quinta-feira, 3 de novembro de 2022

Sombra Chinesa

 

As atenções da aldeia assestadas em Jaime, Francisca e Nunes foram deixados em pousio. Mas o tempo não poupou os dois. Cada dia que passava sem notícia, parecia eterno. Diariamente, como Penélope, reconstruíam a esperança no anseio de, é hoje, chega hoje a autorização. Era um tempo de coração na boca. Semanas a fio em espera, obliterando os pequenos problemas diários que, paulatinos, ocupam a mente e vão engolindo as horas. A casa resvalava para o desleixo. No jardim, as flores, sofridas do abandono e enrodilhadas umas nas outras, pasmavam de tanta erva e murmuravam para ninguém queixas de caule sufocado por anémico desânimo, como sobrevivemos a esta invasão, que é das mãos e seus cuidados. Dentro de portas, o mais novo, entregue a si mesmo, naufragava no limbo, o ciúme de mistura com a dor do irmão preso, a constatar, não existo, só gostam dele. Contra vontade, nascia-lhe um inferno revoltoso que o surpreendia. A violência de sentimentos desabava como tempestade inevitável. Feito ainda de ingenuidade púbere, iniciava-se no desconhecido. Ignorava o peso da tristeza madura, o desânimo vital de quem assiste sem préstimo à desventura de um filho e a percebe na sua desfigurada permanência. O peso da impotência.

Nessa época de aflições, ninguém na aldeia conhecia pílulas que descansam a mente e trazem ao redil o sono ausente. Era o tempo de tudo sofrer a frio, demoradamente, sem abébias. Nunes entretinha-se com os motores e quase dormia na oficina. Chegava a casa madrugada alta e adormecia de um fôlego. Mas era o primeiro a chegar.  Emagrecia a olhos vistos, uma escuridão olheirenta afundando os olhos mortiços. Era comum responder com monossílabos, um gesto de mão ou um encolher de ombros; por vezes, um esgar franzia-lhe o rosto.

A casa foi silenciando na espera. Falha de vozes, sorrisos, gritos, sussurros, sofria mal o silêncio:  minguava na falta de luz e arejo, criava cheiros e mofos e até os cortinados de pregas airosas deslaçavam sem graça. Algo semelhante acontecia ao filho mais novo. Mas, se paredes e objectos não podiam fugir à condição, o garoto encetou a fuga e começou a atardar-se por casa de amigos. Enredada no desgosto, Francisca quase agradeceu o facto. A tristeza prefere o silêncio, ama a imobilidade e cultiva o vazio. Valia-lhe a ideia de alimentar os seus. À semelhança do Nunes com a oficina, ela confeccionava as refeições e tratava das compras. A quem a via passar alheada de cumprimentos e num desmazelo de roupas; a quem na mercearia lhe conhecia as exigências ora prescritas; a quem a conhecia desde sempre, parecia outra. Havia nela qualquer coisa de máquina manual a que faltava corda.

4 comentários:

  1. Não tenho, infelizmente, a experiência de ter irmãos e portanto nunca me senti preterido por meus mais em detrimento de.
    Jaime sente que Ernesto é o preferido, como numa escrita inspirada nos conta: "naufragava no limbo, o ciúme de mistura com a dor do irmão preso, a constatar, não existo, só gostam dele".
    Acontecerá em função da situação? Em função do carácter? Em função do sangue? Uma mistura dos três ou ainda sem razão plausível? Não quero especular, obviamente se deve a Ernesto estar preso e com o futuro mais incerto e penoso e a precisar de maiores cuidados.
    Havendo vários filhos, a questão das preferências sempre me interessou e até já falámos sobre isso aqui e o que se retira é que de uma forma geral os pais distribuem o amor, a atenção e a afeição por todos sem desigualdade, quanto muito em razão das necessidades de cada um, das circunstâncias e também um pouco em função das similaridades de feitios, porque também contra isso não se pode lutar.

    Tudo é natural, o que me parece menos natural e até imoral é havendo clara preferência por um filho, dela se dar conta de forma impiedosa ao outro.
    Num livro doloroso e catártico escrito três anos após a morte da sua mãe - "Carta para Minha Mãe” - George Simenon, o criador do comissário Maigret, confessa a incompreensão de uma mãe e de um filho, que acabaram por nunca conseguir amar-se. Já num livro anterior, “Pedigree”, o escritor fizera o retrato de uma mãe dominadora e relata alguns episódios que o marcaram, como quando a mãe, ao falar da morte do irmão mais novo de Simenon, diz: “Que pena que tenha sido ele a morrer!”; ou quando ela lhe devolve todo o dinheiro que ele lhe foi dando durante cinquenta anos para a ajudar.
    Penso que são casos raros, mas sendo raros existem, porque na natureza existe tudo, o bem e mal.
    Como dizia Teilhard de Chardin, ao infinitamente grande da macrofísica e ao infinitamente pequeno da microfísica contrapõe-se o infinitamente complexo - o homem.
    Mas isso nos levaria para uma conversa mais filosófica e este lençol já ultrapassa a cama :)

    Um bom fim-de-semana Bea.

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  2. É como escreve, Joaquim, "na natureza existe tudo, o bem e o mal". E eu afirmo que em cada homem bem e mal coabitam. Se bem que, homem a homem, seja por natureza ou por aprendizagem, a dosagem de cada um dos dois elementos é bastante variável.
    Há gente muito atípica, como foi o caso da mãe de Simenon. Azar de ambos. As relações saudáveis e amistosas entre pais e filhos, acredito eu, são o chão das futuras relações dos mais jovens. Os elementos - pais e filhos - crescem com elas e em conjunto.
    Aprecio os seus lençóis maiores que a cama:).
    Julgo este ciúme compreensível, como o é a atitude dos pais.
    Bom fim-de-semana, Joaquim.

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  3. "O peso da impotência." ... é talvez uma das maiores dores!!!😘

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  4. Gostei, como vem sendo hábito de ler :)
    Fico sempre curiosa com mais e mais e mais

    Beijocas

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