segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Sombra Chinesa

 

As manhãs de domingo eram dedicadas à venda. Nos intervalos da roupa a corar, do banho dos homens, do apurar do almoço, de um ferro de brasas a pegar e chispando faúlhas pelas aberturas laterais, um corrupio de vizinhas vinha pelas novidades. Entravam a endireitar ganchos no cabelo, apertando o avental na cintura, sacudindo a água que ainda pingava das mãos. Murmuravam um dá licença prosaico, davam os bons dias e eram todas olhos: desvaneciam. Nascia-lhes alma nova, que ao pobre qualquer nada satisfaz, e até esse nada se lhes furtava em demasia.  Sobre a mesa e a cama, em pose convidativa, confortava-as uma luzinha de cidade. Perdiam-se em encantamento, boca aberta em admiração silente e quase mística. O olhar percorria as peças num contentamento e só depois, quando o preço e as prestações eram estabelecidos, lhes sobrava uma tristeza melancólica do quase nada que podiam levar consigo. E algumas ficavam-se pelo benefício da visão. Ele eram as pequenas delicadezas do nylon; a subtileza de encaixe em púdicas e ansiosas blusinhas colegiais, gola subida e rendada; os apelativos conjuntos de dralon em tons pastel, o casaquinho ilustrando a suprema elegância do pobre: botões de madrepérola; pequenas joias de pechisbeque que faziam os encantos de quase todas – brincos, camafeus e anéis de pedra azul, verde, vermelha; calcinhas de folho pregueado, um modelo no cartão a exibi-las, pernas até sei lá onde e elas esperançosas, quem sabe se eu assim; sorridentes gorros infantis que apetecia comprar aos pares, no prazer de vê-los aflorar o rosto dos seus meninos a que chamavam gaiatos a vida toda; suspensórios masculinos de largura e natureza diferente dos que apreçavam nas lojas da vila e muito mais bonitos, que bem ficariam nos seus homens, apostavam de si para si que nem o pneu da barriga se notaria.

Nesses anos, também eu beneficiei das vendas caseiras. E, manda a verdade que o diga, a vendedora tinha-me particular estima e trazia peças que subtraía a outros olhares, ainda assim a cobiça não as arrebatasse. Devo-lhe pequenos mimos que, aliados aos presentes que me foram na mala quando parti a estudar na vila, nos reaproximaram. Minha avó encanecera e faltavam-lhe as forças. Caminhava apoiada numa cacheira também chegada da capital. Mas gostava desses particulares comerciais e juntava o que podia para os meus alfinetes. Se eu chegava de fim de semana, o que nem sempre acontecia, enfiava-me uma nota pequena na mão dizendo a antever o meu glorioso contentamento, vá, vai lá ver se gostas de alguma coisa; se não chegar, compras na mesma, a avó depois paga o resto.

Entretanto, o Chico regressou e encontrou a mulher com negócio próprio, facto que beneficiava ambos. Abandonados os receios do Chico e obliterado o chinfrim da mulher a quem tão prolongada ausência magoara o amor próprio, a Zefa do Prado garantindo a quem a queria ouvir que lhe negou a cama e o homem dormira por mais de uma semana no cubículo de Teresa, um divã estreitinho que só visto e em que mal cabia, de certeza os pés a sobrarem do colchão e a enregelar no rigor invernoso. A  permuta de mercadoria encerrou a querela e trouxe  benefício a ambos - propiciou novos clientes e engordou as vendas. Ela em casa e ele por fora. A vida não podia  correr melhor.

12 comentários:

