domingo, 5 de maio de 2024

E o Povo, pá?!

  Um dia destes fui a Lisboa e, por sobrar tempo, passeei um bocadinho pelo jardim da Gulbenkian. Antes, por desuso de condução no caminho para a cita cidade, tinha aproveitado para me perder. Bom, não interessa. Optimista, fazia tenção de visitar o Centro de Arte Moderna. Mas eterniza-se a concretização do projecto. Portanto, vagueei sem destino fixo em lugar a gosto. Torneei a obra e notei, no sol da tarde,  a relva coalhada de pequenos grupos de jovens, braços nus, mochilas e casacos a trouxe-mouxe, a pobre relva, ai ai, ai, que isto pesa. Os restantes  sentados e de pé eram mães e avós dando aso à liberdade de suas crianças. Como o mundo da infância tudo agiganta! Os garotos que por ali brincam, hão-de lembrar um relvado sem fim e que vai encolhendo à medida que os anos correm. Fui saber o horário da última entrada no museu que aquele Filipe que é visita e nem por isso é grande coisa, não me escapa. E saí. À minha frente seguiam três turistas estrangeiros (não lhes ouvi a fala, seguiam em conversação discreta), mochila às costas, de chinelos em tudo semelhantes a vulgares chinelos de quarto. Não recordo senão outro pormenor que me fez sorrir, não só usavam meias, hábito bastante inglês, como um deles as calçava desirmanadas, um pé enfiado numa meia preta com flores vermelhas e o outro  numa de riscas azuis e cinza. Gostei de vê-los. 

Cheguei à conferência um bocadinho cedo e escondi-me num lugar que acho cómodo e discreto (animal de hábitos). Em casa tinha puxado de um caderno ao acaso (tenho um monte deles, todos de oferta e a maioria em branco) e só quando me preparei para a escrita, antes dos conferencistas, reparei que tinha algumas folhas preenchidas. E porque iniciou com atraso, estive a ler aquela espécie de diário. Diz respeito ao início da prisão domiciliária a que o covid nos conduziu. Curiosamente, não me senti tão sozinha quanto isso.  Embora dos apontamentos conste a solidão inevitável, o tópico principal são os pesadelos, a falta de sono e de liberdade. Que o covid arda num inferno qualquer é o que lhe desejo. 

A conferência versava o 25 de Abril, o dia inicial inteiro e limpo que Sophia cantou. Jaime Nogueira Pinto não é a pessoa mais entusiasta a falar do tema (foi para a Suíça em visita a amigos). Podia não me ter deslocado para o ouvir. Mas acontece que, para além da visão política que tem e repudio, é pessoa que sabe entrelaçar os assuntos, sabe ser objectivo em relação a vários temas de política internacional.  Pensava eu que saberia sê-lo também no tema em análise. Desilusão. Tanta que estive quase. quase, a intervir no momento em que, para falar da fraca disparidade salarial no tempo do salazarismo, começou nos bancários e terminou nos banqueiros, achando que a discrepância nem era assaz grande. Assombra-me que esta gente que se diz remediada e é mais que isso, que tanto lê e sabe, esqueça o povo. É como se não exista para a história. Mas na história do 25 de Abril ele foi essencial, como é que uma mente esclarecida esquece isso?! Só me apetecia perguntar, e o povo, pá?! Mas este é apenas um exemplo. Não se ouviu falar dos pobres, dos que não tinham dinheiro para pôr nos bancos porque lhes faltava para comer e que eram a esmagadora maioria. Todas as belas têm um senão. Bati de frente com ele.

