Sou
mulher à antiga. Antiga de pensamento e acção, não de figura, que não destoo.
Postas as coisas assim, jogo aberrante entre o que pareço e o que sou, muito
ano medeia entre as duas de mim. Creio até que habituei os outros a este
anacronismo das ideias nem sempre conveniente. Fui ensinada e estou
absolutamente convencida que ninguém existe para si, e embora a felicidade seja,
em determinada idade, aspiração natural,
é coisa pouca para quem é homem e vive muito ano. Não que saiba para que nasci
ou tenha ideia do que seja essa beatitude feliz. E lá vem o enredo. Porque hoje
as pessoas existem para si e querem à viva força ser felizes; cada um parece saber
concreta e factualmente para que nasceu e a mais simples conversa emerge prenhe
de objectivos e infla de relações causais. No meio de tanto expert, ataranto
desfasada. E no entanto, vejamos, até meu pai dá por este retardamento. Quando
vou a sua casa, como as boas empregadas de limpeza de outros tempos, ajoelho a
lavar o chão. Estico braços e mãos de escova em punho, para cá, para lá, para
cá, pra lá. Ali. Olhos perto da sujidade, arrastando-nos (eu e o balde a fumegar).
Da última vez, acercou-se do contingente branqueador e avançou o de hábito,
deixa isso, lava com a esfregona. E eu, posta assim naquele espectáculo de
devolver o chão a si mesmo, coisa por demais importante, já se vê, aceno-lhe
displicente com a mão, estilo, desampare-me a loja e deixe-me trabalhar à vontade
que as pilhas não duram sempre. E ele, usa a esfregona filha, e a pôr-me debaixo
dos olhos e ao alcance da mão, um pano do chão por estrear, que terá comprado
para meu uso. Ah, ah, ah....pois é.
E
hoje o braço direito mais meu que o esquerdo. Desde a raiz do ombro, estou
aqui, estou aqui, como se eu não soubesse onde mora. E é claro que bem queria
nadar com elegância de movimentos, ser peixinho em aquário. Ser o que nunca
serei, que as barbatanas me nasceram tardias. Mas algum peixe chega aos
calcanhares do meu prazer?!