  1. Ai, adorei! Quero saber mais :D
    E ela fazia uma coisa que eu gostava de conseguir fazer :)

    Beijocas

    ResponderEliminar
  2. Ai Bea que me lembrou de minha avó, também ela me metia a nota pequena no bolso; a si, para as novidades da "boutique" ambulante, a mim para o cinema.
    Nem queira saber as recordações que agora nesta idade, quando a memória mais me devia atraiçoar, me chegam, umas vezes de mansinho outras em catadupa; elas são imagens das patifarias que lhe fazia (gostava de lhe esconder os óculos para ela não fazer croché), elas são de cheiros da comida que me preparava ao almoço, porque os pais estavam a trabalhar. A feijoada só com chouriço que eu adorava (e que nem minha mãe nem minha mulher igualam e aborrecem dizendo que estava incompleta), a açorda de alho e coentros que eu também adorava e com que substituia a chata da sopa (e que nem minha mãe nem minha mulher igualam e aborrecem dizendo que falta o bacalhau), a feijoada de lulas (ou seria de choco) que nunca mais comi, exceto há um mês atrás no restaurante do meu bairro, muitíssimo boa de temperos mas com feijão encarnado em vez do obrigatório feijão branco (reclamei e responderam que faz gases!).
    Que os avós são uma instituição é um lugar comum, que tendo muito de verdade, retira o principal da ligação - o bem-querer, o afecto e o amor trazidos pelo mesmo sangue que corre nas veias. Lá vou ter de limpar os óculos...
    Uma boa tarde para si com retribuição de abraço, pingado, por conta da chuva que por aqui cai.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A mim, não, Joaquim, minha avó nunca me deu notas e nem moedas. Mas à garota do conto, sim. Nunca fiz ou provei (que me lembre) uma feijoada de choco.
      Boa noite.

      PS: vi o tal filme. Custou-me vê-lo como tudo (aquelas mãos em sangue). Achei formidável a interpretação do professor. Ficamos a pensar que ele conseguiu, que o método resultou? Sou pouco favorável ao perfeccionismo, acho-o desumano se for conseguido assim. Aquele garoto tinha uma data de defeitos que, no futuro, lhe iam dar cabo da vida. Mas ele preferia não ter futuro e ser o melhor. Só que o melhor é cada um realizar a sua humanidade. Digo eu. Mas o rapaz não tinha esse sonho.

      Eliminar
    2. A relação professor-aluno é muito gratificante, sobretudo, quando os efeitos desta relação vão além da sua área científica e da arte de expor a matéria - quando o professor passa a marcar a maneira de pensar e agir do aluno pelas suas qualidades intrínsecas e que em muitos momentos desejámos possuir.
      Todavia a influência dos professores também se pode verificar pela negativa. O seu excesso de exigência e severidade podem afectar a vida dos alunos, provocando nestes, sentimentos de insegurança, baixa auto-estima e revolta.
      É o caso deste filme e a sua questão de fundo é saber se deve haver ou não limites quando se pretende atingir um nível mais amplo de realização ou mesmo a perfeição.
      Boa noite Bea.

      Eliminar
    3. Em tudo deve haver limites, Joaquim. O ilimitado não nos pertence.

      Eliminar
  3. Por momentos recordei "eu e minha mãe" há já alguns anos!!!🙏
    Bea...mais um texto que nos traz de volta o viver de outros tempos 👏👏👏... Bj

    ResponderEliminar
  4. Foi por aí que começámos, não é mesmo, Gracinha?
    Bom dia:)

    ResponderEliminar
  5. Lembro-me bem das notinhas da avó... que o avô não podia ver...
    E neste momento questionei-me...será que eu tambem vou dar um dia notinhas ao meu neto/netos? Será que eles darão o valor que nós dávamos? Duvido...
    (A Bea leva-nos lá atrás com os detalhes dos seus textos, Adorável!)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. :))) Os meus avós viveram sempre em comunidade integral, nada se escondia e tudo era comum de dois. Mas conheço bem esse sentimento das avós que escondem o que dão aos netos e onde actua mais o preconceito do que o amor. Porque a avó dá o que pertence aos dois e sai do trabalho do avô, dado que, tanta vez, ela não tem provento próprio. Por outro lado, parece-me uma espécie de chantagem, como se queira dizer que gosta mais dos netos que ele, dando a entender que o avô não pode saber, se iria zangar, etc.
      Dos seus netos não sei, anónimo. Posso contudo acrescentar que, na minha família, e enquanto não tiveram ordenado, todos ansiavam pela dita notinha. Tudo depende dos proventos de que beneficiam no quotidiano.

      Eliminar
  6. Um dia vou ler isto impresso, tenho quase a certeza:) E aí sim, poderei deliciar-me, já que agora não consigo acompanhar....desculpe-me Bea, maldita vida de vertigem.

    ResponderEliminar
  7. Ora, CC. Ninguém como eu sabe o que é uma vida de vertigem. Fui vertiginosa desde os meus quinze anos:) e só parei na reforma. Portanto, entendo-a perfeitamente. Também pode pensar que lê quando se reforme. Vai estar sempre aqui. E é uma solução mais fácil.
    Bom dia

    ResponderEliminar