As manhãs de domingo eram dedicadas à venda. Nos intervalos da roupa a
corar, do banho dos homens, do apurar do almoço, de um ferro de brasas a pegar
e chispando faúlhas pelas aberturas laterais, um corrupio de vizinhas vinha pelas
novidades. Entravam a endireitar ganchos no cabelo, apertando o avental na
cintura, sacudindo a água que ainda pingava das mãos. Murmuravam um dá licença
prosaico, davam os bons dias e eram todas olhos: desvaneciam. Nascia-lhes alma
nova, que ao pobre qualquer nada satisfaz, e até esse nada se lhes furtava em
demasia. Sobre a mesa e a cama, em pose
convidativa, confortava-as uma luzinha de cidade. Perdiam-se em encantamento,
boca aberta em admiração silente e quase mística. O olhar percorria as peças
num contentamento e só depois, quando o preço e as prestações eram estabelecidos,
lhes sobrava uma tristeza melancólica do quase nada que podiam levar consigo. E
algumas ficavam-se pelo benefício da visão. Ele eram as pequenas delicadezas do
nylon; a subtileza de encaixe em púdicas e ansiosas blusinhas colegiais, gola
subida e rendada; os apelativos conjuntos de dralon em tons pastel, o
casaquinho ilustrando a suprema elegância do pobre: botões de madrepérola;
pequenas joias de pechisbeque que faziam os encantos de quase todas – brincos,
camafeus e anéis de pedra azul, verde, vermelha; calcinhas de folho pregueado, um
modelo no cartão a exibi-las, pernas até sei lá onde e elas esperançosas, quem
sabe se eu assim; sorridentes gorros infantis que apetecia comprar aos pares,
no prazer de vê-los aflorar o rosto dos seus meninos a que chamavam gaiatos a
vida toda; suspensórios masculinos de largura e natureza diferente dos que apreçavam
nas lojas da vila e muito mais bonitos, que bem ficariam nos seus homens,
apostavam de si para si que nem o pneu da barriga se notaria.
Nesses anos, também eu beneficiei das vendas caseiras. E, manda a verdade
que o diga, a vendedora tinha-me particular estima e trazia peças que subtraía
a outros olhares, ainda assim a cobiça não as arrebatasse. Devo-lhe pequenos
mimos que, aliados aos presentes que me foram na mala quando parti a estudar na
vila, nos reaproximaram. Minha avó encanecera e faltavam-lhe as forças.
Caminhava apoiada numa cacheira também chegada da capital. Mas gostava desses
particulares comerciais e juntava o que podia para os meus alfinetes. Se eu
chegava de fim de semana, o que nem sempre acontecia, enfiava-me uma nota
pequena na mão dizendo a antever o meu glorioso contentamento, vá, vai lá ver
se gostas de alguma coisa; se não chegar, compras na mesma, a avó depois paga o
resto.
Entretanto, o Chico regressou e encontrou a mulher com negócio próprio, facto
que beneficiava ambos. Abandonados os receios do Chico e obliterado o chinfrim da
mulher a quem tão prolongada ausência magoara o amor próprio, a Zefa do Prado
garantindo a quem a queria ouvir que lhe negou a cama e o homem dormira por mais
de uma semana no cubículo de Teresa, um divã estreitinho que só visto e em que
mal cabia, de certeza os pés a sobrarem do colchão e a enregelar no rigor
invernoso. A permuta de mercadoria encerrou
a querela e trouxe benefício a ambos - propiciou
novos clientes e engordou as vendas. Ela em casa e ele por fora. A vida não
podia correr melhor.
Ai, adorei! Quero saber mais :D
ResponderEliminarE ela fazia uma coisa que eu gostava de conseguir fazer :)
Beijocas
Então, mãos à obra, Cláudia:)
EliminarBoa noite.
Ai Bea que me lembrou de minha avó, também ela me metia a nota pequena no bolso; a si, para as novidades da "boutique" ambulante, a mim para o cinema.
