Pergunto-me ao longo dos dias, se o que sinto é saudade; se este cinza de alma nasce da tua falta conjugada com a impossibilidade de substituição. Criei absoluta consciência de que o irremissível da morte nos fez impossíveis uma à outra. Não tenho sonhos bons contigo, nunca tive. Tu que sempre foste pacífica, a quem nunca, nem uma vez, ouvi um grito, e tiveste o último filho em casa, povoas as minhas aflições nocturnas. Não porque estejas, apenas porque não estás e te necessito severamente. Ou porque afinal nem morreste, era falsa a notícia da tua morte, encontras-te em hospital que ignoro e corro léguas por ti (por que razão andarei sempre a pé?). Mas não te encontro. Acredito que nem em sonhos alguma vez nos encontraremos.
Talvez a eternidade e o espírito religioso, que nos acompanham desde os primórdios, sejam o sonho do homem, uma forma de não se defraudar com o efémero que nos sujeita; ou serão um prémio menor, qual guloseima, entretém de criança que lhe interrompe a choradeira. Porque todos queríamos – e isso é indiscutível - a vida como a conhecemos, com todos os que, até ao fim, fizeram a diferença dentro e fora de nós; a vida com os contratempos e surpresas que nos medem as forças e trazem novas pessoas e oportunidades; a vida com a beleza estranha e patética que lhe atribuímos.
O eternamente bom, por mais que o pensemos, não seduz. Falta-lhe a efémera e frágil medida humana. Será que te encontro de novo nesse hipotético mundo de satisfação sem falhas?! Mas o que seremos então?! A sermos, seremos outras. Não um outro eu. Mas uma diversa natureza. O que quer que nos caracterize não terá dimensão humana. Estaremos talvez tão desligadas como nunca fomos. E, no entanto, não concebo, seja qual for a forma que (e se) assumirmos, a suposição de que passemos incógnitas uma pela outra. Isso, eu sei sem saber: não acontece.
De ti herdei a afeição, a sensibilidade, a alegria e o gosto por cantar. Também certo desleixo com a aparência, a aceitação da transcendência e a compaixão. Não tenho a tua voz maviosa, nem o teu discernimento inteligente; faltam-me os teus silêncios compreensivos e talvez nos meus olhos não habite aquele amor intransponível que tinhas por nós quatro. É verdade que no início lutei contra ti e me insurgiam comparações, talvez por saber que saía a perder; ou porque a juventude se quer sem muleta.
Garanto: nunca entenderei como sobrevivi à tua perda. E menos entendo qual a utilidade disso. Viver contigo e de ti foi o melhor da minha vida. Obrigada.
Falei ontem com a minha mãe.
ResponderEliminarPara lhe dar uma série de boas notícias.
Boa semana
Também dou à minha as boas e más notícias, ainda que ela as saiba de antemão:).
ResponderEliminarBom dia, Pedro
Que amor, que beleza!
ResponderEliminarÉ um imperfeito amor. Como todos são:).
ResponderEliminarBoa noite, CC.
Também sinto saudade e recordo com angústia os seus momentos de sofrimento e de alegria! Sinto-me feliz por ter partilhado momentos infindáveis a seu lado! Dela herdei a "garra" de viver e a tenacidade! Bj
ResponderEliminarAs heranças, genéticas ou não, são o bem que resta e dura enquanto formos, não é Gracinha? E mais não há.
ResponderEliminarBom dia para si:)
Verdade! A Terceira é linda! Os impérios atraem o olhar... a manta de retalhos relaxa a mente e a paisagem verdejante serena o coração! Uma bela ilha... bem diferente das outras que visitei! Bom fim-de-semana 😘
EliminarVivendo mais ou menos tempo junto das nossas mães, todos guardamos com ternura algo das suas naturezas, saber e afectos. Infelizes os que não o sentem.
ResponderEliminarHerdados ou não, os dotes da Bea para escrever e expressar as suas emoções é mesmo muito bom. Estou certa que a sua mãe "sentiu" o amor que emana dos intersticios deste seu post.🤍
Tenho quase o dobro do tempo que viveu. Se nos encontrássemos hoje, seria eu a mãe? Não o creio. Há lugares que não se substituem, continuam a existir-nos até ao fim. Acredito que a maternidade e a paternidade pertençam a essa categoria. Por bem. E por mal. E lamento deveras quem não lhes sinta a falta. Muito insensível será.
EliminarMinha mãe escrevia muito bem e jamais se deu conta do poder que detinha. Tanto se gastou noutros caminhos. Em muitos casos, a vida planta imperativos e exigências que obstruem outros caminhos.
Bom dia, Dulce! Bem haja pelas palavras tão bonitas que aqui plantou
Lindo texto... Mas o que mais me tocou, foi mesmo a última frase.
ResponderEliminarNem quero imaginar mais nada... Imagino só a dor. Coragem, Bea.
Cláudia - eutambemtenhoumblog
A morte, Cláudia, como bem sabe pelo seu avô, faz ainda parte da vida. Faz parte da vida dos outros. E encerra a vida de cada um. É o ponto final no fim da frase.
EliminarÉ terrível ver o sofrer sem esperança quem gostamos. E desumano para o padecente. Sem remorso o digo, desejei muita vez o ponto final.
Mas fica a herança, genética ou não, e a memória. Quero crer que os amados mortos não nos abandonam.
Um beijinho, Cláudia. Tenha cuidado consigo.
Uma sentida homenagem à mãe, mesmo que na sua ausência física, é uma manifestação de carinho e saudade.
ResponderEliminarAbraço de amizade.
Juvenal Nunes
As mães são como canta Drumond de Andrade, "luz que não se apaga quando sopra o vento", ou ainda, "mãe não tem limite, é tempo sem hora".
ResponderEliminarBom Dia, Juvenal
Entendo. Para mim Mãe está ausente e presente, todos os dias. Nos gestos, nas falas, nas lembranças, até de como fazia os cozinhados. Da ternura e da perda dela. Abç Bettips
ResponderEliminarEu quero acreditar que a vida não acaba aqui e que nos encontraremos com os entes amados seja lá em que forma for. As recordações da vida que tivemos com eles são por si sós encontros.
ResponderEliminarA lembrança, para mim, não é um encontro. É o que a mental pobreza humana consegue, o seu máximo. A lembrança é, em mim e ainda que não completamente, um diálogo de mim comigo. Se não houvera memória e imaginação, o que seria de nós?!
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