quinta-feira, 12 de abril de 2018

Vizinhos


Receei que ressonassem demais, se erguessem antes do sol a esmãozinhar pelo quarto. Sei lá que tropelias nocturnas imaginei nos pobres velhotes. Mas tudo que aconteceu foi haver um largo intervalo de silêncio circundante. Mal anoitecia, logo uma quietude de nada a mexer, só o fundo de trânsito na rua. Gosto de pensar que saíam a chegar a si casacos e cachecóis, passinhos trôpegos na frieza da noite. Que se sentavam num café próximo a celebrar morenaços cafés com leite e iam à sessão das nove no cinema mais próximo. Ou, mal cruzavam a porta, desapareciam misteriosamente e, durante duas horas, evolavam-se para outra dimensão.
 É raro que a realidade valide o sonho.  Neste caso, não havia coincidência: os meus vizinhos não punham um pé na rua. Desciam para jantar e ver televisão e só depois reviviam no quarto ao lado. Ouvia a voz da mulher a perguntar e um sussurro mais grave sem interrogação na ponta. Depois as vozes iam espaçando, os pontos de interrogação falhavam aqui uma frase e ali outra, o tom decrescia, o comprimento das mensagens minguava. Até ao silêncio. Dormiam, talvez.
Não eram bonitos, os meus dois vizinhos. Olhei-lhes a foto e vi-os em presença. Rosto sem riso. Armadura de séria polidez. Há gente a que os anos lavam as saliências. Não resta uma aspereza, um montículo, um prurido que seja. Quiçá a idade lhes tenha polido a garridice. E os deixe  tão lisos e anódinos que não se dá por eles. Nada lhes ressalta, brilha, clama. Habituados ao de sempre, tudo estranham. Certa manhã, o elevador trazia um ocupante. Camisa e casaco, cabelo ainda no uso de pente. Viu-me frente à porta, baralhou-se, os olhos num susto, “donde estoy?”.
E é isto.

4 comentários:

  1. No apartamento do Porto passa -se o mesmo!
    Na aldeia é quase uma festa pois conhecemos todos!
    bj

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  2. No apartamento do Porto passa -se o mesmo!
    Na aldeia é quase uma festa pois conhecemos todos!
    bj

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  3. Há vizinhos assim...

    Convidamos a ler o capítulo IX do nosso conto escrito a várias mãos "Voar Sem Asas"
    https://contospartilhados.blogspot.pt/2018/04/voar-sem-asas-capitulo-ix.html

    Bom fim-de-semana.
    Saudações literárias!

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