quarta-feira, 7 de maio de 2025

Martha Freud (?)

 

        A primeira vez que ouvi falar de Freud tinha dezassete anos e gostava um imenso do professor de Psicologia. Era uma personalidade singular: se nos olhava, via-nos realmente; nesse momento éramos o mais importante para ele e, apesar dos óculos muito graduados, lá no fundo das lentes havia uns olhos iguais aos de ninguém, todos humanidade derramada. O meu professor de psicologia era um sujeito baixinho, magro, sempre de invariável fato cinzento; tinha boca pequenina e parecia fazer um biquinho quando falava porque tinha uns dentinhos para a frente e ligeiramente encavalitados; era e ainda é em mim uma figura adorável. Muito querido e respeitado por todos os alunos, entre nós era carinhosamente tratado pelo diminutivo do apelido. Dava aulas como só ele sabia e usava de rigor nas apreciações e classificações. A nota de psicologia aferia a medida do bom aluno. Já não recordo o seu primeiro nome. Mas nenhum outro mestre se imiscuiu tão dentro de mim. Quando adoeci gravemente, foi visitar-me, acção que me encheria de espanto se estivesse no meu juízo perfeito, e foi exclamativa figura de estilo para as freirinhas. Não me levou flores, nem doces; antes desenterrou um subsídio escolar extra e, quando fui incapaz de assinar o papel a confirmar o que me tinha sido entregue, guardou-o no bolso e sorriu a dar-me palmadinhas na consternação, “não tem importância”. Por acaso ou bondade divina, assistiu-me a duas ou três aflições. Numa delas, levou-me com ele a beber uma bica. Suponho ter sido a minha estreia em cafés e em bicas. Concluo hoje que era alguém inteiramente capaz de se pôr no lugar da outra pessoa; daí saber sempre como agir. Aquela ida ao café, dada a minha circunstância, foi superiormente adequada.

        Bom. Tanto deitar de conversa fora veio a propósito do último livro que me ofereceram, Autobiografia não escrita de Martha Freud, de Teolinda Gersão. Ora o termo Freud lembra-me as aulas de psicologia. Daí este parêntesis que durou um enorme parágrafo, indicador da minha infinita gratidão e respeito. 

        Voltando ao tema: estou perto de terminar a leitura da obra. O certo é que sempre me intrigou a relação entre Martha e Freud. Não por curiosidade feminina, ou sequer por saber dela algum pormenor. Basta olhar fotos de Freud e ler as suas teorias para reconhecer que não terá sido uma pessoa de convívio fácil. Ignorante de tudo, dizia eu para os meus botões, grande paciência terá tido aquela mulher. E agora, Teolinda resolveu escrever sobre ela a partir das cartas dele. Quem sabe, a escritora foi dominada por idênticas perplexidades. E resolveu dar o corpo ao manifesto, pesquisar as cartas de Freud e mais os livros que descrevem aspectos da sua vida pessoal. O romance (muito pouco romanesco) é sem dúvida um grande trabalho de investigação a partir do qual nasce essa autobiografada de nome Martha, e que é namorada, noiva, mulher de Freud; e lhe sobrevive. Estou em crer que o pioneiro do inconsciente como impulsionador da acção era um despotazinho que fazia mau viver. Ciumento incurável - e logo inseguro -, exigindo à noiva simbioses ideais e despersonalizantes, bastante contraditório nas suas afirmações. De acordo com as cartas, e apesar dos seis filhos, não nos aparece como pessoa muito motivada para o sexo. A pseudo Martha afirma que o marido o considerava mesmo como causa de uma série de males (do que lhe estudei, tinha interpretado que só o mau sexo ou a falta dele seriam motivo de distúrbio). É claro que nenhum de nós sabe se esta Martha coincide com a do realmente. Pronto, é um romance. O que sabemos, vem-nos da Martha de Teolinda misturada com o que se adivinha da Martha mulher de Freud, a partir das cartas do pai da psicanálise. Essa Martha, parcialmente criada pela escritora, surge-nos como “pessoa comum” e dentro desse “ser comum”, irrompe perfeita. Interroga na hora certa e interroga-se; nunca se diminui a si mesma, mesmo se aparenta tal ou cede às obsoletas exigências freudianas; tem sempre o pensamento certo perante os erros cometidos pelo marido em relação a si mesma ou aos que lhe são queridos. E foi imensamente cerceada nas suas aspirações e desejos pelo tirano Freud que apenas pensava em si mesmo e nas suas teorias e trabalhos.

        Sobre as paixões e adições de Freud ainda há o que dizer. E mais. Portanto, mal tenha uma aberta nas tendinites e bursites e o liquido não sei onde que me tira o sono, mais o raio que os partam, cá estarei a contar.

Entretanto, fiquem com Deus e os anjos dEle e nossos.

26 comentários:

  1. Fiquei encantada com a descrição desse professor. Fez-me lembrar um meu, mas não era de Psicologia. Esse, no Secundário, era chato. Acabei a estudar Psicologia sozinha e tirei melhor nota do que a estudar com ele...

