Chegaste
de vaso na mão e, num meio sorriso de menino, disseste em tom desculposo, “está
a morrer, vê se podes fazer alguma coisa por ela.”. E pousaste sobre a bancada uma
suculenta a abarrotar de criação.
Entregue a encomenda, foste à tua vida. Descansaste. Doravante, era comigo.
Vida ou morte. Observei o vaso minúsculo sem um espaço livre, uma micro selva de
folhas carnudas e aguçadas que despontavam em todas as direcções. Pensei que
havia erro no teu vaticínio, a planta transpirava de rebentos novos. Erro meu.
Via o chapéu, mas não os pés. E são os pés que andam.
À
tardinha, fui investigá-la melhor. Mal tentei desvasá-la, esfrangalhou-se-me
mãos fora, num pedido de socorro tão instante que me deixou sem jeito, os
rebentos escapando sob a incredulidade dos meus dedos incapazes, a isolarem uns
dos outros no pavimento solado. Tão verde e a morrer. Tinhas razão, morria de
tanto procriar. Morria de tanto alimentar o sonho de vida. Não o seu, sufocado
no centro do vaso, em tamanho de desistir. Alimentava o sonho de vida dos seus
rebentos. Mãe vegetal e esquecida, estiolando em cedência de alimento e espaço
de raíz. Repartia-se inteira e completa. Desapareceria se tal lhe fosse
possível. Quando lhe tomei o corpo exangue e desagarrado de terra, entendi o
despojamento.
Enquanto
procedia à operação de resgate e salvamento, vasinhos em fila indiana, lembrei
minha mãe, “não se mudam flores em Janeiro”. Mas não havia outra solução. Envasados
à unidade. À mãe, para não restar solidão, deixei dois filhos por perto e
alarguei espaço e terra.
É
possível que ao plantá-los lhes tenha aberto a sepultura. Só Deus sabe. Rezo ao
deus natural das plantas, que zela por água e alimento, que desvia moscas e
piolho nocivo, que as faz crescer e lhes dá folhas e flores. E espero neste
esforço comum de todos. Quem sabe se não contrario a maldição de Janeiro e
daqui a uns tempos te devolvo a suculenta e seus rebentos...
Asa plantas exigem carinho e dedicação. E mesmo assim nem toda a gente tem sorte em elas crescerem e se fazerem lindas como a natureza
ResponderEliminar.
Tema: * O Silêncio da Luzência em noite escura *
.
Continuação de um Ano Feliz
Bom dia
Obrigada pela visita e como algo simples conduziu a um texto escrito repleto de criatividade!!!
ResponderEliminargosto ...
O filho está recuperando bem!
A novidade de hoje é aqui:
https://mgpl1957.blogspot.pt/2018/01/pensamentos-luz-das-velas.html
bj