21 comentários:

  1. Jaime Nogueira Pinto é muito inteligente, culto.
    Mas é um homem muito à direita.
    Supostamente um dos ideólogos do CHEGA.
    Não me surpreende essa postura, confesso.
    Boa semana

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  2. Bom, eu esperava algo parecido, mas não a ignorância - deliberada - de um elemento fundamental: o povo. Aquele que foi para as guerras e saiu atropelado de corpo e mente; ou ansioso pela vida normal, ou em vez dele chegou a carcaça num caixão a tresandar, tanto era o tempo de espera para embarcar os mortos. Não se falou das baixas, mas do projecto imperialista; tudo que aconteceu foi corolário desimportante e necessário. Ser de direita ou ultra direita é uma coisa; adulterar os factos extraviando uma variável, é outra. Ou sou eu que não entendo nada de análise.
    Bom dia, Pedro

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    1. Gostava de ouvir o programa Radicais Livres com ele e o Rúben de Carvalho.
      Nos antípodas, politicamente, conseguiam falar de tudo com piada, sem gritaria, com uma erudição invulgar.

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    2. Ora aí está, Pedro. É também daí que o recordo. E é como diz, " de uma erudição invulgar"; nesse ponto não me desanimou.

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  3. Pessoas assim não são ignorantes. São arrogantes. Foi pena não ter perguntado pelo povo. Ele saberia responder? Não havia mais ninguém para falar do 25 de Abril? Que péssima escolha.
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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    1. Julgo que se pretendem várias perspectivas. Graça. Basta olhar para a revista do âmbito cultural do Corte Inglês. Dá-me pena não poder ouvir Guilherme Oliveira Martins que admiro. Paciência.

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  4. 1) Esteve para interpelar o orador mas será que ele a via de tão escondida se encontrava ? :)

    2) Terminei o Voltaire e aproveitando os 50 anos do 25 de Abril escolhi para próximas leituras Os Memoráveis da Lídia Jorge e uma biografia do Salgueiro Maia que entretanto encetei.
    Esta biografia é da autoria de António Sousa Duarte, seu conterrâneo. Conhece?

    3) O médico recomendou-me jantar cedo e evitar o sofá de seguida. E foi assim que há uns cinco anos comecei a percorrer 300 m até ao café do bairro e tomar um descafeinado cheio, antes de voltar a andar outros 300 m de volta a casa, a menos que a noite esteja convidativa para mais deambulações. A clientela nocturna é diferente da matutina onde também bebo o primeiro café do dia, por isso de manhã levo um livro debaixo do braço e à noite o livro fica em casa.
    De manhã é essencialmente à base de senhoras reformadas que vão ali para se concentrarem antes de irem para a ginástica. Ao invés, à noite é totalmente masculina e a única ginástica visível é a da língua de cada um para comentar política, futebol e o que estiver a dar nos dois ecrãs de televisão afixados junto ao tecto.
    E foi assim que me apercebi que os meus companheiros de tertúlia, quer sejam simpatizantes da esquerda ou da direita, todos dizem que este rapazinho é muito inteligente e até parece sobredotado para a idade que aparenta.
    E eu, que a maioria das vezes discordo dos meus parceiros, subscrevo e até o acho com um talento disruptivo.
    Não sei se quando estiver lá por Estrasburgo também vai concluir as suas intervenções no modo que eu o vejo por cá, ou seja , como toureiro a sair da arena a arrastar a capa e a embainhar a espada com que esgrima argumentos políticos sob os aplausos e flores vindos da bancada... ou de padiola.
    Uma boa semana, Bea.

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    1. Joaquim, não posso acreditar que está a falar daquele rapaz mal educado e agressivo que a AD resolveu enviar para Bruxelas, será? Disruptivo é uma coisa boa, não lhe chamaria assim, até o acho muito alinhado... (veja o RAP desta semana)

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    2. Sim é verdade CC, o RAP trouxe-me uma visão que eu desconhecia do rapazinho, mas a gente já sabe que ao RAP dá-lhe gozo e dinheiro mostrar os podres das pessoas, mas ainda assim não gostei. A mim que me incomoda ofender alguém na praça pública, tenho ouvido ao longo dos tempos verdadeiros impropérios da boca de políticos da extrema esquerda à extrema direita. Faz parte, pelos vistos, da função. Quanto aos deslizes, todos os têm.