ResponderEliminarNem queira saber as recordações que agora nesta idade, quando a memória mais me devia atraiçoar, me chegam, umas vezes de mansinho outras em catadupa; elas são imagens das patifarias que lhe fazia (gostava de lhe esconder os óculos para ela não fazer croché), elas são de cheiros da comida que me preparava ao almoço, porque os pais estavam a trabalhar. A feijoada só com chouriço que eu adorava (e que nem minha mãe nem minha mulher igualam e aborrecem dizendo que estava incompleta), a açorda de alho e coentros que eu também adorava e com que substituia a chata da sopa (e que nem minha mãe nem minha mulher igualam e aborrecem dizendo que falta o bacalhau), a feijoada de lulas (ou seria de choco) que nunca mais comi, exceto há um mês atrás no restaurante do meu bairro, muitíssimo boa de temperos mas com feijão encarnado em vez do obrigatório feijão branco (reclamei e responderam que faz gases!).
Que os avós são uma instituição é um lugar comum, que tendo muito de verdade, retira o principal da ligação - o bem-querer, o afecto e o amor trazidos pelo mesmo sangue que corre nas veias. Lá vou ter de limpar os óculos...
Uma boa tarde para si com retribuição de abraço, pingado, por conta da chuva que por aqui cai.
A mim, não, Joaquim, minha avó nunca me deu notas e nem moedas. Mas à garota do conto, sim. Nunca fiz ou provei (que me lembre) uma feijoada de choco.
EliminarBoa noite.
PS: vi o tal filme. Custou-me vê-lo como tudo (aquelas mãos em sangue). Achei formidável a interpretação do professor. Ficamos a pensar que ele conseguiu, que o método resultou? Sou pouco favorável ao perfeccionismo, acho-o desumano se for conseguido assim. Aquele garoto tinha uma data de defeitos que, no futuro, lhe iam dar cabo da vida. Mas ele preferia não ter futuro e ser o melhor. Só que o melhor é cada um realizar a sua humanidade. Digo eu. Mas o rapaz não tinha esse sonho.
A relação professor-aluno é muito gratificante, sobretudo, quando os efeitos desta relação vão além da sua área científica e da arte de expor a matéria - quando o professor passa a marcar a maneira de pensar e agir do aluno pelas suas qualidades intrínsecas e que em muitos momentos desejámos possuir.
EliminarTodavia a influência dos professores também se pode verificar pela negativa. O seu excesso de exigência e severidade podem afectar a vida dos alunos, provocando nestes, sentimentos de insegurança, baixa auto-estima e revolta.
É o caso deste filme e a sua questão de fundo é saber se deve haver ou não limites quando se pretende atingir um nível mais amplo de realização ou mesmo a perfeição.
Boa noite Bea.
Em tudo deve haver limites, Joaquim. O ilimitado não nos pertence.
EliminarPor momentos recordei "eu e minha mãe" há já alguns anos!!!🙏
ResponderEliminarBea...mais um texto que nos traz de volta o viver de outros tempos 👏👏👏... Bj
Foi por aí que começámos, não é mesmo, Gracinha?
ResponderEliminarBom dia:)
Lembro-me bem das notinhas da avó... que o avô não podia ver...
ResponderEliminarE neste momento questionei-me...será que eu tambem vou dar um dia notinhas ao meu neto/netos? Será que eles darão o valor que nós dávamos? Duvido...
(A Bea leva-nos lá atrás com os detalhes dos seus textos, Adorável!)
:))) Os meus avós viveram sempre em comunidade integral, nada se escondia e tudo era comum de dois. Mas conheço bem esse sentimento das avós que escondem o que dão aos netos e onde actua mais o preconceito do que o amor. Porque a avó dá o que pertence aos dois e sai do trabalho do avô, dado que, tanta vez, ela não tem provento próprio. Por outro lado, parece-me uma espécie de chantagem, como se queira dizer que gosta mais dos netos que ele, dando a entender que o avô não pode saber, se iria zangar, etc.
EliminarDos seus netos não sei, anónimo. Posso contudo acrescentar que, na minha família, e enquanto não tiveram ordenado, todos ansiavam pela dita notinha. Tudo depende dos proventos de que beneficiam no quotidiano.
Um dia vou ler isto impresso, tenho quase a certeza:) E aí sim, poderei deliciar-me, já que agora não consigo acompanhar....desculpe-me Bea, maldita vida de vertigem.
ResponderEliminarOra, CC. Ninguém como eu sabe o que é uma vida de vertigem. Fui vertiginosa desde os meus quinze anos:) e só parei na reforma. Portanto, entendo-a perfeitamente. Também pode pensar que lê quando se reforme. Vai estar sempre aqui. E é uma solução mais fácil.
ResponderEliminarBom dia