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sexta-feira, 17 de julho de 2020

Pequenos Mistérios


Quem passe na parte norte da rua pode vê-la sentada por detrás da janela entreaberta, a alvura floral da cortina de étamine em moldura oscilante a confundir-se com os caracóis de neve. D. Brites viveu sempre de janela. Não por ser metediça e cusca. A velha senhora, agora de lencinho branco secando lágrima teimosa, foi apanhadora de malhas caídas em meias de nylon, teias de aranha que, por natureza frágil e transparência íntima, eram chamadas meias de vidro. Não que se usassem no meu tempo de cómodos collants que riem de ligas e cintos de ligas, prescindem da sedução de endireitar costuras e se refugiam em tons opacos quando as pernas não são exibíveis ou o frio  ordena, acordando filmes antigos de Robin dos Bosques. O trabalho de D. Brites era aturado esforço de relojoeiro zelando pela beleza de tíbias e perónios femininos. Munida de um cilindro metálico oco, deslizava a meia com vagar até exibir no oco do cilindro o buraco feito pela malha caída. Depois, manejava uma agulha longa e de ponta fina até encontrar a malha que resolvera desenfiar-se e subir ou descer a escada do nylon. E, em movimentos certeiros e rápidos, o cabo da agulha num frenesim espasmódico, levava-a pelo caminho certo até ao lugar de onde escapulira. Em seguida, passava uma mão de dedos abertos por dentro dela, e diz quem viu que se satisfazia com o toque de seda sem sinal de desacerto. Carinhosa, dobrava e arrumava a peça como quem deita filho em berço e passava à seguinte. Brites era a maga da rua.  Nessa época, um par de meias de nylon valia como bem pessoal, riqueza que ascendia até à coxa onde a liga a esperava, cuidados de palma de mão a encaminhá-la, não fosse uma unha mal cortada ou um espinho  de carne molestar o moreno cetinoso, luxo de pernas juvenis e exigência de qualquer senhora. Meias deste quilate acendiam o apetite dos homens e guardavam-se para dias especiais, um cuidado a sentar e zelo extremado na movida de pernas, que qualquer repuxar as magoava e logo  lágrimas-malha se perdiam perna acima ou abaixo.
E a Brites alcandorada à luz da janela que lhe serviu a profissão, perdidos os olhos de relojoeiro, lencinho a rescender a alfazema, não menina, arrumei o estojo; há anos que não mexo na agulha. Já não sou capaz, pois não vê que choro desta vista a toda a hora. E numa constatação queixosa, foram muitos anos a castigá-la. E agora, olhe, vai-se-me por aqui o desgosto da vida que à outra lhe secou a nascente e não deita gota. E depois, suspicaz, quais figueiras, menina, isto era um mato só e uma casinha lá à ponta, bem ao fundo, onde é hoje o que chamam jardim   e que pega com a Estrada da Cabaça. Naquele casinhoto, menina, moravam as Figueiras, duas irmãs que aqui aportaram raparigas feitas e que punham à roda a cabeça dos homens. Deixaram que contar, Deus lhes tenha a alminha em descanso que já lá estão as duas. As maganas eram bonitas até fartar e desempoeiradas que só visto. Se a inveja matasse, tinham morrido na primeira semana. E em lembrança consternada, abanando a cabeça, valha-me Deus, o que por aí havia…. Mas elas, alegres e faceiras como não vi. E olhe, os pés dos homens é que fizeram a rua. A menina ri-se. Mas lá que havia um carreiro mato afora até à porta delas, havia.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Pequenos Mistérios


