Desculpa
o meu atraso, mas há dias em que as urgências da vida prática protelam a escrita. E
depois o tempo livre enrodilha-se-me no cansaço e – vê tu o que é uma mulher
de nariz virado à terra – apetecem-me filmes, histórias fictícias de bem e de
mal ou apenas de assim, imagens em catadupa que me descansem corpo e mente, um
porque pára e a outra porque abranda no embalo da narração. E foi apenas isto,
continuo a gostar que me contem histórias. Quem sabe todos continuamos a
desejar que nos contem histórias. Não te parece motivo? Mas é.
Pois....deve
ter sido por já estar muita gente de férias, mas a tua igreja clara não encheu
para ouvir falar de Simone Weil pela boca de Fernanda Henriques, muito in no
novo visual – óculos actualizados e
radical mudança capilar. E muito perderam. Não porque a emérita professora
tenha feito prolongada explicação da obra em apreço “A gravidade e a graça”.
Mas por motivos relacionados com este. Em primeiro lugar, a conferencista –
mania de anunciarem os títulos como quem nos predispõe à notícia; estilo,
cuidado com o que pensam, nada de duvidar que ele(a) é mesmo sábio(a) a valer -, Dona Henriques confessou aquilo que eu mesma senti: a estranheza; é um
livro sem ponta por onde se pegue, uma série de fragmentos que importam e revelam
uma pessoa reflexiva. Esta manta de retalhos nem sequer foi administrada pela autora
que morreu jovem – 34 anos - e deixou cadernos de anotações diversas e em
amálgama. Alguém que lhe era próximo organizou o livro numa sequência que nunca
saberemos se seria a sua (um bocadinho platónico-socrático, não te parece). E
tudo isto disse a professora, desabafo que só lhe ficou bem. Mais acrescentou que
a vida de Simone Weil coaduna com a obra: é dispersa e exigente, coerente,
apaixonada, nada linear. E que, estou a citar, “O livro é inapresentável”.
Deixa-me abrir uma espécie de parentesis, dizer-te que foi gratificante ouvi-la
reafirmar o que senti quando tentei lê-lo (mea culpa, não terminei). Portanto, volto a citar, o que
ouvimos foi “um percurso de leitura”. Olha, não te vou falar sobre o livro – os incontáveis
fragmentos que o compõem – mas sobre a jovem Simone. Solitária de enorme
erudição, contraria o costumeiro intelectual. Porque fez acompanhar
as actividades do espírito com as do corpo. Diz Fernanda Henriques que morreu de
tuberculose mas, está a emérita convencida que quis morrer. Deixou
simplesmente de se alimentar. E aqui discordo. Digo-te que apesar dos motivos apresentados – a garota sacrificava-se desde jovem, fazia jejuns e isso -,
conheço essa ausência de apetite da tuberculose, não é uma questão de querer
deixar de comer, é que, além da perda de apetite, torna-se impossível engolir a
bola alimentar por mais mastigada que esteja. Não te sei explicar, mas é assim;
a vontade de viver ausenta-se, o mínimo som é ruído e incomoda, mas falta força para
o contrariar, é tudo longe e despegado; um turpôr avassalante desprende-nos do mundo que passa a desinteresse.
E, além do mais, em 1943 não havia “cura” para a tuberculose.
Estou
a tornar-me dramática, já apaguei dois parágrafos. E portanto vou à refrega das
sextas e continuamos mais tarde, se não te importas. Quem sabe regresso mais alinhada
e menos emotiva.
Fica
bem. E cuida-te. Podes estar longe, nos antípodas – estás sempre nos
antípodas, habitas a transcendência -, preocupa-me na mesma o teu bem estar. Mas acredito na poesia e no
teu coração de ser feliz aos bocadinhos.
(cont.)
Também eu acredito na POESIA e no coração bondoso da bea, e desejo-lhe uma PÁSCOA ABENÇOADA.
ResponderEliminarSomos duas a crer na poesia:). Obrigada pelos votos que retribuo. Tenho bom coração, não sei se bondoso.
EliminarTento acreditar na poesia de quem tem uma alma poética... e naqueles que como a Bea consegue que a prosa vire poesia!!! Uma Santa Páscoa!
ResponderEliminarObrigada, Gracinha. A poesia é uma coisa boa para acreditar, não é viperina, só lemos a que desejamos e quando nos apetece, e aquece a alma, tem chama.
ResponderEliminarSabe que metade de Portugal usa prosa poética? Vivemos num país de poetas:), uns em prosa e outros em verso. Restam os analfabetos funcionais.
Há-de ser uma Páscoa trabalhosa (já está a ser), mas alegre. Vai ser.
Tudo de bom para si nesta quadra de renascer.
Bea, desconfio dessas publicações póstumas. Cheira-me a sofreguidão pelo malvado €. Aconteceu-me ler um livro publicado a título póstumo de Jorge Amado, o grande, o enorme escritor. Foi um fiasco. Coisa mal articulada, tipo corta e cose, uma ofensa para o autor. Decidiram ( os herdeiros, suponho) aproveitar apontamentos de viagem e pariram coisa ignóbil. Não me lembro do título - é para esquecer.
ResponderEliminarSabe, Nina, já senti exactamente isso com outros autores. E acho até sacrilégio que se façam edições do que o autor não achou com valor suficiente para...é como diz, só mancham o nome dos autores. Mas uma pessoa morre e deixa de mandar no que é seu, fica sem voz. Uma tristeza.
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