sexta-feira, 12 de abril de 2019

miudezas


Sou mulher à antiga. Antiga de pensamento e acção, não de figura, que não destoo. Postas as coisas assim, jogo aberrante entre o que pareço e o que sou, muito ano medeia entre as duas de mim. Creio até que habituei os outros a este anacronismo das ideias nem sempre conveniente. Fui ensinada e estou absolutamente convencida que ninguém existe para si, e embora a felicidade seja, em determinada idade,  aspiração natural, é coisa pouca para quem é homem e vive muito ano. Não que saiba para que nasci ou tenha ideia do que seja essa beatitude feliz. E lá vem o enredo. Porque hoje as pessoas existem para si e querem à viva força ser felizes; cada um parece saber concreta e factualmente para que nasceu e a mais simples conversa emerge prenhe de objectivos e infla de relações causais. No meio de tanto expert, ataranto desfasada. E no entanto, vejamos, até meu pai dá por este retardamento. Quando vou a sua casa, como as boas empregadas de limpeza de outros tempos, ajoelho a lavar o chão. Estico braços e mãos de escova em punho, para cá, para lá, para cá, pra lá. Ali. Olhos perto da sujidade, arrastando-nos (eu e o balde a fumegar). Da última vez, acercou-se do contingente branqueador e avançou o de hábito, deixa isso, lava com a esfregona. E eu, posta assim naquele espectáculo de devolver o chão a si mesmo, coisa por demais importante, já se vê, aceno-lhe displicente com a mão, estilo, desampare-me a loja e deixe-me trabalhar à vontade que as pilhas não duram sempre. E ele, usa a esfregona filha, e a pôr-me debaixo dos olhos e ao alcance da mão, um pano do chão por estrear, que terá comprado para meu uso. Ah, ah, ah....pois é.
E hoje o braço direito mais meu que o esquerdo. Desde a raiz do ombro, estou aqui, estou aqui, como se eu não soubesse onde mora. E é claro que bem queria nadar com elegância de movimentos, ser peixinho em aquário. Ser o que nunca serei, que as barbatanas me nasceram tardias. Mas algum peixe chega aos calcanhares do meu prazer?!


quinta-feira, 11 de abril de 2019

Como a Seiva que Corre


Passar assim, devagar, olhos vogando pela esperança dos campos pontilhados e multicores. Notar a ternura clara da folha nova no montado. Reter a cabeleira espessa e ainda penteada dos sobreiros que se anunciam a dois tons, folhedo  que murmura tentens, pernitas ainda enroladas e em arco.  As folhas de muito ano num incentivo, estiquem-se, virem-se para o sol, não custa nada; vá, dêem só um jeitinho que a gente apara qualquer golpe de vento, descansem que não caem. E elas pequenas, o verde principiante num arrepio ténue, e se nos partimos a desdobrar. A impaciência das mais velhas apostrofando num agastamento, esquecidas de si bebés, mimadas! Desenrolem, caramba. Pensam que o sol espera por vós, está bem, está. Tratem mas é de crescer enquanto ele amorna que daqui a nada vira braseiro e torra-vos a delicadeza. E as meninas singelas, todas fragilidade de ós e ás miudinhos e de escândalo a despontar, puxando pela seiva envergonhada enquanto tartamudeavam a lição, virar para o sol, ui que me encandeia, esta luz cega-me as nervuras, ó mana passe-me aí os óculos escuros, se faz favor.  As folhas-mãe fazendo colchão, sorrisos à boca pequena, que fiteiras, as garotas; e tão lindas, mas é preciso puxar-lhes as orelhas ou não se aguentam ao verão.
Quem passa ignora estes concílios a céu aberto. Passa  a mirar a claridade verdosa e pujante das árvores e reflecte, que aura de santidade têm os sobreiros na primavera...

