Como
acontece com a demais gente, penso com fundura e frequência em quem gosto. Por gostar. Ou
devido a premência de razões circunstanciais. São ideias que tomo por naturais,
acompanham-me sem peso, rodeio-me de gente que se não vê a olho nu nem mercê de
microscópio. Desconheço a razão de um desses pensamentos, supostamente tão leve
como os muitos que tenho sobre gente que me é próxima, me instar ao contacto. É
mistério que não penetro, sou penetrada por ele.
Era o teu esteio. Tens esperança. De
quê? Diz. Que esperança resta ao reconhecimento médico de “um mal muito
adiantado”, um mal que “continua lá dentro” depois da cirurgia urgente. Pretendes
o milagre. E não ousas o nome da doença, sou eu que digo por ti, cancro. Atordoada,
reconheces. Assentes. De tão longe, pouco acompanho. Mas não te largo, vou
continuar a ligar.
Em
cuidados de seda, ausculto a tua situação. Presa e enredada num modo de vida
que, propositadamente, te dispõe à dependência. É assim o teu estar no mundo. Palavra,
não entendo. Todas as mulheres que conheço – tens razão, conheço poucas – lutam
por sobreviver, se um dia ficarem sozinhas, estão preparadas. Mas tu sempre
dependeste de alguém para te alimentar: primeiro os pais, depois o irmão,
depois a tia que te leva as refeições a casa. E nem a sua doença te motiva à
destreza da autosuficiência alimentar, antes te levou a outro familiar.
Pagas-lhes, é certo. Serão teus herdeiros seguros.
Uma
pessoa saudável que não se basta a si mesma. Confrange. Mas tenho de aceitar o
que és e acompanhar-te quanto possa. Devo-nos
isso.