À
noitinha, ela passa aos gritos e acorda a rua, o barulho a ganhar volume com a proximidade dos passos
errantes. Tem mau vinho e asneira forte num sotaque de norte
furibundo que ressoa, qual lâmina, nos vagares gerundinos dos nossos ouvidos. No
emparelhado das casas, nem uma alma ousa descerrar persianas. E nem vontade. Dentro,
há um recolher de silêncio feito dor e pena. A rua petrifica no estupor da
gritaria ébria. Não sei quem seja, vem talvez da taberna da esquina e segue a
caminho de casa. Cresci no pavor enojado de bebedeiras. Assisti muito vómito de
vinho, homens que me pareciam cordatos a espumar, rapazes que bebiam até cair e
ficavam sem trambelho, nojice animal enrolada no chão, gente vulgar que virava
monstro raivoso e corria a família a murro e cinto. E quanta pobreza desvalida
bebia de véspera o almoço do dia seguinte!
O
vício no feminino só me foi apresentado mais tarde, anos depois da morte delas.
Mulheres que sempre me pareceram apenas estranhas e afinal eram alcoólicas.
Conservavam-se num alcoolismo manso e supostamente escondido. Não gritavam, não
batiam nos filhos e netos. Trabalhavam. Mas caíam com frequência. Joelhos
esfolados, nariz roxo, um lanho na testa. Conheci-as na meia idade. Teriam
começado como esta garota, toldadas dos pés à cabeça, vociferando rua fora todo
o género de revoltas e alarvidades?! Não. O tempo era outro. O vício é que é o
mesmo.
E
que agonia ouvi-la. Vê-la.
Boa tarde. Visitando, lendo e elogiando o seu blogue e as suas publicações, que gostei muito.
ResponderEliminar.
* Cavalo e Amazona - amizade sem tempo ( Poetizando) *
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Votos de um domingo poético
Obrigada:)
ResponderEliminarVidas complicadas.
ResponderEliminarTerá filhos? Um marido? passa por vezes acompanhada por uma voz masculina, baixa e suave que por certo quer convencê-la a chegar a casa sem escarcéu. O que a levará a ser assim?! Pode ser mal de família, conheço casos. E pode que não. Há sempre uma razão. Mesmo que não apague, ajuda a compreender.
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