Bateu-me no rosto mal a porta abriu e entrei no quarto aquecido. Um odor forte a mofo,
decomposição disfarçada a poder de desinfectante. Logo confirmado, sim, temos
os mais velhos. Portanto, os mais velhos. Os velhíssimos. Os que não queremos
por perto, cheiram a bafio específico, não ouvem, “baralham-se das ideias”
alijados de beleza que os salve, física
e mental. Os velhos meus vizinhos. Na
porta de cada um, a foto. Não uma foto juvenil e estuante; nem sequer de calma madureza;
a foto de sem cabelo, pele enrugada, a boca uma fenda que mirrou por ausência de
riso, olhos fixos, falhos de expectativa. Talvez a fotografia ajude à
identidade, relembre cada um de si mesmo.
Nos
dias seguintes, encontrei-os em carreirinho para o pequeno almoço. Velhinhas mirradas
e trajadas de preto, olhar de pássaro, aduncas como corvos; velhos cinzentos,
camisa e casaco, passo titubeante, completamente outros do que foram. Em terra
de gente palradora, pouco conversavam. Teriam fome e a nada atendiam, fixos na satisfação
da necessidade. Ou morre assunto a quem tem noventa anos e aguarda a primeira
refeição do dia. Alguns respondiam à minha saudação e, sem um virar de pescoço,
acompanhavam-me no breve do ângulo de visão, como quem mira filme que
desinteressa. No elevador, prolongava-os e remanescia o cheiro
ácido de urina a casar com o hálito de jejum envelhecido.
E
no entanto cruzei uma velhinha de lindos caracóis brancos e andarilho. Seguia para o pequeno almoço,
sorriso rasgado em baton vermelho sangue. Não era jeitosa nem magra, não vestia roupa elegante ou moderna. Mas passeava um ar de asseio composto que se bastava no sorriso de encher mundos. E a alegria dos olhos a condizer. Na sua porta
há-de haver uma fotografia diversa, um friso de caracóis brancos a emoldurar a boca vermelha em sorriso
integral.
Uma realidade bem retratada numa belíssima prosa!bj
ResponderEliminarUma realidade bem retratada numa belíssima prosa!bj
ResponderEliminarOs velhos que entendo cada vez melhor:). Grata pela visita
ResponderEliminarNão gosto do termo velho, em nenhuma das línguas que sei falar, quando se refere a pessoas. É deprimente. É derrogatório. Não gostaria que me chamassem assim quando atingir uma determinada idade.
ResponderEliminarOs cuidados que já não têm tem muitas vezes a ver com o esquecimento e a falta de cuidado dos que deveriam prestar-lhes atenção. É uma situação triste. E não deveria ser.
Gostei do texto.
:)
Podem chamar-lhe idosa:). Eu posso ser velha, aliás, já sou. E gosto do termo, não me deprime. As pessoas são todas diferentes, o que serve a uns não serve a outros.
ResponderEliminarPois é uma situação triste. Poderia deixar de ser triste se a velhice fosse outra coisa. Mas não é.