sexta-feira, 19 de abril de 2019

Olá Tolentino:)


Desculpa o meu atraso, mas há dias em que as urgências da vida prática protelam a escrita. E depois o tempo livre enrodilha-se-me no cansaço e – vê tu o que é uma mulher de nariz virado à terra – apetecem-me filmes, histórias fictícias de bem e de mal ou apenas de assim, imagens em catadupa que me descansem corpo e mente, um porque pára e a outra porque abranda no embalo da narração. E foi apenas isto, continuo a gostar que me contem histórias. Quem sabe todos continuamos a desejar que nos contem histórias. Não te parece motivo?  Mas é.
Pois....deve ter sido por já estar muita gente de férias, mas a tua igreja clara não encheu para ouvir falar de Simone Weil pela boca de Fernanda Henriques, muito in no novo visual –  óculos actualizados e radical mudança capilar. E muito perderam. Não porque a emérita professora tenha feito prolongada explicação da obra em apreço “A gravidade e a graça”. Mas por motivos relacionados com este. Em primeiro lugar, a conferencista – mania de anunciarem os títulos como quem nos predispõe à notícia; estilo, cuidado com o que pensam, nada de duvidar que ele(a) é mesmo sábio(a) a valer -, Dona Henriques confessou aquilo que eu mesma senti: a estranheza; é um livro sem ponta por onde se pegue, uma série de fragmentos que importam e revelam uma pessoa reflexiva. Esta manta de retalhos nem sequer foi administrada pela autora que morreu jovem – 34 anos - e deixou cadernos de anotações diversas e em amálgama. Alguém que lhe era próximo organizou o livro numa sequência que nunca saberemos se seria a sua (um bocadinho platónico-socrático, não te parece). E tudo isto disse a professora, desabafo que só lhe ficou bem. Mais acrescentou que a vida de Simone Weil coaduna com a obra: é dispersa e exigente, coerente, apaixonada, nada linear. E que, estou a citar, “O livro é inapresentável”. Deixa-me abrir uma espécie de parentesis, dizer-te que foi gratificante ouvi-la reafirmar o que senti quando tentei lê-lo (mea culpa,  não terminei). Portanto, volto a citar, o que ouvimos foi “um percurso de leitura”. Olha, não te vou falar sobre o livro – os incontáveis fragmentos que o compõem – mas sobre a jovem Simone. Solitária de enorme erudição, contraria o costumeiro intelectual. Porque fez acompanhar as actividades do espírito com as do corpo. Diz Fernanda Henriques que morreu de tuberculose mas, está a emérita convencida que quis morrer. Deixou simplesmente de se alimentar. E aqui discordo. Digo-te que apesar dos motivos apresentados – a garota sacrificava-se desde jovem, fazia jejuns e isso -, conheço essa ausência de apetite da tuberculose, não é uma questão de querer deixar de comer, é que, além da perda de apetite, torna-se impossível engolir a bola alimentar por mais mastigada que esteja. Não te sei explicar, mas é assim; a vontade de viver ausenta-se, o mínimo som é ruído e incomoda, mas falta força para o contrariar, é tudo longe e despegado; um turpôr avassalante desprende-nos do mundo que passa a desinteresse. E, além do mais, em 1943 não havia “cura” para a tuberculose.
Estou a tornar-me dramática, já apaguei dois parágrafos. E portanto vou à refrega das sextas e continuamos mais tarde, se não te importas. Quem sabe regresso mais alinhada e menos emotiva.
Fica bem. E cuida-te. Podes estar longe, nos antípodas –  estás sempre nos antípodas, habitas a transcendência -, preocupa-me na mesma o teu bem estar. Mas acredito na poesia e no teu coração de ser feliz aos bocadinhos.
(cont.)


6 comentários:

  1. Também eu acredito na POESIA e no coração bondoso da bea, e desejo-lhe uma PÁSCOA ABENÇOADA.

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    1. Somos duas a crer na poesia:). Obrigada pelos votos que retribuo. Tenho bom coração, não sei se bondoso.

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  2. Tento acreditar na poesia de quem tem uma alma poética... e naqueles que como a Bea consegue que a prosa vire poesia!!! Uma Santa Páscoa!

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  3. Obrigada, Gracinha. A poesia é uma coisa boa para acreditar, não é viperina, só lemos a que desejamos e quando nos apetece, e aquece a alma, tem chama.
    Sabe que metade de Portugal usa prosa poética? Vivemos num país de poetas:), uns em prosa e outros em verso. Restam os analfabetos funcionais.
    Há-de ser uma Páscoa trabalhosa (já está a ser), mas alegre. Vai ser.
    Tudo de bom para si nesta quadra de renascer.

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  4. Bea, desconfio dessas publicações póstumas. Cheira-me a sofreguidão pelo malvado €. Aconteceu-me ler um livro publicado a título póstumo de Jorge Amado, o grande, o enorme escritor. Foi um fiasco. Coisa mal articulada, tipo corta e cose, uma ofensa para o autor. Decidiram ( os herdeiros, suponho) aproveitar apontamentos de viagem e pariram coisa ignóbil. Não me lembro do título - é para esquecer.

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  5. Sabe, Nina, já senti exactamente isso com outros autores. E acho até sacrilégio que se façam edições do que o autor não achou com valor suficiente para...é como diz, só mancham o nome dos autores. Mas uma pessoa morre e deixa de mandar no que é seu, fica sem voz. Uma tristeza.

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