    Esse livro deve ser interessante e fiquei curiosa com essas diferenças na personalidade.

    Bom dia, Bea

    Cláudia - eutambemtenhoumblog

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    1. Todos tivemos um professor(a) especial, não é Cláudia? Mas o meu professor de psicologia era mesmo alguém único; dizem que também a mulher, célebre pela cidade inteira e professora de filosofia no antigo liceu. Não a conheci.
      O Freud do romance é péssima pessoa, vaidoso, orgulhoso, egoísta na quinta casa, e mais. Mas parece que bastante inteligente e apostado no trabalho. À parte a mania de que todos os desvios se deviam a problemas da sexualidade infantil, é fora de dúvida que lhe devemos a relevância do inconsciente nos comportamentos conscientes. Acho que deu uma facada na filosofia:).

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  2. Teolinda Gersão, indirectamente ligada à minha infância pelo pai.
    Homem que me tratava por Senhor Coimbra ainda eu era um menino.
    Melómano, muito culto, um eterno curioso.
    Bfds

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  3. Talvez a filha saia ao pai. É escritora de respeito, leva a sério o métier.
    Bom dia, Pedro

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  4. Tive um professor de psicologia que era cego e com o qual aprendi a gostar da disciplina! Tive outro, por sinal director do Magistério que era tão exigente que me "obriguei" a continuar a amar a disciplina 🫢... Bj

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  5. Os professores primários têm sempre alguma coisa em comum, não é Gracinha? Foi no Magistério que tive o imenso prazer de beneficiar das aulas do professor de psicologia, pessoa que, só por si, valia todo o curso.
    O director do Magistério era professor de pedagogia e, além de me ter dito no exame de admissão que, em história, eu não sabia nem do passado nem do presente, nada mais ficou. Hoje verifico que tinha razão; por natureza, sou avessa à notícia e há um lado de mim que sobrevive alheio ao tempo, nunca sabe às quantas anda. Somos cada vez mais os mesmos:).
    Bom domingo, Gracinha
    Bom dia, Gracinha

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  6. A descrição do professor de psicologia está o máximo. Gosto muito da Teolinda Gersão e da maneira como, ela constrói as narrativas. Essa ideia de escrever um livro usando as cartas é muito curiosa. Por outro lado nunca gostei do Freud. E nem sei porquê.
    Tudo de bom (que a sua tendinite melhore).
    Um beijo.

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    1. É verdadeira, a descrição. Quanto a Freud: há que distinguir o teórico da pessoa e não endeusar nem um nem o outro. Vou de certeza melhorar, Graça; desci, agora é a subir:)

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  7. Já tinha dado pela edição deste livro...e estou muito curiosa...gostaria mesmo de o ler. E como é evidente...gosto muito de Psicologia:)

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  8. Também julgo que gostará de o ler, CC:).

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  9. Sem (me)denunciar, continuo a achar que Freud tinha uma ideia bem certa de como a infância e os nossos traumas nos acompanham toda a vida. Com vontade de ler o livro, gosto da autora. E, claro, gosto da forma como a Bea descreve as situações, por mais simples que pareçam. Abç Bettips

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  10. Também gosto de Teolinda e do seu trabalho. No caso, mostra-nos Freud e a humanidade que (e como) o atravessava. A força do inconsciente não existe apenas nos outros, mas também nele (e nela). Duvido mais daquela Martha; e dela não existem cartas. Mas a liberdade da romancista também tem lugar, não é?
    Agora que a minha mão recusa obedecer à mente, fica-me mais tempo p a leitura. Finalmente comprei Conta-Corrente vol. I.
    Um abraço, Bettips

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    1. ... nem me fale... Desde Junho do ano passado, tive de fazer 2 operações, uma em cada mão, ao túnel cárpico. A última foi há quase 2 mese e ainda estou assim-assim. Coisa que eu desconhecia, esses nervos dos túneis. Só digo isto aqui em público para a animar. Espero que melhore e que encontre alternativas. Abç Bettips

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    2. Parece que não, mas saber que outros sofrem do mesmo mal ou semelhante, ajuda:). Coisa parva, esta de nos animarmos com a companhia na dor. Mas os meus sintomas não têm a ver com o que conta, Bettips. É antes qualquer coisa que, entretanto - talvez mercê do gelo - , me desceu dos ombros para os braços e afecta com maior incidência o lado direito:); aliás, o que chamamos movimentos finos, foram-me difíceis desde o início dos sintomas. Velhice de um raio.
      Rápido restabelecimento, Bettips. O pior já passou:).
      Um abracinho

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    3. Pois eu sei que ajuda, a moral e o sentimento, quem nos entende. E é solidário. As mãos, os ouvidos, os olhos, tudo o que nos faz falta, além do pensamento. Um abracinho também. Post scriptum: vou passar perto, segundo imagino do que fui lendo... De Coruche para mais abaixo. As melhoras Abç Bettips

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    4. Seja bem vinda, Bettips. Onde quer que esteja/ou visite:). Acho que o meu mal está a passar. Foram semanas para o difícil. Veremos.