Estrelas


Gosto

- de ir à Fnac e ter poder de compra. Mirar livros lendo nomes de autores e títulos, estudar as promoções, colher um aqui e logo o deixar, prazer de levar dois pelo preço de um. E regressar a casa na satisfação de um saquinho pequeno cheio de minutos de evasão. 

- de experimentar peças de vestuário e deambular por certas lojas com vagar que ninguém repara;  não serão preferência,  mas permitem a aquisição de uma ou outra peça de roupa. Devolvem a vaidade necessária e situam a realidade individual. 

- de observar as pessoas no Metro, um mar de opacidade fechada em tons cinza, cortado aqui e ali por barcos ancorados e alegres:  cuidados de pai com o filho de colo; a exuberância feliz da garota toda garras e gangas, insubordinação de joelhos nos fiapos das calças; o rapaz do acordeon que usa um cãozinho amoroso e a quem não resisto, ilusão de Montmartre no halo de ternura animal, patinhas finas empoleiradas no leque da caixa de música. 

- dos indícios de futuro que a juventude mostra de quando em quando: saber que Martim Sousa Tavares criou a Orquestra do Futuro e que não é carro que queira guiar, é boa nova. Por ser de música que se trata e haver nos portugueses um défice assaz extenso; por apoiar as zonas interiores sempre tão sozinhas; por ser projecto que reúne dois países e muita boa vontade. E que haja continuação e se expanda, como deseja o jovem maestro. 

- da secreta certeza que me existe sem razão.


terça-feira, 9 de abril de 2019

Olá Tolentino:)


Tenho a dizer-te que armei em preguiçosa e não fiz o TPC,  “Ulisses" não ficou nem a meio. Carlos João é um sábio e terá sido por isso que me enfastiou um bocadinho na juventude. Mas a velhice traz algumas – poucas – coisas boas e passei a ouvi-lo de gosto.
Convém precaver-te: em termos de informação fidedigna, não ligues muito ao que escrevo. Sei que os oradores colocam a sua prelecção no site da capela, mas cinjo-me às pessoalíssimas impressões. Nem espreito o que a sabedoria deu à pena. Portanto...vamos a factos. Que é como quem diz, impressões. A grande certeza é que a obra dá conta do que se passa num único dia, um dia fundamental que o próprio Joyce viveu e que transporta para a vida de Dédalus um dos três personagens do livro (eu até sei a razão desse dia ser tão fulcral, mas não me apetece contar). Outra certeza é que o livro não deve – acrescento que não pode – ser lido como um romance. “Ulisses” é uma epopeia onde Joyce tenta, através de todos os recursos linguísticos e usando os mais diversos estilos de escrita, dar conta da corrente de consciência, desses flashes que surgem e se misturam uns nos outros. Portanto, “Ulisses” é um livro redentor,  forma nova de escrita. Não descreve a aparência de realidade como fazem outros escritores, pretende chegar à realidade ela mesma. Parece – e talvez seja – literatura com pendor filosófico. A ideia de que Joyce tenta entender a relação entre os sentidos e a realidade tem cheiro de filosofia, sim. Mas, o que me pergunto é se essa tentativa de surpreender os flashes da consciência não está também ela erguida sobre a “enganadora” percepção. Se essa tentativa de ver com olhos fechados atentando apenas aos sons, ”fecha os olhos e vê”, não se filia ainda nos mesmos elementos. Bom. O que me fez sentido foi haver uma escrita que pretende surpreender a realidade, a amálgama do que acontece no interior do pensamento. Por ser verdade que muito nos acontece e se pensa em simultâneo e que raro é o pensamento que se cinge a um único assunto. 
Digo-te que ouvia Carlos João falando do livro e me lembrava dos romances de Lobo Antunes. Não que sejam a mesma coisa. Mas é que encontro em Lobo Antunes essa tentativa da simultaneidade de pensamentos vários, esse delírio que é a mente humana enquanto é. Dirás tu que não tem nada a ver. É a tua opinião.
E Carlos João trouxe o seu lado de esteta e mostrou pinturas, fotos de filme, retratos, trechos de Virginia Woolf e até a Mrs Dalloway, obra que parece seguir a linha de Joyce.
Não te ensinei nada? Paciência. Mas vais gostar disto. Joyce parece que leva o tempo a perguntar ao longo do livro “qual é aquela palavra que todos os homens conhecem”. E sabes o que responde, olha, diz que é o amor. Lembrou-me aquele aluno de Matilde Rosa Araújo, sete anos verdes, “o amor tem de haver”.

