Quando
me apresentei na rua das Figueiras já ela era tal como a descrevo, uma rua
comprida e larga, murada a um lado e a outro por habitações contíguas como
casas de pisa-pisa, umas que se elevam em vaidades de primeiro andar, outras
térreas e sem pretensão, algumas humildes e envergonhadas, timidez de pobreza
que se adivinha. A disparidade de cores e enfeites faz supor obediência ao gosto e poder pessoal, pormenor
também muito variável e bastas vezes de expressão feroz, constatado Portugal
fora. Do plano urbanístico ninguém sabe
e diz vizinho Agnelo, um dos moradores mais antigos, coçando a cabeça à vista do
vidrado em azulejo verde que refulge na fachada, queriam tinta e uma barra,
veja bem; e depois vinham eles cá pintá-la todos os anos, não?! - e num assomo de orgulho sabedor, acrescenta,
boné em riste, – Está assim de nascença, não há coisa mais durativa que o
azulejo. Sacode o pó do boné na perna da calça e ainda mofa, estão para ali de
esqueleto ao alto e querem mandar no que é dos outros. E devolvendo o boné à
cabeça, a enterrá-lo com mãos habituadas, isso é que era bom, no que é meu mando eu, reverbera
a endireitar o tronco num rasgo de autoridade temerária. Vizinho Agnelo é
alentejano de perna curta que toda a gente conhece por “o tocador”. Em tardes encalmadiças,
senta-se o homem na sombra da esquina a tocar
acordéon, dedos nodosos que se fazem ágeis nos botões, cabeça ligeiramente de
lado, o fole da concertina a esticar e encolher. A mulher, avantajada e
resmungona criatura, voz de sargento que assusta todos os garotos com os seus destemperos,
assoma à rede da cozinha e ali fica, sentinela esquecida, pano da loiça na mão
e olhos de passado nascidos nas modinhas do seu tempo. Mais à frente, num
rectângulo de luz forte, os torrões da horta endurecem à torrina e as novidades
desmaiam de orelha murcha. Diz quem conhece, que o acordéon de Agnelo ajuda à
sesta dos homens e das coisas e que não há nos arredores legumes como os seus.
Pudera, são cuidados a desvelo e embalo musical. Agnelo toca virado à horta,
uma gota de suor nasce-lhe em bolhinhas na testa, engrossa e resvala até ao
pescoço. Na Rua das Figueiras não passa
um carro, só a música é viva e pulsa em surdina no ar quente. As plantas mergulham em hipnose, resvala-lhes
o caule em ponto de interrogação, as folhas desvitalizam e deslembram num
tentear de sono encalorado. Agnelo passa o lenço amarrotado pela cara,
limpa o suor do pescoço e volta a enfiá-lo no bolso. Depois, despe as alças do acordéon,
arruma-o na caixa e fixa o olhar na horta, que calmeiro, confirma. E entra em
casa com a carga.
Cada vez... os sons tomam conta de espaços onde as vozes a eles se sobrepunham!!! Bj e o meu 👏👏👏👏👏
ResponderEliminarBoa noite, Gracinha. Obrigada.
ResponderEliminarBom dia Bea!
EliminarNestes dias de calor só funciono de manhã e as tardes são passadas no aconchego do lar!
Aquela praia foi visitada quando regressava de uns dias no Algarve!!!
A ondulação era fraca! Detesto ondulação grande!!! Bj
Parece que está provado que as plantas também gostam de música. Os cientistas acham que as plantas são como animais muito lentos e que conseguem ver, ouvir, cheirar e até têm comportamentos.
ResponderEliminarBom domingo Bea, e tenha algum cuidado com a mulher do senhor Agnelo :)
:). A sabedoria popular chegou à mesma conclusão.
EliminarNão, voz de sargento é muito bom :P
ResponderEliminarGostei =)
Beijocas
parece que era o tom com que eu acordava o meu filho mais velho. Mas quanto mente a nossa voz, a vontade que tinha de o abraçar quando ia acordá-lo. Bastava vê-lo adormecido que logo me entrava a ternura. Ficou o que mostrei. O passado não tem emenda.
ResponderEliminarBoa semana, Cláudia.
Fez-me lembrar os tempos de juventude no parque de campismo da Figueira da Foz.
ResponderEliminarQuando havia muitos instrumentos musicais.
Até mesmo um acordeão.
Boa semana
No Alentejo ainda há quem o tenha em casa e o toque, Sabedoria que passa de pais a filhos e netos:). E talvez o mesmo aconteça noutras regiôes do país.
ResponderEliminarBoa semana, Pedro.
"Na Rua das Figueiras não passa um carro, só a música é viva e pulsa em surdina no ar quente. As plantas mergulham em hipnose, resvala-lhes o caule em ponto de interrogação, as folhas desvitalizam e abandonam-se num tentear de sono encalorado".
ResponderEliminarSim, creio que a música agrade às plantas. E o Agnelo sabe disso... Magnífico texto, como sempre.
Uma boa semana com muita saúde.
Um beijo.
Boa noite, Graça.
EliminarO calor alentejano chega a ser exasperante, sobretudo para quem não tem condições para minorá-lo.
Boa semana.
Perdoa-se o azulejo pelo toque do acordeão.
ResponderEliminarBoa semana
:) são dois sentidos com estímulos de sinal contrário.
ResponderEliminarObrigada, Magui.
Concordo! Não há coisa mais durativa que o azulejo! O Agnelo é uma figura e a mulher uma figuraça, que a Bea tão bem retratou. E esse Alentejo é mesmo para homens de barba dura, resistentes aos extremos do clima. A Bea é alentejana, não é? E eu aqui nascida e criada junto ao mar, fustigada pela nortada inclemente e nevoeiros cerrados, ainda assim, não trocava.
ResponderEliminarUm beijinho, querida Bea.
Nenhuma de nós trocava, Nina. O amor ao lugar onde nascemos bebe-se com o leite materno e não debota nem esvai.
EliminarMaravilhoso este texto, do azulejo ao acordeão.
ResponderEliminarGostei mesmo muito.
Vanessa Casais
https://primeirolimao.blogspot.com/
Obrigada, Vanessa.
ResponderEliminarQue belo retrato de um tipo de humano com todos os seus anexos. Adorei!
ResponderEliminarAbraço!
:) obrigada, prosa. A Rua das Figueiras é bem comprida.
ResponderEliminar