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  11. Bom dia Bea, como vai a sua saúde (o que lhe aconteceu à mão é grave ou temporário)?
    Nunca encontrei em mim grande reflexo das teorias de Freud, nem dos sonhos, nem do subconsciente, nem da sexualidade infantil, quanto muito somente aquela de como os traumas da infância se repercutem mais tarde na vida adulta. Mas não sou entendido, é apenas como sinto as coisas, mas apreciava as conversas do programa do professor Amaral Dias sobre Freud & Maquiavel na rádio.
    Beijei com os olhos os seus apontamentos sobre S. Miguel (titulá-los de minudências não lhe faz justiça, nem a si, no modo como captou, nem ao lugar), que conheço e portanto aproveitei para revisitar após muitos anos e o parque Terra Mostra é tal como descreve, embora a sua beleza, como se percebe, não caiba no texto.
    Para mim é um mistério como é que algumas pessoas têm a capacidade inata ou construída de fazer arte literária utilizando os mesmos vocábulos que qualquer outra pessoa.
    Digo-o sem ponta de inveja, antes com a confissão de que alinhavar um comentário me é tão penoso como para um inábil é um trabalho de carpintaria.
    Com a irregularidade que a vida me permite, cá a vou seguindo, umas vezes de mais perto, outras só longe, sempre em admiração.
    Tenha um bom dia Bea.

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    1. Espero que não seja grave e seja temporário. Grata pelo interesse, Joaquim. Com a abundância de sintomas que os exames revelaram, estou a preparar-me psicologicamente para abandonar - de todo - a natação. A gente vai-se despojando do que gosta. Mas inda falta o decreto médico:). Jamais, na minha santa ingenuidade, eu imaginara que deixaria de escrever. Mas já provei a amostra. Quando a realidade se impõe, o homem(e a mulher) aprende. Vergílio Ferreira é que tem razão.
      Sobre Freud, se não se importa, deixo para um próximo post. Digamos que tenho profunda crença na influência do inconsciente sobre acções conscientes. Agrada-me o contraditório: admitir que as acções e escolhas ditas racionais têm tb um fundo que o não é. Lamento não ter ouvido tal programa; fui procurá-lo em podcast da TSF mas não encontrei:(.
      Minudências são os ditos pormenores que são pormaiores:). A nossa vida faz-se deles, têm a consistência de marcos.
      E não se faça de modesto, o senhor comenta como ninguém. Comungo desse maravilhamento que detêm alguns dos nossos escritores; como é que eles, usando os mesmos signos que nós, lhes conseguem uma luz tal?! E creio que nem eles sabem. Acontece.
      De mais perto ou mais longe, que a vida e os dias lhe sorriam, Joaquim.
      Bom Dia:)

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  12. O que achou interessante Teresa? Freud? Martha? Teolinda? O meu professor que Deus terá na sua glória?!
    Volte sempre.

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  13. Queremos sempre saber mais das figuras que admiramos.
    É natural, faz parte do ser humano.
    Abraço de amizade.
    Juvenal Nunes

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  14. Creio eu que, mesmo que não amemos, a curiosidade humana é um veículo potente:)
    Bom fim de semana, Juvenal.

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  15. Olá Gina, não tinha percebido que o teu mal-estar fisico se manifestava na dificuldade em escrever . Espero que isso passe rápido pois seria uma pena!...
    Quanto a Freud tenho a mesma impressão que tu no que respeita a não ter sido fácil de aturar! Coitada da Marta!... Mas não sei se estou interessada em ler essa autobiografia romanceada...
    As tuas melhoras!

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  16. Ofereceram-ma e leio tudo que me oferecem. Além disso, a prosa da Teolinda é boa; e quem ma ofereceu adorou o livro. O resto são desencantos com a pessoa de Freud. Porque as teorias, retirando os exageros, são bastante razoáveis.
    Do resto se verá. Agora a fisioterapia e depois, se não resultar, infiltrações. O tempo também ajuda a curar, ou pelo menos minorar algumas coisas

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  17. A "minha" teoria é: quem tem muitas teorias...tem pouca prática e logo alguém geralmente dificil de aturar e com pouca sensibilidade para as relações humanas. Acho que Freud deveria ser um desses...
    Essa paciente mulher o saberia melhor do que ninguém.
    Melhoras rápidas desse braço, Bea!

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  18. Parece-me que já estou a caminho, Dulce. Oxalá não me engane. Escrever tornou-se um pouco mais fácil:).
    Não será regra geral, mas é quase. Ninguém consegue servir a dois senhores; e por detrás de um génio qualquer há de certeza alguém que se esquece de si para agir quase só em função dele. Há uma abundância de grandes cabeças egoístas. Mesmo. E acho que nem dão por tal. O pior são as cabeças normalíssimas que também não dão por isso:). Aí é que bate o ponto; que, tanta vez, a gente não sabe o que lhes há-de fazer.
    Um abraço, Dulce. E bom fim de semana
    Bom fim de semana, Dulce

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