PS: os teus paroquianos dizem que têm saudades tuas - disseram claramente dito - e até contaram uma historinha que te inclui. Ao micro. E o anjo parece calmíssimo. Tão lindo.


sábado, 6 de abril de 2019

Mudanças de Mau Cair


O meu amor pela escrita de Lobo Antunes é irrevogável. Enreda-me. Espevita-me. Sofro de privação se o livro novo demora. E agora? Bem sei que o senhor é livre; que é velho; que está surdo e sobreviveu a três cancros; que não é eterno. Sei tudo isso. Mas que querem, falta-me na revista Visão. É que me FALTA. E, portanto, eu que não ligo pêva a notícias e sou a pessoa mais desinformada do mundo dito civilizado, para quem os mexericos são insectos indesejáveis. Que também não vou para nova e a maior parte do tempo quero é que o mundo vá dar uma curva e não me chateie. Eu, assinante da revista por mor de uma crónica, vou, como diz meu pai, desriscar-me.  
É verdade que comprei livros e já li as crónicas de Agualusa e Dulce Maria Cardoso, senhora toda finesse e feminilidade que ouvi numa conferência. Mas é que não é a mesma coisa e nem sequer parecido. Falta-me a loucura de Lobo Antunes; o humor subtil que aqui aponta o kitch de cada um e ali se enche de ternura; falta-me o povo que sou e ele diz tão bem; falta-me o néctar das suas metáforas que não assistem nem existem em mais ninguém; as suas repetições, pedrinhas postas a bordejar buracos grandes, avisos de “cuidado, areias movediças”; faltam-me as meias frases de confidência intercalada, “antes de o livro terminar”,  cuspo nos dedos ao voltar da página; falta-me tudo que é ele só.  A alma múltipla que vai deixando a fosforecer prosa afora.
Se tivera o seu endereço, escrevia-lhe a agradecer o tanto que deu e dará aos seus leitores.  Sei bem que está consciente do seu valor, que há até quem o garanta vaidoso e amigo de desconchavos verbais. Desimportâncias.  Há que reconhecer em vida o trabalho e a obra de quem é grande. António Lobo Antunes é Grande. Ponto final.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Colo


Tenho,  a espaços, a veleidade de ser Deus. Um Deus de coisas pequenas que, por exemplo, desfastia a adiantar os dias da semana. Acontece-me. Portanto, esta semana, a quinta-feira escafedeu. Ficam duas sextas seguidinhas. Porque sim. Às vezes, sem razão - que razão pode haver, nenhuma -, as habituais plumas ganham densidade, empapam. Mas , à sexta, não há peso que me apoquente as clavículas; ossinhos mais delicados, bonitos mesmo, as clavículas, até apetece fazer-lhes uma vénia, cumprimentar, bom dia, meninas clavículas. Qualquer dia tomo balanço, faço de Deus irrisório e mudo o calendário: decreto, para mim mesma, semanas de feira única, a sexta. Descansem, mudaria apenas a ordem do meu mundo. O prazer que me dá escrever isto, mesmo sabendo que não posso efectivar tal desejo. Bem gostaria de escrever, não devo. Mas não, é pura incompatibilidade. E agora, não sei porquê, lembrei-me das mães que já não carregam os filhos no colo porque têm cadeirinhas ergonómicas e todas salamaleques. E há um bem nas cadeiras porque são isto e aquilo; porque respeitam a coluna em formação da criança; atentam na postura do bebé; facilitam o transporte; transferem-se para o automóvel e detêm segurança máxima. Ora, tudo que é segurança máxima, prende. A segurança é o coração de um a bater de encontro ao corpo do outro; é o calor que se desprende e penetra; é estar rente ao cheiro da pele,  sentir o aconchego dos braços, a ternura das mãos, a alegria e a tristeza do sorriso enquanto se caminha ou se outra coisa qualquer. E ser vizinho de um rosto. Isto, qualquer bebé agradece a vida inteira. Agradece ele e todos os que o rodeiam e com ele privam.
E pronto. Já está.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Olá Tolentino:)


