Encontrei
a Violeta. A bem dizer, ela corre para mim mal me distingue a voz. Achaques da
idade puseram-lhe a companheira doente e agora passeia apenas com o dono. Faço
por encontrá-los, custa-me menos o caminho depois do nosso bom dia. E o
pensamento, o tal que é livre só às vezes, trouxe-me Inês Pedrosa na Feira do Livro
de um ano qualquer a dar-me um autógrafo sem sequer me olhar. Pequenina,
montada em sandálias altas, um vestidinho cavado e de quase cerimónia, chegada
de alguma máquina ou barraquinha de comes e bebes. Na mão, uma chávena de café.
Esperei que se sentasse na mesa de
trabalho, vi-a pousar e adoçar o café. Bebeu-o. Não interrompi a conversa com a
companheira. Empurrou a chávena para a borda da mesa, pegou na esferográfica e,
sem interromper a conversa, nome. Olhei em volta, mas éramos só nós três. E
portanto, nome, para mim. Eu que já tinha um autógrafo seu. A escritora conferenciara
na minha terra e, no final, autografou livros. Nessa noite de primeira vez, parecia
outra. Olhara a dedicatória que já estava desenhada no livro e comentara
simpaticamente, estas sim, são as melhores dedicatórias. E apôs a sua assinatura,
pareceu-me que satisfeita por ficar assim debaixo da dedicatória inicial. Foi esta
cálida memória que me fez bisar. Mas na
Feira imiscuí. Parti-lhe a bica ao meio ou assim, quem sabe lhe arrepanhei a
garganta na pressa de me despachar, vai lixar outro. E, meu dito meu feito, não
deu palavra e até nem interrompeu a conversa que trazia de trás. Nada a ver
com a qualidade de escrita que lhe reconheço ou a fluência verbal erudita com
que nos ensina algumas coisas em programas de rádio. Pensei isto enquanto escolhia
a parte do caminho com mais caruma e menos areia, que chatice, mas como é que
eu ando que me salta areia para dentro dos ténis. Beatriz, convence-te, tu nunca
soubeste andar. Dás passos, deslocas-te. António Ferro tem um poema onde se
queixa de não saber viver, que é um relógio que pára de quando em quando, e etc.
Balelas. A gente lê-lhe a vida e o homem desfez-se de tanto agir, e é que me
sinto mesmo mal por comparação. Bom, se eu fizesse um poema diria, “não sei
andar” – e servia-me da mesma metáfora “sou um relógio que para de quando em
quando”, embora eu, para impedir a entrada da areia, levante os pés e pareça
mais uma pata choca do que um relógio. Entretanto, finalmente, cheguei ao
alcatrão e logo ténis e pés numa gratidão lisa e desempoeirada. E esqueci a
Inês – a bem dizer já a tinha esquecido – e também António Ferro porque a névoa
dissipou e as ideias poéticas achegam-se-me com a neblina. E não, não sei mesmo
porquê, não me dá para investigar esse material, mas pode bem ser nostalgia,
romantismo do mais parvo, sebastianismo encapotado. Sei lá. Bom, pareceu-me
ouvir vozes e dei um soslaio à esquerda. Juro que os meus olhos lobrigaram uma
índia de passo despachado, mas sem penas na cabeça. Uma Pocahontas atarracada e
sem cintura, cara larga, cabelo desatado e bem comprido. Para aí na meia idade.
Bué estranha. Calçava ténis, usava calções e vinha falando consigo mesma. O
que uma pessoa vê num soslaio, fico parva. Andei um bocadinho mais depressa
não fosse a mulher vir atrás de mim e meter conversa e eu de dialectos não
entendo. O meu entendimento de índios vem dos filmes americanos onde pouco mais vocalizam que o Tarzan anterior à Jane; além do mais, aquela gente da América não
é de fiar. É certo que li e dei a ler o discurso do chefe de tribo
conhecido como O Papalagui (não o chefe, os Papalaguis somos mesmo nós), mas o
que ali se ensina é outra coisa (tanta coisa). Portanto, quanto a conversas índias sou
incapaz e não domino sinais de fumo. Mas, cá por coisas que não eram os ténis nem a areia, já vinha a arrastar-me. E a índia depressa me alcançou. Deu-me um soslaio e a galope atirou, e a sua irmã como está, tenho de
lhe ligar.
Ora
esta.
A Violeta é uma colega minha de há mais de vinte anos.
ResponderEliminarBfds
Esta é uma caniche simpática e malcheirosa. Há um romance de Dulce Maria Cardoso, "Os meus sentimentos" em que a personagem principal se chama Violeta. Está muito bem urdido. A minha primeira cadela, baptizada por minha mãe, era Violeta. A mãe de um aluno, tinha o mesmo nome; morreu tão jovem o garoto. E não esqueço o seu sorriso singular, "o meu pai faz versos à minha mãe e diz-lhos logo de manhã". Era um garoto extraordinário, certa vez aproximou-se da minha mesa e comunicou, "minha senhora estou triste, apetece-me chorar". E eu, então chora. Foi para o lugar e chorou. E quem viu, alarmado, minha senhora ele está a chorar. Eu, está triste, deixem-no chorar enquanto tiver vontade; se estamos tristes, choramos, não é? E chorou calmamente um chão de compreensão a sustentá-lo. Penso muito nele e na sorte que foi tê-lo por perto durante quatro anos. Contudo, nesse tempo, não me ocupava a pensá-la.
EliminarNeste texto, a Violeta é uma cadela, penso eu.
ResponderEliminarOlá Teresa
Eliminarcomo disse ao Pedro, é uma caniche que faz o favor de me conhecer.
VIOLETA também era o nome da DAMA DAS CAMÈLIAS, penso eu!!!
