domingo, 10 de fevereiro de 2019

Era uma vez...


Era o princípio da tarde e o ar tremia de calor quando a visão e o som  inconfundível da ladainha e de muitos pés pisando em lenta cadência fez parar o trânsito. Ela seguia quase colada ao carro que ronrovava a passo, indiferente ao esfalfamento de gasóleo, imune à inclemência do sol, cega à exuberância clara da tarde e às folhas das árvores que ladeavam a estrada e pendiam exaustas, não aguentamos mais. Caminhava. Devagar, lentamente, um pé depois do outro. Seguia amparada numa das filhas, um maciço de caracóis loiros a esmo pelas costas, cabeça ligeiramente inclinada para a frente. Não chorava. Não gemia. Lábios e olhos secos, movia o corpo como se lhe fora exterior, objecto de comando a que apenas importava dar corda. Atrás, a imensa mole humana que se arrastava encalorada e condoída, leques num sufrágio de brisa que não havia, “coitada!”.
O calor esparramava sobre a multidão por entre padres nossos e avé marias que o prior ditava abrigado em sombrinha escura e  a que poucos respondiam, cada um ocupado a fintar a canícula, olhos em ânsia de refrigério, aqui a tira sombria de uma esquina, ali a fita de camioneta carregada, acolá moita mais basta. Um inferno de sol plasmava-se sem quebra sobre o compacto de gente e o suor escorria. Viam-se sombrinhas abertas, boinas e bonés que abandonaram o respeito das mãos pela cabeça escaldada, chapéus de palha chinesa, mãos desprevenidas que se lançavam a equilibrar papeis e folhas de jornal no cocuruto. Ao arrepio das orações, as conversas em surdina, constatações tristes e conformadas, diz que piorou de repente, coitadinho do rapaz tão novo e já lá está; quando a doença é malina não há nada a fazer; e a mãe, tenho pena dela, que não há pior desgosto, está um caco; pudera. E as linguarudas apreciando as tricas como quem revira rendados de lençol, vês aquele, é o pai. Agora parece que vive na América, é um pedaço de homem, não me admira que a gaiata se tenha embeiçado. E os muitos que acompanhavam fugindo do calmeiro às carreirinhas, de sombra em sombra, e já pensando na vida, ainda tenho de passar no super que me falta pão, daqui vou à oficina ver a afinação dos travões; mal isto acabe piro-me para o café que não há tristeza que uma cervejinha gelada não cure.
Mas ela indiferente, mergulhada no círculo de gasóleo de que todos fugiam, olhando os pés, um agora e depois o outro, o alcatrão tão igual, talvez que sempre o mesmo, talvez os pés numa passadeira de alcatrão. E o riso do filho no ginásio, correndo na passadeira, não és capaz. O filho a desafiar-lhe o torpor, cobrindo-se de suor jovem, o corpo a ganhar brilho, não és capaz mãe, não consegues.

9 comentários:

  1. A bea sabe como contar uma história e esta, sendo das que nem quero imaginar, impressiona-me.

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  2. Verdade, Luísa. É uma história que ninguém quer para si ou os seus. Mas existe. E seja onde e com quem for que exista, existe sempre com muita força.

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  3. A sua escrita, bea, é absolutamente brilhante.
    Uma história comovente mas, sem piéguices.

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  4. Infelizmente faz-se assim a história de algumas mulheres. E oxalá não seja nunca a nossa história.
    Boa semana, Teresa

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  5. Uma história com o sabor amargo de muita VIDA e tão bem escrita!!! Bj

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  6. Como dizia Saramago, as procissões (...) são ocasiões em que as almas e os corpos se debilitam. Achei muita prosa para tão pouco fumo (excepcionando o do gasóleo), ou então ainda a procissão vai no adro...

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  7. Esta não é uma procissão desejada.
    É verdade, escrevo demais, uso muita palavra para dizer pouco, mas que se há-de fazer, é mal de raiz. Mas só lhe pega quem quer, a janela é aberta, mas há muito quem não espreite:)
    Boa noite

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  8. Talvez tenha exagerado, mas perante comentários acima a classificar a história de impressionante, comovente e com sabor amargo de muita vida, fui reler e dei comigo a pensar o que é que estas senhoras viram que me tenha escapado. Caramba...ainda quase nada foi desvendado da história, ou então sou eu que sou burro. Não Bea, não escreve demais, até pegando nas suas palavras diria que elas são antes a sua raiz e asa.

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