Há
semanas que, ininterrupta, te escrevo. Portanto é chegada a hora de despir a cerimónia. Pois podes descansar
que esta semana o ramo estava farto e concentrado em João Pedro Serra que esteve
à conversa consigo mesmo sobre “A
Metamorfose” de Kafka. A pensar alto, como bem apontou a professora Luísa
Ribeiro Ferreira. Parece que um bocadinho contrariado, o senhor afirma-se
solar e o mundo kafkiano é escuridão de
trovoada. Digo-te que fiquei contente, afinal não sou apenas eu a sentir-me incomodada
com a leitura de Kafka, aquele fechamento real e figurado do texto, a sua
lógica de tecitura hermética e sem uma malha lassa desfigura-me as meninges.
Podes crer. Referiu-se o Pedro que é João, ao sentimento de estranheza e à
resistência do leitor em geral. E hélas, rejubilei mais que num mistério gozozo
(que, desculpa lá o mau jeito, não me dá gozo nenhum; tu como fazes para gostar
de rezar um terço, hem). E depois, olha, meteu-se pelo carreiro da metamorfose
literária e seus significados e por ali andou um nadinha. Que pode ser redutora
quando reduz o homem à sua condição animal; ou espécie de segundo nascimento,
como se supõe que a educação funcione e me é particularmente caro. Mas o que me
trouxe de novo esta elocução foi a importância da porta. A porta que separa sem
separar os dois mundos: o interior do quarto onde ocorre a metamorfose e o
resto da casa onde está a família. Aviso à navegação e para quem não leu a obra:
é um livro pequeno mas acaba mal. Quer dizer, a circunstância condiciona o
desfecho. É a história do jovem Gregor que se sacrifica para sustentar a
família, pais e irmã, e se vê de súbito a mudar para insecto. Isso mesmo, um
insecto consciente. Não foi o jantar que lhe assentou mal, nem se besuntou com
creme mágico que uma bruxa deixou na mesinha de cabeceira. Não há explicação. Mas
acontece, é efectivo, o rapaz assiste à sua transformação em insecto. Aos poucos.
Com tempo para pensar e criar expectativas sobre atitudes familiares. É claro
que uma pessoa começa também a desconfiar de antenas e carapaças a despontar em
qualquer lado e enquanto lê vai dando uma olhada aos braços e às pernas ainda
assim não nos enganem. E o pior, o que mais dói ao personagem e ao leitor, é
que Gregor, que continua a preocupar-se com a família, descobre umas verdades
incómodas e termina sozinhito, abandonado à sua condição de animal estranho. Os
familiares sentem incómodo, nojo, e acabam por abandoná-lo à morte inevitável
que a todos alivia. O enredo termina com a empregada a varrê-lo.
Achei
muito curioso que o professor Serra tenha explanado as influências do livro, se
tenha demorado nas interpretações que existem da obra, tenha feito paciente
resenha da mesma. A título pessoal ficou apenas a ideia da fluidez da
metamorfose que nunca está completamente de um lado ou do outro da porta, tal
como Gregor não é completamente animal ou humano. E remeteu para a questão: o
que é o homem.
Digo-te,
Tolentino, saímos magoados daquele livro. Magoados com o homem. Que é como quem
diz, connosco. Portanto, fica assim, que a missiva já vai longa.
Tem
cuidado contigo. E até para a semana.
Que leveza! Muito leve e quase cómica a desconstrução da impressionante Metamorfose. A sua abordagem é genial.
ResponderEliminarBoa noite, Nina
ResponderEliminarQual leveza e genialidade, Nina. Aquele livro é trovoada que não despega. Mas genial é Kafka, isso sim. A minha abordagem é o lado cómico da angústia do personagem. E é melhor não repararmos bem na coisa ou ainda acabamos a concordar universais que, no fim, sermos varridos é um alívio para todos.