Receei
que ressonassem demais, se erguessem antes do sol a esmãozinhar pelo quarto.
Sei lá que tropelias nocturnas imaginei nos pobres velhotes. Mas tudo que
aconteceu foi haver um largo intervalo de silêncio circundante. Mal anoitecia,
logo uma quietude de nada a mexer, só o fundo de trânsito na rua. Gosto de
pensar que saíam a chegar a si casacos e cachecóis, passinhos trôpegos na
frieza da noite. Que se sentavam num café próximo a celebrar morenaços cafés com
leite e iam à sessão das nove no cinema mais próximo. Ou, mal cruzavam a porta,
desapareciam misteriosamente e, durante duas horas, evolavam-se para outra
dimensão.
É raro que a realidade valide
o sonho. Neste caso, não havia
coincidência: os meus vizinhos não punham um pé na rua. Desciam para jantar e
ver televisão e só depois reviviam no quarto ao lado. Ouvia a voz da mulher a
perguntar e um sussurro mais grave sem interrogação na ponta. Depois as vozes
iam espaçando, os pontos de interrogação falhavam aqui uma frase e ali outra, o
tom decrescia, o comprimento das mensagens minguava. Até ao silêncio. Dormiam,
talvez.
Não
eram bonitos, os meus dois vizinhos. Olhei-lhes a foto e vi-os em presença.
Rosto sem riso. Armadura de séria polidez. Há gente a que os anos lavam as
saliências. Não resta uma aspereza, um montículo, um prurido que seja. Quiçá a
idade lhes tenha polido a garridice. E os deixe tão lisos e anódinos que não se dá por eles.
Nada lhes ressalta, brilha, clama. Habituados ao de sempre, tudo estranham. Certa
manhã, o elevador trazia um ocupante. Camisa e casaco, cabelo ainda no uso de
pente. Viu-me frente à porta, baralhou-se, os olhos num susto, “donde estoy?”.
E
é isto.
No apartamento do Porto passa -se o mesmo!
ResponderEliminarNa aldeia é quase uma festa pois conhecemos todos!
bj
No apartamento do Porto passa -se o mesmo!
ResponderEliminarNa aldeia é quase uma festa pois conhecemos todos!
bj
:)
ResponderEliminarHá vizinhos assim...
ResponderEliminarConvidamos a ler o capítulo IX do nosso conto escrito a várias mãos "Voar Sem Asas"
https://contospartilhados.blogspot.pt/2018/04/voar-sem-asas-capitulo-ix.html
Bom fim-de-semana.
Saudações literárias!