EliminarO texto, como sempre, um mimo.
Bea , neste texto demonstras bem como o pensamento é um cavalinho selvagem que dá pinotes e corre no tempo sem sair do espaço ou no espaço sem sair do tempo e estaca contente como se nada fosse. Parabéns!
ResponderEliminarObrigada, prosa. Bom Fim de semana:)
ResponderEliminar«O que uma pessoa vê num soslaio».
ResponderEliminarPois é, cara amiga Beatriz (!), também eu já tive um encontro/desencontrado com a senhora dona Inês Pedrosa, mas não dá para contar agora como correu... Até porque ela não merece o meu tempo, nem o teu espaço.
Já tive uma caniche linda! Morreu estrangulada pela coleira na porta do elevador. E eu, depois de derramar um rio de lágrimas decidi que jamais entraria outro animalzinho de 4 patas na minha vida. E não entrou!
Bela prosa, Bea!
Beijo, bom fim-de-semana.
Inês Pedrosa merece sim o nosso tempo. Costumo ouvi-la na rádio e aprecio-lhe os livros. É uma feminista inveterada facto que me agrada embora me pareça que força um bocadinho a tecla, escusava de desembainhar a espada por tudo e nada. Devo-lhe horas de prazer. Claro que merece o meu espaço, Teresa, talvez até seja mal empregada nele.
EliminarBom, os caniches não faziam a minha opção. Mas esta cadelita é meiga, amorosa e não ladra. O dono contou-me que a mulher está em casa da filha, noutra cidade. Sofreu um AVC que a deixou incapaz. Vive com as duas cadelitas e ele mesmo já sofreu um AVC que lhe torna difícil a conversação. A velhice é, nalguns casos, uma coroa de espinhos.
Também eu Bea já passei pelo sofrimento de ver partir uma companheira de 17 anos!!!
ResponderEliminarMais um momento de leitura a merecer o nosso aplauso!
Alguns animais fazem-nos mais companhia que muitos humanos, Gracinha. Talvez porque nos aceitam tal qual somos e estejam para nós como as pessoas não conseguem ou não querem, ou não podem por lhes faltar tempo, vontade, condições. Ou, quem sabe, o amor devotado deles nos é mais fácil e descomplicado.
EliminarInês Pedrosa não me enche as medidas.
ResponderEliminarJá a Violeta seria capaz de me arrebatar.
Bom fim-de-semana
A Inês já foi uma das escritoras da minha preferência. Continuo a gostar dela, mas em medida mais curta. Hoje, prefiro Dulce Maria Cardoso. Amanhã terei talvez outro gosto. Não sei a que Violeta a Magui se refere, mas, aquela de quatro patas que encontro por vezes, é uma bolinha de carne e guedelha despenteada que muito me apraz:).
ResponderEliminarBFS
Bom dia!
ResponderEliminarPassei para ler e deixo-lhe
saudações poéticas!
Obrigada:). Bom Dia.
ResponderEliminarAdoro ler sobre a Violeta, pois já estou mesmo a imaginá-la =)
ResponderEliminarIsso dos escritores, dos autógrafos, estou a ver que deve ser de todos....
Beijocas
:). Cláudia, a Violeta é mesmo uma cadelinha mal cheirosa, remelenta e muito querida, sim. Digo, olha a minha amiga e ela vem correndo. E isto não é coisa de amor por mim. Mas conhece-me a voz e o dono também incentiva, olha quem vem além. Como se diz por aqui, "é muito dada", corre para todos com que se cruze.
EliminarNunca li nada da Inês Pedrosa, mas ficou na minha lista negra. Olha a diva! Diva burocrata! Não gostei da atitude e com tanta gente de categoria a quem posso dedicar o meu precioso tempo, nunca a ela. Sou assim. Pessoa que se deixa marcar por má atitude. Não como a Bea, generosa e superior. Repito, na lista negra com a Pedrosa.
ResponderEliminarContinua bem, Bea?
Por cá tudo fino, mas sempre pisando ovos. Beijinhos
Tão, que é isso Nina? Não se põe assim um escritor na lista negra só por se apresentar distraído a dar um autógrafo. E os livros de Inês Pedrosa são estilosos, ainda que eu agora tenha outros amores literários e a que dou prioridade. E não me parece nem de longe uma diva burocrática. A sério. Só estava noutra. Pior para ela, não chegou a saber do prazer que me deu lê-la. Não soube que tenho pouquíssimos autógrafos por ser de lei pedi-los a quem eu entendo que mereça. Digamos que não é qualquer que deixo assinar os meus livros :).
EliminarPois é, vamos andar a pisar ovos por muito tempo. Porque me parece que a tal de vacina...bem, a medicina que me desculpe - bem vistas as coisas até me dá razão - mas duvido de vacinas que não têm uns anos de experimentação e julgo que não vou a correr vacinar-me quando ela exista. Portanto, posso bem vir a morrer de covid porque no Alentejo a gente até se esquece que ele existe. Ou de inércia. Mas entretanto estou viva. E tal.
Tudo a correr bem, Nina.
Estou benzinho, sim, Nina.
Gosto muito da forma como escreve. Gostei logo da Violeta, embora não seja muito chegada a cães (susto de criança). Gosto da escrita da Inês Pedrosa. As sessões de autógrafos tornam-se muitas vezes impessoais. Também não gosto quando me acontece.
ResponderEliminarUma boa semana com muita saúde.
Um beijo.
Obrigada, Graça. As sessões de autógrafos são como tudo na vida, às vezes apanham-nos sem disposição:). Mas como a Inês agora já nem as faz na Feira do Livro (também por não haver Feira), é um autógrafo histórico.
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