Hoje
encontrei-te por entre as folhas dos meus cadernos. Páginas e páginas escritas
a meias. De um lado, a minha letra certinha; do outro, os teus riscos a caneta
de feltro, linhas gigantes, de alto a baixo da folha, bonecos cabeçudos com
mãos solares, dedos abertos como raios. E o teu nome em maiúsculas de imprensa.
Imagino-nos. Estamos sentados à camilha, tu no meu colo. Sentas-te no meu
joelho esquerdo e a minha mão, também esquerda, envolve-te o corpo pela cintura.
Temos o caderno aberto. Dei-te um conjunto de marcadores que já te sujaram as
mãos e a que enfias e desenfias a tampa com pormenores de importância, como
quem abre e fecha um cofre. Tomas conta da página esquerda e eu da direita. Tu
desenhas, eu escrevo.
Presumo que te cansavas de esperar até eu virar a página e recomeçarmos os dois.
Presumo que te cansavas de esperar até eu virar a página e recomeçarmos os dois.
Mais um caderno a guardar. Dentro dele, existimos. Pairamos no testemunho das páginas. Os dois, tu de um lado e eu do outro. Pouco me interessa o que
escrevi, eram nulidades da profissão. Mas os teus desenhos enternecem-me, olho a
força parada do bico de feltro no papel, uma sarda azul ou violeta a alargar, e
meço as hesitações nas letras do teu nome que, em alguns casos, tem o F ao
contrário. A Rua Sésamo, que amavas de paixão, foi a tua cartilha. Ali, aprendeste
a ler e escrever, lembras-te?
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