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    3. 1. sim, Joaquim, da mesa vê-se bem o meu lugar e o inverso.
      2. Está a escapar-me qualquer coisa, quem é o citado rapazinho que agrega votos da esquerda e da direita?
      Já deixei de ver o Ricardo. Usa sempre a mesma tecla e grita quase tanto como a Maria Vieira senhora que julgo inultrapassável em decibéis; bom, Maria Ruef também se esforça. Como disse Jaime Nogueira Pinto, nas novelas portuguesas há muito actor a fazer de actor em vez de interpretar a personagem. RAP enquistou no modelo. Mas por vezes ainda tem graça. Talvez seja saudosismo, mas Os Gato Fedorento é que nos divertiam a valer. Por vezes vejo-os no you tube.

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  5. Oiço-o nos radicais livres e às vezes aprendo umas coisas, lá cultura tem, mas a visão ideológica muito à direita faz com que muitas vezes deturpe ou embeleze a realidade. Não o iria ouvir, confesso.

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  6. Os meus filhos afirmam o mesmo que a CC. Mas gosto de, como S. Tomé, ver para crer. também já o ouvi - muito pouco - nesse programa, uma das razões que me levou a ir vê-lo.

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  7. Sabemos mais sobre o 25 de abril hoje do que há muito tempo.
    Tudo o que for acrescentado para aumentar o nosso saber deve ser feito.
    Continuação de boa semana.
    Abraço de amizade.
    Juvenal Nunes

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  8. Concordo, Juvenal. E talvez até haja da minha parte algum preconceito em relação à personagem. Do meu lado aprendi com a visão de Jaime Nogueira Pinto. E pergunto-me se o que recusa é o 25 de Abril ou o folclore que se faz à volta dele, as abelhas que vão ao mel. De qualquer modo, a resposta à questão do povo mantém-se, embora também seja verdade que a massa anónima é quem combate e para a história ficam os nomes e a intrepidez dos generais. Sempre foi assim. Também lhe notei certo desencanto.

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  9. Apesar de tudo, valeu a pena? Sempre valeu o passeio, pelo menos :P

    Da parte dessa pessoa, parece-me é haver alguma arrogância.

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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    1. olá Cláudia, claro que valeu a pena. O senhor não me pareceu arrogante, diria até que o benefício de o ouvir vem muito de o saber estar entremeado com a sua experiência de vida. Há mais quem não goste do 25 de Abril; assumi-lo, em certa medida, reverte a seu favor.
      boa semana

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  10. Atenta a várias reportagens que só agora passaram fiquei, de novo, consciente do papel de alguns militares de que nem tinha ouvido falar. E especificamente a massa do povo anónimo que "empurrou" a mudança que foi desejada em papéis e em tantos sonhos de anos. Essa pessoa não aprecio mesmo nada e pontos de vista há de sobra.
    A Gulbenkian é como diz, um encanto que perdura, sorte que tivemos. Abç Bettips

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    1. Começando pelo fim: foi mesmo sorte nossa o senhor Gulbenkian ter gostado de Portugal. E é melhor nem querermos saber porquê, podemos encontrar motivos que não quadrem; mas é mercê a que não cesso de ser grata.
      Quando o Corte Inglês não tem público suficiente faz convites (informei-me depois). Não é pessoa que conheça bem, mas não o detesto, é convicto.

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  11. Vale sempre a pena! Saímos da nossa zona de conforto! E a Bea gosta 😊👏😘

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  12. É isso, Gracinha. Além do mais o senhor é, historicamente, um bom observador, tem alguma argúcia. Não quis destruí-lo (nem o conseguiria), só apontar a minha grande discordância acerca de data que me diz muito, sem que uma única vez tenha desfilado na Avenida. Aliás, enquanto menina solteira e boa rapariga, abria a época balnear nesse dia.

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  13. A diversidade está presente em tudo...
    Assim como há quem opte por calçar umas meia com flores e outra de riscas com chinelos (um belo colorido para o imaginar!), também as linhas de pensamento podem ser muito curiosas. Certamente que na linha de pensamento desse senhor, a situação do povo nunca foi importante na equação. Talvez nem soubesse quais eram os seus reais problemas....
    Valeu o jardim... a martirizada mas sempre bonita relva...os detalhes humanos....e, sem qualquer dúvida, esse belo par de meias!

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