Quando me apresentei na rua das Figueiras já ela era tal como a descrevo, uma rua comprida e larga, murada a um lado e a outro por habitações contíguas como casas de pisa-pisa, umas que se elevam em vaidades de primeiro andar, outras térreas e sem pretensão, algumas humildes e envergonhadas, timidez de pobreza que se adivinha. A disparidade de cores e enfeites faz supor  obediência ao gosto e poder pessoal, pormenor também muito variável e bastas vezes de expressão feroz, constatado Portugal fora.  Do plano urbanístico ninguém sabe e diz vizinho Agnelo, um dos moradores mais antigos, coçando a cabeça à vista do vidrado em azulejo verde que refulge na fachada, queriam tinta e uma barra, veja bem; e depois vinham eles cá pintá-la todos os anos, não?!  - e num assomo de orgulho sabedor, acrescenta, boné em riste, – Está assim de nascença, não há coisa mais durativa que o azulejo. Sacode o pó do boné na perna da calça e ainda mofa, estão para ali de esqueleto ao alto e querem mandar no que é dos outros. E devolvendo o boné à cabeça, a enterrá-lo com mãos habituadas, isso é que era bom, no que é meu mando eu, reverbera a endireitar o tronco num rasgo de autoridade temerária. Vizinho Agnelo é alentejano de perna curta que toda a gente conhece por “o tocador”. Em tardes encalmadiças, senta-se o homem na sombra da esquina  a tocar acordéon, dedos nodosos que se fazem ágeis nos botões, cabeça ligeiramente de lado, o fole da concertina a esticar e encolher. A mulher, avantajada e resmungona criatura, voz de sargento que assusta todos os garotos com os seus destemperos, assoma à rede da cozinha e ali fica, sentinela esquecida, pano da loiça na mão e olhos de passado nascidos nas modinhas do seu tempo. Mais à frente, num rectângulo de luz forte, os torrões da horta endurecem à torrina e as novidades desmaiam de orelha murcha. Diz quem conhece, que o acordéon de Agnelo ajuda à sesta dos homens e das coisas e que não há nos arredores legumes como os seus. Pudera, são cuidados a desvelo e embalo musical. Agnelo toca virado à horta, uma gota de suor nasce-lhe em bolhinhas na testa, engrossa e resvala até ao pescoço.  Na Rua das Figueiras não passa um carro, só a música é viva e pulsa em surdina no ar quente.  As plantas mergulham em hipnose, resvala-lhes o caule em ponto de interrogação, as folhas desvitalizam e deslembram num tentear de sono encalorado.   Agnelo passa o lenço amarrotado pela cara, limpa o suor do pescoço e volta a enfiá-lo no bolso. Depois, despe as alças do acordéon, arruma-o na caixa e fixa o olhar na horta, que calmeiro, confirma. E entra em casa com a carga.

sábado, 27 de junho de 2020

Pequenos Mistérios


Vejo-lhe o perfil atento à condução. É uma mulher madura, cabelo branco bem curtinho, mas nova para a rua. Portanto, o diz que diz continua no vermelho. Não deu livre trânsito à bisbilhotice do bairro quando a vizinha que passeia os cães tentou meter conversa enquanto ela carregava caixas do carro para casa; também não houve alma a ajudar na mudança, além dos funcionários da empresa “A  Transportadora Ideal” que se soube pelas letras mais pequenas ser de Ourém, lugar estrangeiro a toda a rua. Ninguém arriscou perguntas que a azáfama dos homens fez supor outras mudanças em espera. Isto de empresas, já se sabe, lucram à conta do suor dos empregados. Pelas portas, os vizinhos intrigavam semi sumidos na rede mosquiteira: um pedaço da bata, desta; uma perna de calça, daquele; além, a testa larga de D. Branca sobressaindo, riscada de alto a baixo por uma fita escura e em hélice a acompanhar o estupor do corpo. Descia pela lateral do nariz até ao intervalo entre as pernas pesadas, a ponta oscilando mansamente na  inveja do andar de cima onde o conforto impávido de bata e  botões  alargava no redondo da barriga. D. Branca, a boca uma linha de dureza céptica atravessada pelo retorcido da fita, seguia com olhos de detective a figura miúda da nova moradora. A rua inteira respeita D. Branca, senhora de grandes poderes. Esconjura com copos os males do mundo e queixa-se massajando o pescoço, cansam-me muito, tenho de me deixar disto que puxam demais por mim, dão-me cabo da espinha. E depois, num lamento magoado e profissional, acrescenta, nada paga os males que me traz esta cura pelos copos, mas as pessoas gostam, fazer o quê?! E deixa-nos com a dúvida crucial e a vontade de um dia lhe subir ao sótão, tirar sapatos, despir apertos e enfiar uma das batas brancas que às vezes lhe esvoaçam no estendal, deitar na maca e pedir, deite-me os copos, vizinha, esconjure os males todos, dê-me a leveza dos pássaros. E mais a mais, pergunto eu, aqui que ninguém nos ouve, como serão os copos, que feitio e tamanho têm, estarão vazios ou cheios, serão copos de água, vinho ou licor.
E depois deste aparte que D. Branca merece e a que um dia voltarei, digo que não se conseguiu mais sobre a nova vizinha. Não tem animais de estimação além do automóvel que nos passa às portas em ronronar manso e sem grão de areia, os metais a encandear. Sabe o nosso radar, senhora que também merece crónica, que não recebeu até hoje qualquer visita e apenas lhe param na porta, para entrega de mercearias, as carrinhas respectivas. Janelas abertas e música dão conta de estar em casa, mas o quintal mantém-se deserto, não cultiva  flor no vazio dos canteiros ou planta nas traseiras.
Suponho que entendo o cepticismo inicial de D. Branca, ali não há cliente.