Há semanas que, ininterrupta, te escrevo. Portanto é chegada a hora  de despir a cerimónia. Pois podes descansar que esta semana o ramo estava farto e concentrado em João Pedro Serra que esteve à conversa consigo mesmo sobre  “A Metamorfose” de Kafka. A pensar alto, como bem apontou a professora Luísa Ribeiro Ferreira. Parece que um bocadinho contrariado, o senhor afirma-se solar  e o mundo kafkiano é escuridão de trovoada. Digo-te que fiquei contente, afinal não sou apenas eu a sentir-me incomodada com a leitura de Kafka, aquele fechamento real e figurado do texto, a sua lógica de tecitura hermética e sem uma malha lassa desfigura-me as meninges. Podes crer. Referiu-se o Pedro que é João, ao sentimento de estranheza e à resistência do leitor em geral. E hélas, rejubilei mais que num mistério gozozo (que, desculpa lá o mau jeito, não me dá gozo nenhum; tu como fazes para gostar de rezar um terço, hem). E depois, olha, meteu-se pelo carreiro da metamorfose literária e seus significados e por ali andou um nadinha. Que pode ser redutora quando reduz o homem à sua condição animal; ou espécie de segundo nascimento, como se supõe que a educação funcione e me é particularmente caro. Mas o que me trouxe de novo esta elocução foi a importância da porta. A porta que separa sem separar os dois mundos: o interior do quarto onde ocorre a metamorfose e o resto da casa onde está a família. Aviso à navegação e para quem não leu a obra: é um livro pequeno mas acaba mal. Quer dizer, a circunstância condiciona o desfecho. É a história do jovem Gregor que se sacrifica para sustentar a família, pais e irmã, e se vê de súbito a mudar para insecto. Isso mesmo, um insecto consciente. Não foi o jantar que lhe assentou mal, nem se besuntou com creme mágico que uma bruxa deixou na mesinha de cabeceira. Não há explicação. Mas acontece, é efectivo, o rapaz assiste à sua transformação em insecto. Aos poucos. Com tempo para pensar e criar expectativas sobre atitudes familiares. É claro que uma pessoa começa também a desconfiar de antenas e carapaças a despontar em qualquer lado e enquanto lê vai dando uma olhada aos braços e às pernas ainda assim não nos enganem. E o pior, o que mais dói ao personagem e ao leitor, é que Gregor, que continua a preocupar-se com a família, descobre umas verdades incómodas e termina sozinhito, abandonado à sua condição de animal estranho. Os familiares sentem incómodo, nojo, e acabam por abandoná-lo à morte inevitável que a todos alivia. O enredo termina com a empregada a varrê-lo.
Achei muito curioso que o professor Serra tenha explanado as influências do livro, se tenha demorado nas interpretações que existem da obra, tenha feito paciente resenha da mesma. A título pessoal ficou apenas a ideia da fluidez da metamorfose que nunca está completamente de um lado ou do outro da porta, tal como Gregor não é completamente animal ou humano. E remeteu para a questão: o que é o homem.
Digo-te, Tolentino, saímos magoados daquele livro. Magoados com o homem. Que é como quem diz, connosco. Portanto, fica assim, que a missiva já vai longa.
Tem cuidado contigo. E até para a semana.