quinta-feira, 23 de julho de 2020

Dispersão


Encontrei a Violeta. A bem dizer, ela corre para mim mal me distingue a voz. Achaques da idade puseram-lhe a companheira doente e agora passeia apenas com o dono. Faço por encontrá-los, custa-me menos o caminho depois do nosso bom dia. E o pensamento, o tal que é livre só às vezes, trouxe-me Inês Pedrosa na Feira do Livro de um ano qualquer a dar-me um autógrafo sem sequer me olhar. Pequenina, montada em sandálias altas, um vestidinho cavado e de quase cerimónia, chegada de alguma máquina ou barraquinha de comes e bebes. Na mão, uma chávena de café.  Esperei que se sentasse na mesa de trabalho, vi-a pousar e adoçar o café. Bebeu-o. Não interrompi a conversa com a companheira. Empurrou a chávena para a borda da mesa, pegou na esferográfica e, sem interromper a conversa, nome. Olhei em volta, mas éramos só nós três. E portanto, nome, para mim. Eu que já tinha um autógrafo seu. A escritora conferenciara na minha terra e, no final, autografou livros. Nessa noite de primeira vez, parecia outra. Olhara a dedicatória que já estava desenhada no livro e comentara simpaticamente, estas sim, são as melhores dedicatórias. E apôs a sua assinatura, pareceu-me que satisfeita por ficar assim debaixo da dedicatória inicial. Foi esta cálida memória  que me fez bisar. Mas na Feira imiscuí. Parti-lhe a bica ao meio ou assim, quem sabe lhe arrepanhei a garganta na pressa de me despachar, vai lixar outro. E, meu dito meu feito, não deu palavra e até nem interrompeu a conversa que trazia de trás. Nada a ver com a qualidade de escrita que lhe reconheço ou a fluência verbal erudita com que nos ensina algumas coisas em programas de rádio. Pensei isto enquanto escolhia a parte do caminho com mais caruma e menos areia, que chatice, mas como é que eu ando que me salta areia para dentro dos ténis. Beatriz, convence-te, tu nunca soubeste andar. Dás passos, deslocas-te. António Ferro tem um poema onde se queixa de não saber viver, que é um relógio que pára de quando em quando, e etc. Balelas. A gente lê-lhe a vida e o homem desfez-se de tanto agir, e é que me sinto mesmo mal por comparação. Bom, se eu fizesse um poema diria, “não sei andar” – e servia-me da mesma metáfora “sou um relógio que para de quando em quando”, embora eu, para impedir a entrada da areia, levante os pés e pareça mais uma pata choca do que um relógio. Entretanto, finalmente, cheguei ao alcatrão e logo ténis e pés numa gratidão lisa e desempoeirada. E esqueci a Inês – a bem dizer já a tinha esquecido – e também António Ferro porque a névoa dissipou e as ideias poéticas achegam-se-me com a neblina. E não, não sei mesmo porquê, não me dá para investigar esse material, mas pode bem ser nostalgia, romantismo do mais parvo, sebastianismo encapotado. Sei lá. Bom, pareceu-me ouvir vozes e dei um soslaio à esquerda. Juro que os meus olhos lobrigaram uma índia de passo despachado, mas sem penas na cabeça. Uma Pocahontas atarracada e sem cintura, cara larga, cabelo desatado e bem comprido. Para aí na meia idade. Bué estranha. Calçava ténis, usava calções e vinha falando consigo mesma. O que uma pessoa vê num soslaio, fico parva. Andei um bocadinho mais depressa não fosse a mulher vir atrás de mim e meter conversa e eu de dialectos não entendo. O meu entendimento de índios vem dos filmes americanos onde pouco mais vocalizam que o Tarzan anterior à Jane; além do mais, aquela gente da América não é de fiar. É certo que li e dei a ler o discurso do chefe de tribo conhecido como O Papalagui (não o chefe, os Papalaguis somos mesmo nós), mas o que ali se ensina é outra coisa (tanta coisa). Portanto, quanto a conversas índias sou incapaz e não domino sinais de fumo. Mas, cá por coisas que não eram os ténis nem a areia,  já vinha a arrastar-me. E a índia depressa me alcançou. Deu-me um soslaio e a galope atirou, e a sua irmã como está, tenho de lhe ligar.
Ora esta.

21 comentários:

  1. A Violeta é uma colega minha de há mais de vinte anos.
    Bfds

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    1. Esta é uma caniche simpática e malcheirosa. Há um romance de Dulce Maria Cardoso, "Os meus sentimentos" em que a personagem principal se chama Violeta. Está muito bem urdido. A minha primeira cadela, baptizada por minha mãe, era Violeta. A mãe de um aluno, tinha o mesmo nome; morreu tão jovem o garoto. E não esqueço o seu sorriso singular, "o meu pai faz versos à minha mãe e diz-lhos logo de manhã". Era um garoto extraordinário, certa vez aproximou-se da minha mesa e comunicou, "minha senhora estou triste, apetece-me chorar". E eu, então chora. Foi para o lugar e chorou. E quem viu, alarmado, minha senhora ele está a chorar. Eu, está triste, deixem-no chorar enquanto tiver vontade; se estamos tristes, choramos, não é? E chorou calmamente um chão de compreensão a sustentá-lo. Penso muito nele e na sorte que foi tê-lo por perto durante quatro anos. Contudo, nesse tempo, não me ocupava a pensá-la.

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  2. Neste texto, a Violeta é uma cadela, penso eu.

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    1. Olá Teresa
      como disse ao Pedro, é uma caniche que faz o favor de me conhecer.

