O polícia olhava seriamente na minha
direcção (sendo benévola comigo, estaria a verificar
se eu era um dos residentes). Portanto, guiei até ele, encostei, abri o
vidro e perguntei, estou mal aqui? Não vejo outros carros a
circular... A resposta veio em gume, a senhora não viu os pinos? Não
pode circular. E eu, mas só sei este caminho...lá `a frente a
circulação também está cortada? E a carranca, pois claro que
está. Insisti, e agora vou por onde? E ele, agora sai e segue para a
esquerda e depois de umas ruas volta à avenida. Agradeci e enquanto
fazia a inversão de marcha com os olhos dele tão fixos no meu
veículo como os da minha gata enquanto espera os pássaros, pensava
atabalhoadamente, não posso virar à esquerda, não sei sequer que
ruas existem ali (também desconhecia as da direita mas enfim).
Resolvi que continuava em frente na esperança de que houvesse por
ali uma rua que me permitisse virar à direita. O semáforo estava
vermelho e os dois veículos na minha frente abriram o pisca para a
direita. Imaginei que se eles continuassem a virar à direita talvez
segui-los fosse boa ideia. Tive sorte: viraram à direita e não
seguiram em frente, antes meteram por uma via de três faixas e aí
perdi-os de vista porque o meu único palpite era a exigência de
voltar a virar à direita; logo, mantive-me nessa faixa enquanto
lhes dizia adeus que já aceleravam noutras direcções. Ainda me perdi
ligeiramente num caminho secundário mas voltei à faixa da direita
na esperança de encontrar uns semáforos conhecidos. E é que os
encontrei mesmo. A partir daí foi canja. Andei a virar aqui e ali
para conseguir chegar antes das 14,30. E cheguei. Carreguei as
coisas, subi no elevador mais rápido e antes de meter a chave à
porta ela abriu-se e o meu filho num sorriso terno e descansado, estava a ver
que não chegavas a horas. Estivemos uns minutos à conversa e logo
de seguida lá foi para a sua reunião de trabalho. Acionei a via
verde, arrumei o que levara e saí. Tinha uma data de recados para
fazer até às dezoito.
Dei
conta de quase tudo. Avancei para a linha vermelha e fui até ao
Corte Inglês para a sessão Poemar, Viagens pela minha Terra (em
verso alheio). Quando me sentei na sala, carregada de encomendas,
suspirei tão longamente que a colega do lado me olhou, facto não vulgar. Ali, as pessoas ou se conhecem e falam baixo umas com as
outras, ou nada acontece. Na situação, nada devia acontecer, denunciou-me a fundura dos suspiros. Creio que nem tirei
o caderno. O Poemar é de sentir e não de escrever. Foi tão bonito
ouvir os poemas na voz de Rui Spranger, por vezes acompanhado do
mentor José Anjos e com música de Sara Santos Ribeiro. E como a voz
se alterava, e chegava a parecer outra, consoante o poema! Agora mordaz, agora troçando ternamente, ou onda raivosa que se levantava voraz e tudo varria. Tinha
lanchado no Metro, já sem tempo para o fazer mais tarde, mas, do tanto que fiz, nada me caiu tão bem como a poesia. Foi água para a
minha sede. E para ali fiquei, planta ressequida, a embeber, a
embeber, as folhinhas desmaiadas arrebitando contentes. Bom, falta dizer
que os poemas eram todos sobre a cidade do Porto (pelos vistos antes
houve poemas do Minho e de Trás-os-Montes). Poemas e prosa poética.
Gente que desconhecia e gente que logo identifiquei. Por exemplo, a
prosa de Miguel Torga, ainda que não tenha lido O Reino Encantado e
nem Portugal. José e Rui nasceram no Porto a Sara é de Lisboa, mas
eles atiraram-lhe ao sorriso com Manuel Pina, “Eu não nasci no
Porto, nasci-me no Porto”. A selecção de poemas e poetas foi
feita com critério, os filmes (pedaços), sobretudo de Manuel de
Oliveira, constituíram momentos telúricos que cimentaram o ambiente do norte e portuense; não me perguntem sobre a música, parece-me ter
ouvido apenas alguns acordes. A voz sim, bebi-a inteira.
Um
grande bem haja ao Corte Inglês e a José Anjos pela sensibilidade
com que aborda os temas e o bom gosto na escolha de quem traz
consigo. Em mim, valeu.
Nota:
alguém deu uns tiros no placard da velocidade média e virou as
câmaras para o ar. Portanto, andámos todos a arriscar, felizes da
vida. Já as arranjaram e não fui informada. Daqui a uns tempos
recebo duas multas. Mas agora não vou pensar nelas.