Quem
passe na parte norte da rua pode vê-la sentada por detrás da janela entreaberta,
a alvura floral da cortina de étamine em moldura oscilante a confundir-se com
os caracóis de neve. D. Brites viveu sempre de janela. Não por ser metediça e
cusca. A velha senhora, agora de lencinho branco secando lágrima teimosa, foi apanhadora de malhas caídas em meias de nylon, teias de aranha que, por
natureza frágil e transparência íntima, eram chamadas meias de vidro. Não que se
usassem no meu tempo de cómodos collants que riem de ligas e cintos de ligas, prescindem
da sedução de endireitar costuras e se refugiam em tons opacos quando as pernas
não são exibíveis ou o frio ordena, acordando
filmes antigos de Robin dos Bosques. O trabalho de D. Brites era aturado
esforço de relojoeiro zelando pela beleza de tíbias e perónios femininos.
Munida de um cilindro metálico oco, deslizava a meia com vagar até exibir no
oco do cilindro o buraco feito pela malha caída. Depois, manejava uma agulha longa
e de ponta fina até encontrar a malha que resolvera desenfiar-se e subir ou descer a
escada do nylon. E, em movimentos certeiros e rápidos, o cabo da agulha num
frenesim espasmódico, levava-a pelo caminho certo até ao lugar de onde escapulira. Em seguida, passava uma mão de dedos abertos por dentro dela, e diz
quem viu que se satisfazia com o toque de seda sem sinal de desacerto. Carinhosa,
dobrava e arrumava a peça como quem deita filho em berço e passava à seguinte.
Brites era a maga da rua. Nessa época,
um par de meias de nylon valia como bem pessoal, riqueza que ascendia até à
coxa onde a liga a esperava, cuidados de palma de mão a encaminhá-la, não fosse
uma unha mal cortada ou um espinho de
carne molestar o moreno cetinoso, luxo de pernas juvenis e exigência de
qualquer senhora. Meias deste quilate acendiam o apetite dos homens e guardavam-se para
dias especiais, um cuidado a sentar e zelo extremado na movida de pernas, que
qualquer repuxar as magoava e logo lágrimas-malha se perdiam perna acima ou abaixo.
E
a Brites alcandorada à luz da janela que lhe serviu a profissão, perdidos os
olhos de relojoeiro, lencinho a rescender a alfazema, não menina, arrumei o
estojo; há anos que não mexo na agulha. Já não sou capaz, pois não vê que choro
desta vista a toda a hora. E numa constatação queixosa, foram muitos anos a castigá-la.
E agora, olhe, vai-se-me por aqui o desgosto da vida que à outra lhe secou a
nascente e não deita gota. E depois, suspicaz, quais figueiras, menina, isto
era um mato só e uma casinha lá à ponta, bem ao fundo, onde é hoje o que chamam
jardim e que pega com a Estrada da Cabaça. Naquele
casinhoto, menina, moravam as Figueiras, duas irmãs que aqui aportaram
raparigas feitas e que punham à roda a cabeça dos homens. Deixaram que contar,
Deus lhes tenha a alminha em descanso que já lá estão as duas. As maganas eram
bonitas até fartar e desempoeiradas que só visto. Se a inveja matasse, tinham
morrido na primeira semana. E em lembrança consternada, abanando a cabeça,
valha-me Deus, o que por aí havia…. Mas elas, alegres e faceiras como não vi. E
olhe, os pés dos homens é que fizeram a rua. A menina ri-se. Mas lá que havia um
carreiro mato afora até à porta delas, havia.