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    2. VIOLETA também era o nome da DAMA DAS CAMÈLIAS, penso eu!!!

      O texto, como sempre, um mimo.

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  3. Bea , neste texto demonstras bem como o pensamento é um cavalinho selvagem que dá pinotes e corre no tempo sem sair do espaço ou no espaço sem sair do tempo e estaca contente como se nada fosse. Parabéns!

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  4. Obrigada, prosa. Bom Fim de semana:)

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  5. «O que uma pessoa vê num soslaio».
    Pois é, cara amiga Beatriz (!), também eu já tive um encontro/desencontrado com a senhora dona Inês Pedrosa, mas não dá para contar agora como correu... Até porque ela não merece o meu tempo, nem o teu espaço.
    Já tive uma caniche linda! Morreu estrangulada pela coleira na porta do elevador. E eu, depois de derramar um rio de lágrimas decidi que jamais entraria outro animalzinho de 4 patas na minha vida. E não entrou!
    Bela prosa, Bea!
    Beijo, bom fim-de-semana.

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    1. Inês Pedrosa merece sim o nosso tempo. Costumo ouvi-la na rádio e aprecio-lhe os livros. É uma feminista inveterada facto que me agrada embora me pareça que força um bocadinho a tecla, escusava de desembainhar a espada por tudo e nada. Devo-lhe horas de prazer. Claro que merece o meu espaço, Teresa, talvez até seja mal empregada nele.
      Bom, os caniches não faziam a minha opção. Mas esta cadelita é meiga, amorosa e não ladra. O dono contou-me que a mulher está em casa da filha, noutra cidade. Sofreu um AVC que a deixou incapaz. Vive com as duas cadelitas e ele mesmo já sofreu um AVC que lhe torna difícil a conversação. A velhice é, nalguns casos, uma coroa de espinhos.

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  6. Também eu Bea já passei pelo sofrimento de ver partir uma companheira de 17 anos!!!
    Mais um momento de leitura a merecer o nosso aplauso!

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    1. Alguns animais fazem-nos mais companhia que muitos humanos, Gracinha. Talvez porque nos aceitam tal qual somos e estejam para nós como as pessoas não conseguem ou não querem, ou não podem por lhes faltar tempo, vontade, condições. Ou, quem sabe, o amor devotado deles nos é mais fácil e descomplicado.

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  7. Inês Pedrosa não me enche as medidas.
    Já a Violeta seria capaz de me arrebatar.
    Bom fim-de-semana

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  8. A Inês já foi uma das escritoras da minha preferência. Continuo a gostar dela, mas em medida mais curta. Hoje, prefiro Dulce Maria Cardoso. Amanhã terei talvez outro gosto. Não sei a que Violeta a Magui se refere, mas, aquela de quatro patas que encontro por vezes, é uma bolinha de carne e guedelha despenteada que muito me apraz:).
    BFS

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  9. Bom dia!

    Passei para ler e deixo-lhe

    saudações poéticas!

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  10. Adoro ler sobre a Violeta, pois já estou mesmo a imaginá-la =)

    Isso dos escritores, dos autógrafos, estou a ver que deve ser de todos....

    Beijocas

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    1. :). Cláudia, a Violeta é mesmo uma cadelinha mal cheirosa, remelenta e muito querida, sim. Digo, olha a minha amiga e ela vem correndo. E isto não é coisa de amor por mim. Mas conhece-me a voz e o dono também incentiva, olha quem vem além. Como se diz por aqui, "é muito dada", corre para todos com que se cruze.

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  11. Nunca li nada da Inês Pedrosa, mas ficou na minha lista negra. Olha a diva! Diva burocrata! Não gostei da atitude e com tanta gente de categoria a quem posso dedicar o meu precioso tempo, nunca a ela. Sou assim. Pessoa que se deixa marcar por má atitude. Não como a Bea, generosa e superior. Repito, na lista negra com a Pedrosa.
    Continua bem, Bea?
    Por cá tudo fino, mas sempre pisando ovos. Beijinhos

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    1. Tão, que é isso Nina? Não se põe assim um escritor na lista negra só por se apresentar distraído a dar um autógrafo. E os livros de Inês Pedrosa são estilosos, ainda que eu agora tenha outros amores literários e a que dou prioridade. E não me parece nem de longe uma diva burocrática. A sério. Só estava noutra. Pior para ela, não chegou a saber do prazer que me deu lê-la. Não soube que tenho pouquíssimos autógrafos por ser de lei pedi-los a quem eu entendo que mereça. Digamos que não é qualquer que deixo assinar os meus livros :).

      Pois é, vamos andar a pisar ovos por muito tempo. Porque me parece que a tal de vacina...bem, a medicina que me desculpe - bem vistas as coisas até me dá razão - mas duvido de vacinas que não têm uns anos de experimentação e julgo que não vou a correr vacinar-me quando ela exista. Portanto, posso bem vir a morrer de covid porque no Alentejo a gente até se esquece que ele existe. Ou de inércia. Mas entretanto estou viva. E tal.
      Tudo a correr bem, Nina.
      Estou benzinho, sim, Nina.

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  12. Gosto muito da forma como escreve. Gostei logo da Violeta, embora não seja muito chegada a cães (susto de criança). Gosto da escrita da Inês Pedrosa. As sessões de autógrafos tornam-se muitas vezes impessoais. Também não gosto quando me acontece.
    Uma boa semana com muita saúde.
    Um beijo.

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  13. Obrigada, Graça. As sessões de autógrafos são como tudo na vida, às vezes apanham-nos sem disposição:). Mas como a Inês agora já nem as faz na Feira do Livro (também por não haver Feira), é um autógrafo histórico.

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