que apontam o
sujeito. Não há tempo para a contemplação? Mas esta é
a geração que tem mais tempo livre, gasta horas a olhar um écran, seja de TV ou
computador. Viaja pouco? Os nossos anteriores viajavam ainda menos e viviam sem
acesso virtual a museus e obras de arte.
Falta
a gratidão por quem nos legou tanta beleza em estado puro; por quem foi bafejado
pela centelha divina da arte e se prontificou a ser canal; pela vida que temos
e nos permite transcender o quotidiano e contemplar tais maravilhas. Por
estarmos vivos e podermos partilhar o mundo.
É tudo só por fora e de exterior. Olhamos,
mas não vemos.